Um discurso de Natal que virou manchete
Na noite de 17 de dezembro de 2025, a Casa Branca se transformou num cenário de luzes piscantes e árvore de Natal. O presidente Donald Trump subiu ao púlpito, fez um discurso rápido – menos de 20 minutos – e saiu prometendo um “boom econômico” para 2026. Eu assisti ao vídeo enquanto tomava um café, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi: será que essa promessa tem base ou é só mais uma jogada política antes das eleições de meio de mandato?
O que Trump realmente disse?
Ele começou lembrando que herdou “uma bagunça” há onze meses e que tem trabalhado para consertar tudo. Depois, virou a culpa para o ex‑presidente Joe Biden, acusando-o de deixar o país “invadido por um exército de 25 milhões de pessoas” e de criar um “desastre inflacionário”. Em seguida, Trump falou de investimentos de 18 trilhões de dólares, de tarifas que, segundo ele, atrairiam fábricas e empregos, e de um “dividendo aos guerreiros” de US$ 1.776 para 1,45 milhão de militares.
Promessa de “boom econômico”: mito ou realidade?
Para quem acompanha os números da inflação, a história soa estranha. O índice de preços ao consumidor (CPI) estava em 3% em setembro, praticamente o mesmo de janeiro. Depois de cair para 2,3% em abril, a inflação voltou a subir. Além disso, o desemprego atingiu o nível mais alto em quatro anos. Então, como conciliar essas estatísticas com a promessa de um crescimento explosivo?
O que muda para o cidadão comum?
Se o “boom” acontecer, a gente pode esperar alguns efeitos diretos:
- Mais empregos nas indústrias que receberem investimento. Mas isso costuma ser concentrado em áreas específicas, como o Sul dos EUA, e nem sempre beneficia quem mora em cidades menores.
- Possível queda nos preços de alguns produtos. No discurso, Trump citou a redução dos preços, mas a inflação ainda está alta, principalmente em alimentos e energia.
- Benefícios pontuais, como o pagamento aos militares. Para quem tem alguém nas Forças Armadas, pode ser um alívio financeiro temporário.
Entretanto, a maioria dos americanos ainda sente o peso da alta dos custos de vida. Uma pesquisa da AP‑Norc mostrou que a maioria percebe preços mais altos para alimentos, energia e até presentes de Natal.
Tarifas e investimentos: a tábua de salvação?
Trump atribui grande parte do suposto sucesso às tarifas que impôs a países como China e alguns aliados europeus. A ideia, segundo ele, seria tornar os EUA o lugar mais atraente para investir. Na prática, as tarifas costumam elevar o preço de produtos importados, o que pode acabar alimentando a inflação. Além disso, investidores são cautelosos quando há incerteza política – e a própria promessa de substituir o presidente do Federal Reserve cria dúvidas sobre a estabilidade monetária.
O que os opositores dizem?
Democratas e analistas não ficaram quietos. O senador Mark Warner, da Virgínia, chamou o discurso de “triste tentativa de distração”. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, respondeu apenas com um “eu” repetido mais de 700 vezes nas redes, indicando cansaço com as mesmas acusações de Trump. Uma pesquisa Reuters/Ipsos revelou que apenas 33% dos adultos americanos aprovam a forma como Trump lida com a economia.
Como isso pode influenciar as eleições de 2026?
As eleições de meio de mandato são decisivas para quem controla o Congresso. Se Trump conseguir convencer os eleitores de que a economia está melhorando, pode ganhar apoio para os republicanos nas cadeiras da Câmara e do Senado. Por outro lado, se os números de inflação e desemprego continuarem desfavoráveis, o discurso pode soar vazio e fortalecer a campanha dos democratas, que já estão apontando a acessibilidade financeira e a saúde como principais preocupações.
O que eu faria se fosse americano?
Se eu estivesse nos EUA, tentaria analisar os fatos antes de comprar a promessa. Olharia para os indicadores reais – taxa de desemprego, inflação, crescimento do PIB – e compararia com as promessas de política tributária e tarifária. Também observaria se os investimentos anunciados realmente chegam ao chão, criando empregos estáveis, ou se ficam apenas no papel.
Conclusão: promessa ou estratégia?
O discurso de Trump parece mais uma estratégia de campanha do que um plano econômico detalhado. Ele aponta problemas, culpa o adversário, oferece alguns benefícios pontuais e promete um futuro brilhante. Mas, sem soluções concretas para a inflação, o aumento dos custos de vida e a desaceleração do emprego, a promessa de “boom econômico” ainda carece de fundamento sólido.
Para nós, leitores brasileiros, a lição é clara: fique de olho nas promessas eleitorais, mas sempre verifique os números reais. Seja nos EUA ou no Brasil, a economia não funciona como um discurso de fim de ano – ela responde a políticas consistentes, dados concretos e, sobretudo, ao comportamento dos mercados.



