Na manhã de ontem, eu estava tomando um café no Rio de Janeiro quando vi nas telas a notícia de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para anunciar um acordo sobre minerais críticos. Não é todo dia que vemos a Europa e o Brasil sentados à mesma mesa para falar de lítio, níquel e, principalmente, das chamadas terras raras. Mas o que isso realmente significa para a gente, que vive na era dos carros elétricos, dos smartphones e das turbinas eólicas?
Por que as terras raras são tão valiosas?
Primeiro, vale lembrar que “terra rara” não é um mineral único. São 17 elementos químicos – como neodímio, disprósio e térbio – que aparecem em pequenas quantidades, mas são fundamentais para quase tudo que consideramos tecnologia moderna. Sem eles, não teríamos:
- Ímãs superpotentes de turbinas eólicas;
- Baterias de alta performance para carros elétricos;
- Chips de computador e smartphones;
- Equipamentos de diagnóstico médico;
- Componentes de mísseis e outros sistemas de defesa.
Por isso, quem controla o fornecimento desses elementos tem, de certa forma, alavancado poder geopolítico. Atualmente, a China domina quase todo o processo de refino e produção de componentes de alta tecnologia. Isso deixa os EUA e a União Europeia em uma posição vulnerável, dependendo de um único fornecedor para itens estratégicos.
O Brasil no tabuleiro global
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Mas há um detalhe que costuma passar despercebido: a maior parte desses minerais é exportada ainda em estado bruto, sem nenhum processamento. Isso significa que o país vende o que chamamos de “pó” por preços bem baixos, enquanto quem compra – geralmente a China – faz o refino e ganha muito mais valor agregado.
O acordo que está sendo negociado com a UE tem como objetivo mudar esse cenário. A ideia é investir em cadeias de valor completas aqui no Brasil: desde a mineração até o refino, passando por fábricas de componentes. Se tudo acontecer como o planejado, poderemos transformar o subsolo brasileiro em um polo de alta tecnologia, gerando empregos qualificados e aumentando a arrecadação de impostos.
Como o acordo pode impactar o nosso dia a dia?
Você pode estar se perguntando: “E eu, cidadão comum, como isso me afeta?”. Aqui vão alguns pontos práticos:
- Carros elétricos mais baratos: com a produção local de lítio e níquel, a cadeia de suprimentos fica mais curta e menos cara. Isso pode baixar o preço dos veículos elétricos no Brasil nos próximos anos.
- Energia limpa mais acessível: turbinas eólicas mais eficientes e painéis solares com componentes de alta qualidade podem ser produzidos aqui, reduzindo custos de geração de energia renovável.
- Mais empregos de alta qualificação: fábricas de refino e montagem demandam engenheiros, técnicos e operadores especializados. Isso significa novas oportunidades de formação e carreira.
- Independência estratégica: ao reduzir a dependência de importações de países que podem usar minerais como ferramenta de pressão política, o Brasil ganha mais autonomia nas decisões de segurança nacional.
Além disso, há um efeito colateral importante: a diversificação das exportações. Em vez de vender apenas minério bruto, poderemos exportar produtos com maior valor agregado, o que melhora a balança comercial.
Desafios e riscos
Nem tudo são flores, e o caminho para transformar o Brasil em um hub de terras raras tem obstáculos:
- Investimento inicial alto: a construção de usinas de refino e fábricas exige bilhões de reais. O sucesso depende de financiamento sólido, tanto público quanto privado.
- Questões ambientais: mineração de terras raras pode gerar impactos significativos se não houver controle rigoroso. A sociedade civil já alerta para a necessidade de licenças ambientais robustas.
- Capacitação da mão‑de‑obra: ainda falta treinamento técnico em larga escala. Programas de qualificação precisarão ser criados rapidamente.
- Concorrência internacional: os EUA também estão correndo atrás desses recursos. O Brasil precisará equilibrar parcerias para não ficar dependente de apenas um bloco.
Esses pontos mostram que o acordo não é um “bala de prata”, mas um projeto de longo prazo que requer planejamento cuidadoso.
O que a UE espera da parceria
Ursula von der Leyen descreveu a cooperação em minerais críticos como um dos pilares da relação UE‑Brasil. Em palavras simples, a Europa quer garantir que, se houver alguma crise – como uma guerra ou sanção que interrompa o fornecimento da China – ainda tenha acesso a esses materiais essenciais.
Para a UE, o Brasil oferece dois grandes atrativos:
- Reservas abundantes e ainda pouco exploradas;
- Um ambiente político relativamente estável, com governo que busca diversificar parceiros comerciais.
O acordo, portanto, não se resume a “vender minério”. Ele inclui projetos de investimento conjunto, transferência de tecnologia e pesquisa compartilhada. Isso pode acelerar a criação de fábricas de baterias europeias que utilizem lítio brasileiro, por exemplo.
Como o Brasil pode tirar o melhor proveito
Para que o país realmente capitalize essa oportunidade, alguns passos são fundamentais:
- Definir uma política nacional de minerais críticos: um marco regulatório claro que incentive investimentos estrangeiros, mas que também proteja interesses estratégicos.
- Fomentar parcerias público‑privadas: universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras devem estar no centro da cadeia de valor.
- Garantir transparência ambiental: auditorias independentes e consulta pública podem evitar controvérsias que atrasem projetos.
- Capacitar a força de trabalho: cursos técnicos, bolsas de estudo e programas de intercâmbio com universidades europeias.
Se esses elementos se alinharem, o Brasil pode se tornar não só um fornecedor, mas um verdadeiro inovador em tecnologia limpa.
Olhando para o futuro
O que eu mais gosto de imaginar é um futuro próximo em que o “Made in Brazil” apareça em etiquetas de smartphones, baterias de carros e turbinas eólicas. Isso não seria apenas um símbolo de progresso industrial, mas também uma prova de que o país está contribuindo ativamente para a transição energética global.
É claro que ainda há muito trabalho pela frente, mas a assinatura desse acordo – ainda que em fase de negociação – já sinaliza que o Brasil está no radar dos grandes players mundiais. E isso, para mim, é motivo de otimismo. Afinal, quando um país tão grande e diversificado como o nosso começa a ser visto como parceiro estratégico, abre‑se uma porta para investimentos que podem mudar a vida de milhões.
E você, o que acha dessa nova fase? Acha que o Brasil está preparado para assumir esse papel de protagonista na corrida das terras raras? Deixe sua opinião nos comentários – eu adoro ler diferentes pontos de vista!



