Nos últimos anos, o comércio internacional tem sido um verdadeiro campo de batalha. Se antes falávamos de acordos estáveis e cadeias de suprimentos bem definidas, agora a palavra‑chave é volatilidade. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mexeu os pauzinhos das tarifas e, de repente, tudo ficou incerto. Enquanto isso, a União Europeia tem corrido contra o relógio para mostrar que ainda pode ser um parceiro confiável e, sobretudo, para diversificar suas rotas comerciais. Neste texto, vou contar como esses movimentos se entrelaçam, o que isso significa para a gente aqui no Brasil e por que vale a pena ficar de olho nos próximos capítulos.
O cenário pós‑Trump: tarifas que mudaram o jogo
Quando Trump assumiu a presidência, trouxe à tona um nacionalismo econômico que não era visto há décadas. As chamadas “tarifas‑cão” contra a China, mas também contra a União Europeia, Canadá e México, criaram uma onda de insegurança nos mercados globais. Empresas que dependiam de cadeias de produção transcontinentais tiveram que repensar seus fornecedores, e consumidores viram os preços subirem em itens que antes eram importados a baixo custo.
O efeito dominó foi imediato: países começaram a buscar alternativas para reduzir a dependência dos EUA. A Europa, que já sentia o peso de negociações difíceis com o Reino Unido pós‑Brexit, viu na necessidade de diversificar seus parceiros uma oportunidade de reforçar sua própria agenda comercial.
Mercosul‑UE: um acordo histórico que ainda tropeça
Em 17 de janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, desembarcou em Assunção, Paraguai, para assinar o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul. O pacto abrange Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – um mercado conjunto de cerca de 700 milhões de pessoas. Se entrar em vigor, será uma das maiores zonas de livre comércio do planeta.
O discurso oficial foi otimista: “Tarifas baixas, comércio tranquilo, mais qualidade e melhores preços para os consumidores”, disse o comissário de Comércio da UE, Maros Šefčovič. Mas, apenas quatro dias depois, o Parlamento Europeu suspendeu o acordo para uma revisão profunda no Tribunal de Justiça da UE. A razão? Pressões internas, principalmente da França, que teme que produtos agrícolas europeus sejam ameaçados pela concorrência sul‑americana.
Para nós, brasileiros, o revés tem consequências reais. Um acordo aprovado poderia abrir portas para exportadores de carne, soja e café, reduzindo custos de exportação e tornando nossos produtos mais competitivos na Europa. Por outro lado, a suspensão mantém a incerteza, dificultando planejamento de investimentos e a expansão de cadeias produtivas que dependem de acesso ao mercado europeu.
Índia: a nova fronteira da UE
Se o Mercosul ainda está em limbo, a UE encontrou um terreno mais fértil na Ásia: a Índia. Na cúpula UE‑Índia, realizada em Nova Délhi, as partes fecharam um acordo comercial histórico após quase duas décadas de negociações intermitentes. O pacto abre o gigantesco mercado indiano – mais de 2 bilhões de pessoas – ao livre comércio com a UE, seu maior parceiro comercial.
O que isso significa na prática? Aproximadamente 96,6% das exportações de bens da UE terão tarifas reduzidas ou eliminadas. Para as empresas europeias, isso representa uma economia de cerca de 4 bilhões de euros por ano em impostos de importação, além da possibilidade de dobrar as exportações para a Índia até 2032. Para a Índia, a abertura traz tecnologia, bens de consumo e investimentos que podem impulsionar seu crescimento.
Para o Brasil, o acordo indiano‑europeu pode ser um alerta: se a UE está disposta a abrir seu mercado para a Índia, por que não para nós? A resposta ainda depende da política interna europeia, mas o precedente mostra que acordos ambiciosos são possíveis quando há vontade política.
Por que a UE ainda é um parceiro atraente?
Segundo Peter Chase, pesquisador do German Marshall Fund, a União Europeia é vista como mais estável e confiável que os Estados Unidos em tempos de turbulência. “A UE leva a sério os compromissos que assume nos acordos comerciais”, afirma. Essa reputação de confiabilidade pode ser decisiva para países que buscam diversificar seus parceiros e reduzir riscos.
Entretanto, a própria UE tem seus entraves. O processo de ratificação dos acordos costuma ser longo e cheio de obstáculos políticos. Cada país membro tem suas próprias prioridades setoriais – como a agricultura francesa – que podem bloquear ou atrasar a implementação. Esse cenário cria um paradoxo: a UE quer ser vista como um parceiro sólido, mas sua própria estrutura institucional pode ser um obstáculo.
O que está por vir? Novos acordos e a OMC
Além do Mercosul e da Índia, a UE já tem acordos preferenciais com 76 países e está de olho em novos blocos, como o CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica). A adesão ao CPTPP poderia abrir ainda mais mercados na Ásia‑Pacífico, reforçando a posição da UE como um hub comercial global.
Outro ponto crucial é a revitalização da Organização Mundial do Comércio (OMC). Chase argumenta que, mais do que novos acordos, o mundo precisa de um sistema multilateral forte que garanta o Estado de Direito nas relações comerciais. A UE tem potencial para liderar essa coalizão, especialmente ao pressionar os EUA a cumprirem seus compromissos e ao exigir mais transparência da China.
Impactos práticos para o consumidor brasileiro
Você pode estar se perguntando: “E eu, que não sou empresário, como isso me afeta?” A resposta está nos preços nas prateleiras e nas opções de produtos. Quando acordos comerciais reduzem tarifas, os custos de importação caem, e isso pode se traduzir em preços mais baixos para eletrônicos, roupas, alimentos processados e até medicamentos.
Por outro lado, a falta de acordos pode manter tarifas altas, encarecendo produtos importados. Além disso, a diversificação de mercados protege a economia nacional de choques externos. Se o Brasil conseguir fechar um acordo robusto com a UE, isso pode gerar mais empregos nas cadeias de exportação, aumentando a renda das famílias.
Como acompanhar e participar da discussão
O debate sobre acordos comerciais costuma acontecer nos corredores do poder, mas o cidadão comum pode e deve acompanhar. Acompanhar notícias, participar de audiências públicas e até enviar sugestões para veículos como o G1 são formas de estar presente. Afinal, as decisões que afetam tarifas e acordos podem mudar o custo de vida de todos nós.
Se você tem uma ideia ou sugestão de reportagem sobre comércio internacional, pode enviar para o G1. A participação popular ajuda a tornar o debate mais transparente e a pressionar os governantes a considerar o interesse da população.
Conclusão: o futuro do comércio global está em movimento
O panorama comercial mundial está em constante transformação. As tarifas de Trump mostraram como decisões unilaterais podem desestabilizar todo o sistema. Em resposta, a UE está se reinventando, buscando novos parceiros como a Índia e tentando reviver acordos antigos como o Mercosul‑UE.
Para o Brasil, o caminho ainda tem obstáculos, mas também oportunidades. Um acordo bem estruturado com a UE pode abrir portas para exportadores, reduzir preços para consumidores e fortalecer a posição do país no cenário internacional. Enquanto isso, a comunidade internacional observa atentamente como a UE vai equilibrar seus próprios interesses internos com a necessidade de oferecer um contraponto sólido ao protecionismo dos EUA.
Fique de olho nas próximas notícias, participe das discussões e, quem sabe, aproveite as oportunidades que surgirem com novos acordos comerciais. O futuro do comércio está em nossas mãos – e nos próximos anos, veremos se a UE conseguirá consolidar sua posição como o parceiro comercial confiável que tanto promete ser.



