Na última sexta‑feira (9), o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez declarações que mexeram com o mercado de energia global. Em uma reunião fechada com altos funcionários da Casa Branca e executivos das maiores petroleiras do planeta, ele afirmou que empresas interessadas no petróleo venezuelano terão de negociar diretamente com os EUA. A mensagem foi clara: os Estados Unidos querem ser o principal interlocutor – e, possivelmente, o principal comprador – desse recurso estratégico.
Mas por que isso importa para nós, brasileiros? Primeiro, porque a Venezuela tem sido historicamente um dos maiores produtores de petróleo da América Latina. Segundo, porque a China, que atualmente compra cerca de 68% das exportações venezuelanas, pode ver seu acesso ao crú reduzido se os EUA realmente assumirem o controle das negociações. E, por fim, porque o Brasil, como grande consumidor e exportador de energia, sente na pele qualquer mudança nos fluxos de petróleo.
Vamos destrinchar o que está acontecendo, analisar os impactos e refletir sobre o futuro da política energética na região.
O que Trump realmente disse?
Durante o encontro, Trump declarou que a China pode comprar “todo o petróleo que quiser dos EUA, nos Estados Unidos ou na Venezuela”. Em outras palavras, ele está aberto a negociações com o gigante asiático, mas também quer garantir que as empresas americanas tenham prioridade nas transações. Ele ainda prometeu que os EUA irão refinar e vender até 50 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano, sob um novo acordo que, segundo ele, foi selado logo após a prisão de Nicolás Maduro em território venezuelano.
Além disso, Trump afirmou que a Venezuela concordou em destinar a receita da venda de petróleo exclusivamente à compra de produtos fabricados nos EUA – de alimentos a equipamentos médicos e materiais para a rede elétrica. Essa proposta, que ele descreveu como “sensata”, visa criar uma relação de dependência mútua entre os dois países.
Por que a Venezuela é tão valiosa?
A Venezuela possui reservas de petróleo entre as maiores do mundo – estimativas apontam para mais de 300 bilhões de barris. Contudo, as sanções impostas pelos EUA em 2019 congelaram grande parte de sua produção e exportação. O país ficou com navios e tanques cheios, mas sem poder vender. Essa situação gerou um vácuo que a China rapidamente preencheu, tornando‑se o principal comprador.
Para os EUA, retomar o acesso a esse petróleo tem duas vantagens claras:
- Segurança energética: Diversificar as fontes de petróleo, especialmente em tempos de instabilidade no Oriente Médio.
- Pressão geopolítica: Reduzir a influência chinesa na América Latina, um objetivo que tem sido parte da estratégia americana há décadas.
Impactos para o Brasil
Embora o Brasil não dependa diretamente do petróleo venezuelano – nossa produção interna cobre boa parte da demanda – o mercado global de energia afeta preços internos, investimentos e a balança comercial. Veja alguns pontos que podem mudar:
- Preços da bomba: Se os EUA comprarem grandes volumes, a oferta mundial pode ficar mais apertada, elevando os preços do barril. Isso repercute nos preços dos combustíveis aqui.
- Competitividade das refinarias: As refinarias brasileiras, que já compram petróleo bruto de diversos países, podem enfrentar concorrência maior por contratos mais lucrativos nos EUA.
- Relações comerciais: Um acordo EUA‑Venezuela que exclua a China pode abrir espaço para o Brasil negociar novos termos de importação ou até oferecer tecnologia e serviços de energia.
Além disso, a proposta de que a Venezuela use a receita do petróleo para comprar produtos americanos pode abrir oportunidades para exportadores brasileiros de alimentos e equipamentos médicos, caso os EUA decidam incluir parceiros latino‑americanos no acordo.
O que a comunidade internacional está dizendo?
Especialistas em energia apontam que a iniciativa de Trump tem um tom de “re‑engajamento” dos EUA na América Latina, mas também carregam riscos. Se a China for excluída, pode reagir fortalecendo laços com outros países da região, como o México ou a Argentina. Por outro lado, um acordo bem‑sucedido poderia servir de modelo para futuras parcerias entre Washington e nações latino‑americanas que buscam diversificar suas fontes de receita.
O Departamento de Energia dos EUA já informou que as vendas de petróleo venezuelano começarão “imediatamente” e continuarão por tempo indeterminado, com os recursos sendo depositados em contas controladas pelos EUA. Essa medida, segundo a agência, garante a “legitimidade e integridade” da distribuição dos recursos, supostamente em benefício dos povos americano e venezuelano.
Desafios e controvérsias
Há, porém, várias questões que ainda precisam de respostas:
- Sanções e legalidade: As sanções americanas ainda estão em vigor. Como o governo dos EUA pretende contornar ou modificar essas restrições?
- Estabilidade política na Venezuela: A prisão de Maduro e a presença de forças militares americanas aumentam a instabilidade interna. Isso pode afetar a produção e a confiabilidade dos contratos.
- Reação da China: Se a China for excluída, é provável que implemente retaliações comerciais ou aumente investimentos em outros setores da América Latina.
Essas incógnitas mostram que o cenário ainda está longe de ser definido. O que sabemos é que o petróleo venezuelano voltou à mesa de negociação, e os EUA estão dispostos a jogar pesado.
O que podemos fazer como consumidores e investidores?
Para quem acompanha o mercado de energia ou tem investimentos em empresas do setor, vale a pena ficar atento a alguns indicadores:
- Variações no preço do barril de petróleo Brent e WTI.
- Relatórios trimestrais das grandes petroleiras, que podem revelar contratos emergentes.
- Movimentação de moedas de países exportadores de petróleo, como o bolívar venezuelano e o dólar americano.
Para o cidadão comum, a consequência mais direta será o preço dos combustíveis nas bombas. Caso o acordo gere escassez, é provável que vejamos aumentos nas tarifas de gasolina e diesel nas próximas semanas.
Olhar para o futuro
Se o acordo se firmar, poderemos estar diante de um novo capítulo na geopolítica energética da América Latina. A Venezuela, que há anos luta para manter sua produção, pode encontrar um caminho para sair do isolamento. Os EUA, por sua vez, reforçam sua presença na região e tentam limitar a influência chinesa.
Para o Brasil, a chave será manter a flexibilidade – diversificar fornecedores, investir em energia renovável e acompanhar de perto as negociações internacionais. Afinal, em um mundo onde o petróleo ainda move grande parte da economia, entender quem controla o fluxo é essencial.
Fique de olho nas próximas notícias, especialmente nos anúncios do Departamento de Energia dos EUA e nas reações de Caracas e Pequim. O mercado de energia é volátil, e cada decisão de um líder pode reverberar pelos quatro cantos do planeta.



