Radar Fiscal

Volkswagen e o Salão do Automóvel: Por que a gigante alemã ainda não voltou ao palco brasileiro?

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Volkswagen e o Salão do Automóvel: Por que a gigante alemã ainda não voltou ao palco brasileiro?

Introdução

Quando o Salão do Automóvel de São Paulo voltou a acontecer depois de sete anos de pausa, a expectativa era alta. O evento costuma ser o ponto de encontro das maiores montadoras, onde lançamentos, conceitos futuristas e muita mídia se concentram. Mas, para a Volkswagen, o retorno ainda está em aberto. Em entrevista exclusiva ao g1 Carros, o presidente da VW Brasil, Ciro Possobom, explicou detalhadamente o que o fez ficar de fora em 2025 e o que poderia mudar a decisão para 2027.

Por que a VW ficou de fora?

Não foi uma questão de arrependimento ou de falta de recursos. O motivo principal, segundo Possobom, foi o formato do evento e a ausência de concorrentes de peso. Ele descreve um salão “forte” como aquele que reúne todas as marcas relevantes, criando um ambiente de competição saudável e atraindo o público em massa.

  • Formato de galpão fechado, com estandes pequenos e pouco interativos.
  • Falta de marcas premium e de nicho que costumam gerar grande buzz (Audi, BMW, Porsche, etc.).
  • Experiência considerada pouco inovadora comparada a eventos ao ar livre que a VW tem realizado na Europa.

Esses fatores fizeram a montadora avaliar que o retorno ao salão naquele momento não traria o retorno de investimento desejado.

O que seria um salão “forte”?

Para Ciro Possobom, a força de um salão vem de três pilares:

  1. Presença de todas as marcas: Quando todos os players – de luxo a populares – marcam presença, o público sente que está vendo o panorama completo do mercado.
  2. Formato inovador: Estandes que convidam o visitante a experimentar, testar e interagir, ao invés de simplesmente observar. Na Europa, a VW tem feito isso em praças e áreas abertas, algo que o público brasileiro parece estar pedindo.
  3. Experiência de mídia: Cobertura ao vivo, transmissões digitais e espaços para influenciadores. Sem isso, o evento perde parte da sua relevância nas redes.

Se o Salão conseguir alinhar esses três pontos, a Volkswagen indica que pode considerar um retorno já em 2027.

O futuro da VW no Brasil: SUVs, hatches e eletrificação

Mesmo fora do salão, a Volkswagen tem mantido o ritmo de lançamentos. O Tera, SUV que chegou ao mercado em 2024, mostrou a força da marca no segmento que domina as vendas brasileiras: os utilitários.

Os números atuais revelam que 54% dos veículos emplacados são SUVs, enquanto hatches respondem por 24,6%. A VW oferece seis SUVs (Tera, Nivus, T‑Cross, Taos, Tiguan e ID.4), dois hatches (Polo e Golf GTI) e ainda picapes e minivans. Apesar da preferência clara pelos SUVs, o presidente reforça que “o hatch ainda é importante”.

Quanto à eletrificação, a realidade ainda é limitada. No Brasil, apenas os modelos 100% elétricos ID.4 e ID.Buzz estão disponíveis por assinatura, enquanto concorrentes já vendem híbridos e elétricos de fábrica. O principal obstáculo, segundo Possobom, é o custo adicional que a bateria traz ao preço final.

  • Um híbrido leve pode encarecer o carro em R$ 10 mil.
  • Um híbrido pleno ou plug‑in pode elevar o preço em R$ 30 mil a R$ 40 mil.

Para o consumidor que busca um carro em torno de R$ 120 mil, esse salto pode ser decisivo. Por isso, a estratégia da Volkswagen para os próximos anos inclui lançar versões eletrificadas a partir de 2026, mas focando em híbridos flex que se adequem ao perfil de quem roda 13‑15 mil km por ano e ainda se preocupa com o valor residual do veículo.

O papel dos juros e da produção nacional

A Volkswagen também apontou fatores macroeconômicos que influenciam o desempenho do mercado automotivo brasileiro. Segundo Possobom, três itens poderiam elevar o número de emplacamentos acima da projeção de 2,55 milhões para 2025:

  1. Juros mais baixos: A Selic em 15% encarece o financiamento. Uma queda para 12% (previsão para 2026) tornaria o crédito mais acessível.
  2. Aumento da produção nacional: Mais unidades produzidas no país reduzem custos logísticos e de importação, permitindo preços mais competitivos.
  3. Regulamentação menos rígida: O PL 8, que traz normas mais estritas de emissão, eleva o custo de desenvolvimento e produção. Uma flexibilização poderia aliviar o preço final ao consumidor.

Esses pontos mostram que a decisão de voltar ao salão não depende apenas de questões de marketing, mas também de um cenário econômico favorável.

O que esperar para 2027?

Se a Volkswagen decidir participar do próximo Salão, podemos esperar algumas mudanças:

  • Um estande maior, possivelmente ao ar livre, com test‑drives de novos modelos.
  • Apresentação de uma versão híbrida ou plug‑in do Tera, como forma de testar a aceitação do público brasileiro.
  • Parcerias com influenciadores digitais para ampliar o alcance nas redes sociais.

Além disso, a presença de outras marcas premium que ficaram de fora em 2025 pode tornar o evento mais atrativo. Se a concorrência voltar, a lógica de “salão forte” pode se concretizar.

Conclusão

O afastamento da Volkswagen do Salão do Automóvel de 2025 não foi um sinal de fraqueza, mas sim uma decisão estratégica baseada em formato, presença de concorrentes e retorno sobre investimento. O presidente Ciro Possobom deixa claro que, se o evento evoluir para um modelo mais interativo e contar com a participação de todas as grandes marcas, a VW pode voltar em 2027.

Enquanto isso, a montadora foca em lançar SUVs que atendem ao gosto do brasileiro, manter o hatch como opção relevante e preparar a eletrificação da linha, ainda que de forma cautelosa para não afastar o consumidor por preços excessivos.

Para quem acompanha o mercado automotivo, a mensagem é simples: fique de olho nas mudanças de formato dos eventos e nas políticas de juros. Eles são, muitas vezes, os verdadeiros motores que movem a decisão das grandes montadoras.