Na última terça‑feira (6), a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a nomeação de Calixto Ortega Sánchez como vice‑presidente da área econômica. A mudança pode parecer apenas mais um ajuste de gabinete, mas, considerando a gravidade da crise econômica venezuelana, ela tem potencial para rever caminhos que há anos permanecem estagnados.
Um pouco de contexto: por que a economia da Venezuela está em estado crítico?
Desde 2014, o país enfrenta uma das maiores crises inflacionárias da história recente. A moeda local, o bolívar, perdeu cerca de 500% do seu valor, gerando escassez de produtos básicos e um êxodo de profissionais qualificados. O controle rígido de preços, as políticas de câmbio múltiplo e a dependência quase exclusiva do petróleo criaram um ciclo vicioso de desvalorização e falta de investimentos.
Quem é Calixto Ortega Sánchez?
Ortega não é um desconhecido nos corredores do poder venezuelano. Ele comandou o Banco Central da Venezuela de 2018 a 2025, período marcado por tentativas de estabilizar a moeda e de introduzir o dólar como moeda de fato nas transações cotidianas. Antes disso, trabalhou na indústria petrolífera, o que lhe dá uma visão prática dos principais ativos de exportação do país.
O que Delcy Rodríguez espera alcançar?
Em entrevista à TV estatal, Delcy mencionou a meta de consolidar os resultados de 2025 e avançar ainda mais até o fim de 2026, citando a projeção da Cepal de crescimento de 6,5% para 2025. Embora o número pareça otimista, ele reflete uma tentativa de sinalizar estabilidade aos investidores internacionais e aos próprios cidadãos.
Quais são os desafios imediatos?
- Hiperinflação ainda latente: apesar de a taxa de inflação ter desacelerado nos últimos meses, a desvalorização de quase 500% ainda pesa sobre o poder de compra da população.
- Dependência do petróleo: com os preços do barril voláteis, a Venezuela precisa diversificar sua economia, algo que ainda não aconteceu de forma consistente.
- Sanções internacionais: o embargo dos EUA, vigente desde 2019, limita o acesso a mercados financeiros e a tecnologias críticas.
O que a nomeação de Ortega pode mudar?
Como ex‑presidente do Banco Central, Ortega tem experiência em políticas monetárias que podem ajudar a conter a inflação. Ele também conhece bem o setor petrolífero, o que pode ser crucial para renegociar contratos internacionais e atrair investimentos estrangeiros, sobretudo se houver flexibilização das sanções.
Especialistas já apontam que, com Delcy à frente e Ortega na economia, há uma chance maior de o governo venezuelano buscar um “equilíbrio” nas relações com os EUA, possivelmente abrindo espaço para um relaxamento parcial do embargo. Isso poderia significar acesso a linhas de crédito e tecnologia de refino, elementos essenciais para revitalizar a produção de petróleo.
Impactos para o cidadão comum
Se a nova equipe conseguir estabilizar a moeda e melhorar a oferta de produtos, a população poderá sentir alívio nas compras diárias. Uma moeda mais estável reduz o custo de importação de alimentos e medicamentos, que são escassos no país. Além disso, a abertura de canais de investimento pode gerar empregos, sobretudo nas áreas de energia e serviços.
No entanto, a expectativa deve ser temperada. Mudanças estruturais levam tempo e dependem de fatores externos – como os preços do petróleo e a postura dos Estados Unidos. Por isso, é importante acompanhar não só os anúncios, mas os indicadores reais: taxa de inflação, reservas internacionais e índices de produção petrolífera.
O que o futuro reserva?
Até 2026, a Venezuela tem um caminho desafiador pela frente. Se a política econômica adotada por Delcy e Ortega conseguir atrair investimento estrangeiro, o país pode começar a sair do ciclo de escassez. Por outro lado, se as sanções permanecerem rígidas e a dependência do petróleo não for reduzida, o risco de nova hiperinflação permanece alto.
Para nós, leitores que acompanham a situação latino‑americana, a nomeação de Ortega é um ponto de atenção. Ela indica que o governo está tentando trazer expertise técnica ao cargo, ao invés de manter apenas figuras políticas. Isso pode ser um sinal de que a Venezuela está, finalmente, disposta a adotar medidas mais pragmáticas.
Continuaremos acompanhando os próximos passos, as decisões de política cambial e os possíveis acordos internacionais. Enquanto isso, vale ficar de olho nas notícias locais e nos relatórios de organizações como a Cepal e o FMI, que costumam oferecer análises detalhadas sobre a evolução econômica do país.



