Radar Fiscal

Trump quer a Groenlândia: o que está em jogo entre EUA, Europa e a OTAN

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Trump quer a Groenlândia: o que está em jogo entre EUA, Europa e a OTAN

Em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar a Groenlândia no centro da discussão internacional. Mas o que realmente significa essa proposta de “comprar” a maior ilha do Ártico? E por que a Europa reage com tarifas e ameaças de retaliação? Vamos destrinchar o assunto, entender os números que ele menciona e analisar as possíveis consequências para o comércio, a segurança e a diplomacia global.



## Por que a Groenlândia interessa tanto?

A Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, tem cerca de 2,1 milhões de km², mas apenas 56 mil habitantes. Seu valor não está na população, e sim em recursos estratégicos:

– **Recursos naturais:** reservas de minerais raros, petróleo e gás que podem ser explorados com a crescente abertura do gelo.
– **Posição geopolítica:** controla rotas marítimas do Ártico que, com o derretimento das calotas, ganharão importância para o comércio global.
– **Bases militares:** já abriga instalações militares dos EUA (Thule Air Base) que são vitais para a vigilância de mísseis e satélites.

Esses fatores tornam a ilha um ponto de interesse para quem pensa em segurança e energia no futuro.



## O que Trump realmente disse?

Durante seu discurso, Trump afirmou que os EUA gastaram “trilhões e trilhões de dólares” na defesa da OTAN e dos países europeus. Ele usou essa frase para justificar um pedido simples: um pedaço de terra – a Groenlândia – em troca. Segundo ele, a Europa tem a opção de aceitar ou recusar, mas a recusa poderia gerar “retaliações” econômicas.

Ele também ameaçou impor uma tarifa de 10 % à Dinamarca e a outros sete países europeus caso continuem contra a sua proposta. A mensagem foi clara: os EUA, que financiam a defesa coletiva, esperam algo em troca.

## A reação da Europa

A resposta europeia foi rápida e firme:

– **Parlamento Europeu:** congelou o acordo comercial firmado com os EUA no final do ano passado.
– **Comissão Europeia:** Ursula von der Leyen declarou a soberania da Groenlândia como “inegociável”.
– **Tesouro dos EUA:** Scott Bessent pediu calma e sugeriu que os aliados “mantenham a mente aberta”, mas sem prometer concessões.

Além disso, a UE sinalizou que pode impor tarifas retaliatórias que chegam a 93 bilhões de euros, o que representaria um golpe significativo para as exportações americanas ao bloco.



## O que realmente são “trilhões”?

Quando Trump menciona “trilhões e trilhões”, ele se refere ao orçamento da OTAN, que em 2023 ultrapassou US$ 1 trilhão em gastos combinados pelos países membros. Desses, os EUA contribuem com cerca de 70 % – aproximadamente US$ 700 b por ano. Ao longo de décadas, isso soma números que podem ser interpretados como “trilhões”.

Mas transformar esse investimento em um “corte” de território é algo que nunca foi praticado em acordos modernos. Historicamente, a compra de territórios – como a compra da Louisiana pelos EUA em 1803 – ocorreu em contextos muito diferentes, sem a presença de alianças militares tão complexas.

## Impactos econômicos para o Brasil

Mesmo que a disputa pareça distante, ela tem reflexos no Brasil:

– **Comércio com a UE:** se houver tarifas de 10 % ou mais, empresas brasileiras que exportam para a Europa podem enfrentar aumentos de custos indiretos, já que as cadeias de suprimentos são interligadas.
– **Investimentos em energia:** o Ártico pode abrir novas rotas de gás natural liquefeito (GNL). O Brasil, como importador de energia, pode se beneficiar de preços mais competitivos.
– **Geopolítica:** um enfraquecimento da OTAN ou um afastamento dos EUA da Europa pode mudar o equilíbrio de poder, influenciando decisões em fóruns como o G20, onde o Brasil tem papel ativo.

## Prós e contras da proposta de Trump

**Prós (do ponto de vista americano):**
– Controle direto de recursos estratégicos.
– Fortalecimento da presença militar no Ártico.
– Possível redução de custos de defesa ao exigir contrapartidas.

**Contras (para a comunidade internacional):**
– Violação da soberania dinamarquesa e da autodeterminação da população groenlandesa.
– Risco de escalada de tarifas que prejudicaria o comércio global.
– Precedente perigoso para futuras “compras” de territórios.

## O que pode acontecer a seguir?

1. **Negociações diplomáticas:** é provável que haja sessões de mediação entre Washington e Bruxelas, talvez com a ONU como observadora.
2. **Ações comerciais:** se as tarifas forem implementadas, veremos um aumento nos preços de produtos europeus nos EUA e vice‑versa.
3. **Reforço militar:** a OTAN pode decidir reforçar a presença na região do Ártico, enviando mais navios e aviões de patrulha.
4. **Opinião pública groenlandesa:** a população da ilha tem expressado preocupação com a perda de autonomia. Qualquer acordo precisará de referendo ou aprovação local.

## Como você pode se manter informado?

– **Acompanhe fontes confiáveis:** jornais internacionais, agências de notícias e comunicados oficiais da OTAN.
– **Observe o mercado:** se você investe em ações de empresas que dependem de comércio com a UE, fique de olho nas flutuações de preço.
– **Entenda o contexto local:** a Groenlândia tem seu próprio governo e parlamento; suas decisões influenciam o futuro da ilha.

Em resumo, a proposta de Trump vai muito além de uma simples “compra de terra”. Ela coloca em xeque décadas de cooperação militar, abre espaço para disputas comerciais e levanta questões sobre soberania e direitos dos povos indígenas. O que parece ser um jogo de poder pode acabar afetando o bolso de quem está do outro lado do Atlântico – inclusive o nosso.

**Fique atento**, pois as próximas semanas podem trazer mudanças significativas nas relações entre EUA, Europa e o Ártico.