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Will Bank: O fim de um banco digital voltado à inclusão financeira no Nordeste

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Will Bank: O fim de um banco digital voltado à inclusão financeira no Nordeste

Quando o Will Bank apareceu no cenário brasileiro, a promessa era clara: levar serviços bancários de verdade para quem ainda era deixado de lado pelos grandes bancos. A proposta de um banco digital focado em renda baixa e média, com linguagem simples e campanhas cheias de humor, conquistou rapidamente milhões de clientes, sobretudo no Nordeste. Mas, em menos de uma década, o que parecia ser um exemplo de democratização do crédito acabou sendo liquidado pelo Banco Central.



Um sonho nascido em 2017 no Espírito Santo

A história do Will Bank começa em 2017, no estado do Espírito Santo, quando Felipe Felix, junto aos irmãos Giovanni e Walter Piana, lançaram a pag!, um emissor de cartões de crédito. A ideia era simples: criar um produto que não exigisse a burocracia típica dos bancos tradicionais e que fosse aceito nas lojas físicas e online.

Em 2020, a empresa decidiu ampliar o escopo e adotou a marca Will Bank. Não era mais só cartão; passou a oferecer conta digital remunerada, pagamentos via PIX, empréstimos pessoais, antecipação do saque‑aniversário do FGTS e até um marketplace com cashback. A linguagem da comunicação – emojis, memes e vídeos curtos – falava direto ao público jovem e, sobretudo, aos moradores de cidades pequenas do Nordeste.

Por que o Nordeste foi o foco?

O Nordeste brasileiro reúne cerca de 60% dos usuários do Will Bank. Essa região tem, historicamente, menos acesso a agências bancárias e maior taxa de informalidade no trabalho. O Will Bank viu nisso uma oportunidade de preencher um vazio: oferecer crédito de forma rápida, sem precisar de comprovação de renda extensa, e ainda garantir que o cliente pudesse gerenciar tudo pelo celular.

Com isso, a fintech chegou a anunciar que já tinha 12 milhões de clientes. Se esses números são reais ou inflados, o importante é que a percepção de que um banco “para o povo” existia realmente se espalhou.

Estratégias de marketing que pareciam acertar na mosca

Para ganhar visibilidade, o Will Bank investiu pesado em celebridades e influenciadores. Whindersson Nunes, Maísa, Pabllo Vittar, Simone, Thelminha e o atacante Vinícius Jr. apareceram em vídeos que explicavam, de forma descontraída, como abrir a conta, usar o cartão e aproveitar o cashback.

Uma das campanhas mais comentadas foi a de Whindersson no “Dia do Nordestino”. O humor regional, aliado a um discurso de inclusão, fez o banco se tornar quase uma referência cultural para quem vivia longe dos grandes centros. Além disso, a marca se posicionou como diversa, com ações envolvendo a cantora Danny Bond e outras personalidades LGBTQ+.

Os números que pareciam bons, mas que escondiam fragilidades

No primeiro semestre de 2024, o Will Bank anunciou lucro líquido de R$ 47,4 milhões, revertendo prejuízos acumulados. O resultado parecia indicar que a estratégia de expansão estava dando frutos. Em 2021, a fintech recebeu um aporte de R$ 250 milhões da XP e da Atmos Capital, que passaram a deter 24,9% da empresa.

Entretanto, esses números positivos eram parcialmente mascarados por uma dependência perigosa: o vínculo com o Banco Master. Quando o Master foi liquidado em novembro de 2025, a saúde financeira do Will Bank começou a desmoronar. Segundo o Banco Central, a instituição acumulava cerca de R$ 7 bilhões em passivos e R$ 8 bilhões em transações correntes com a bandeira Mastercard.



O que levou à liquidação extrajudicial?

A sequência dos eventos foi rápida. Em 19 de janeiro de 2026, a Mastercard informou que o Will Bank não honrou os pagamentos devidos. No dia seguinte, o próprio banco suspendeu a aceitação de seus cartões. O Banco Central, que já havia colocado a Will Financeira sob regime de administração temporária, concluiu que não havia mais alternativas viáveis para reestruturar a empresa.

A tentativa de vender a controladora a um investidor árabe também fracassou. Sem recursos, sem apoio do Master e com dívidas que não podiam ser renegociadas, a única saída foi a liquidação extrajudicial, decretada em 21 de janeiro de 2026.

O que isso significa para os clientes?

Para quem tem conta, cartão ou CDBs no Will Bank, a notícia traz dúvidas e preocupação. A liquidação extrajudicial implica que a instituição deixará de operar, mas o Banco Central tem a obrigação de organizar o pagamento aos credores, incluindo os clientes. Em geral, os saldos de conta corrente e poupança são protegidos até o limite do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil por pessoa e por instituição.

No entanto, o processo pode ser demorado. Enquanto os ativos são liquidados, os clientes podem enfrentar restrições para movimentar recursos, fazer transferências ou usar o cartão. Muitos relatos já surgiram nas redes sociais, com usuários descrevendo falhas ao tentar pagar contas ou transferir dinheiro depois da intervenção do BC.

Liçōes para o ecossistema fintech brasileiro

O caso do Will Bank traz alguns aprendizados importantes:

  • Dependência de um único controlador: confiar demais no Banco Master acabou sendo fatal. Diversificar a estrutura societária pode reduzir riscos.
  • Gestão de passivos: acumular bilhões em dívidas sem um plano claro de pagamento pode colocar toda a operação em risco.
  • Regulação proativa: o Banco Central atuou rapidamente, mas a falta de um plano de contingência para os clientes mostrou a necessidade de regras mais claras sobre a proteção de usuários de fintechs.
  • Comunicação transparente: durante a crise, o Will Bank demorou a informar seus clientes, gerando pânico e desconfiança. Uma comunicação clara e precoce poderia ter mitigado parte do impacto.

O futuro da inclusão financeira no Brasil

Apesar do fim do Will Bank, a demanda por serviços financeiros acessíveis não desaparece. O Nordeste ainda tem milhões de pessoas sub-bancarizadas, e a tecnologia continua a abrir caminhos – desde contas digitais de bancos tradicionais até novas fintechs que aprendem com os erros do passado.

Algumas tendências que podem ganhar força:

  • Parcerias com bancos tradicionais: usar a infraestrutura já existente para oferecer produtos de inclusão, reduzindo custos operacionais.
  • Modelos de crédito baseado em dados alternativos: usar histórico de pagamento de contas de luz, água e telefone para avaliar risco, ao invés de documentos formais.
  • Plataformas de educação financeira: ensinar o uso consciente de crédito e investimentos pode aumentar a confiança dos usuários e reduzir inadimplência.

É claro que o caminho não será fácil, mas a experiência do Will Bank serve como um alerta: inovação sem solidez financeira pode ser tão perigosa quanto a falta de inovação.

Conclusão

O Will Bank chegou com tudo, conquistou milhões de clientes e trouxe um discurso de democratização do crédito que faltava no Brasil. No entanto, a falta de independência financeira e a exposição a um controlador em crise foram sua ruína. Para quem ainda busca inclusão financeira, a lição é escolher instituições que, além de inovadoras, tenham bases sólidas e estejam sob supervisão rigorosa.

Se você tem dinheiro ou dívidas no Will Bank, fique atento às comunicações do Banco Central e procure o FGC para entender seus direitos. E, se ainda não tem conta, vale a pena pesquisar opções que combinam tecnologia, custo baixo e segurança regulatória.