Na última sexta‑feira, o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez declarações que deixaram o mercado de energia em polvorosa. Ele afirmou que empresas interessadas no petróleo venezuelano terão de negociar diretamente com os EUA e que a China pode comprar o quanto quiser, tanto nos Estados Unidos quanto na Venezuela. Parece papo de campanha, mas tem implicações reais para quem acompanha os preços do combustível, a geopolítica e, claro, a nossa própria economia.
Para entender por que isso importa, precisamos recuar um pouco e lembrar o histórico da Venezuela no cenário global. Desde 2019, os Estados Unidos impuseram sanções severas ao país sul‑americano, bloqueando boa parte de suas exportações de petróleo. Essas medidas foram um golpe duro para a PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, que viu suas reservas acumular em tanques e navios, incapaz de encontrar compradores.
Com o bloqueio em vigor, a China assumiu o papel de principal comprador, respondendo por cerca de 68% das exportações venezuelanas nos últimos anos. Essa dependência criou uma relação de troca quase exclusiva: a Venezuela vende seu petróleo à China e, em troca, recebe investimentos e apoio político. Agora, Trump tenta mudar esse jogo, propondo que a Venezuela destine a receita da venda de petróleo a compras de produtos americanos – de alimentos a equipamentos médicos.
Mas o que isso tem a ver com a gente, aqui no Brasil? Primeiro, o preço do petróleo no mercado internacional influencia diretamente o preço da gasolina e do diesel nas bombas brasileiras. Se os EUA começarem a comprar grandes volumes de petróleo venezuelano, isso pode reduzir a pressão sobre os preços globais, ao menos no curto prazo. Por outro lado, a entrada de mais players – agora EUA e China – pode gerar volatilidade, já que cada um tem estratégias diferentes para lidar com a oferta.
Segundo, a proposta de Trump inclui um acordo de “reciclagem” da receita: a Venezuela compraria produtos americanos, como fertilizantes e máquinas agrícolas. Isso poderia abrir portas para empresas brasileiras que exportam esses itens, caso haja uma reorientação de fornecedores. Imagine que a Venezuela, ao invés de comprar fertilizantes da China, passe a buscar alternativas nos Estados Unidos – e, por extensão, nos países da América Latina que competem nesse mercado.
Outro ponto crucial é a questão da segurança energética. Os EUA anunciaram que vão refinar e vender até 50 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano. Esse volume corresponde a cerca de dois meses da produção atual da Venezuela e representa um movimento estratégico para diminuir a dependência do petróleo do Oriente Médio. Para o Brasil, que ainda importa parte de seu petróleo, isso pode significar menos competição por contratos de suprimento, mas também menos influência dos EUA nas negociações regionais.
É importante notar que o acordo ainda está em fase de negociação. O Departamento de Energia dos EUA já informou que as receitas das vendas serão depositadas em contas controladas por eles, supostamente para garantir a “legitimidade e integridade” da distribuição. Essa medida levanta dúvidas sobre a transparência e a real destinação dos recursos. Se a Venezuela realmente usar esse dinheiro para melhorar sua rede elétrica ou comprar medicamentos, pode haver um ganho social significativo. Mas, se os fundos forem desviados, o acordo pode se tornar mais um instrumento de pressão política.
Do ponto de vista geopolítico, a proposta de Trump pode ser vista como um esforço para enfraquecer a influência chinesa na América Latina. A China tem investido pesado na região, financiando projetos de infraestrutura e garantindo mercados para seu petróleo. Ao oferecer um caminho alternativo – a parceria com os EUA – Trump tenta criar uma competição que, em teoria, beneficiaria os países que receberiam mais opções de investimento.
Para nós, consumidores, a mensagem principal é ficar atento às flutuações nos preços dos combustíveis e às notícias sobre acordos de energia. Cada mudança nas rotas de exportação pode refletir no preço que pagamos na bomba. Além disso, se a Venezuela conseguir melhorar sua produção e infraestrutura graças aos recursos americanos, isso pode gerar um aumento na oferta global, o que tende a baixar os preços.
Em resumo, o que Trump está propondo vai muito além de um simples acordo comercial. É um movimento que envolve política, economia e segurança energética, com ramificações que podem alcançar desde os mercados financeiros até a vida cotidiana dos brasileiros. O que ainda não sabemos é como a Venezuela vai reagir a longo prazo e se os EUA conseguirão manter a promessa de usar os recursos “em benefício do povo”. Enquanto isso, a gente segue acompanhando, tentando entender como essas grandes negociações afetam o nosso bolso.



