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Trump garante que não vai demitir Powell: o que isso significa para a economia global

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Trump garante que não vai demitir Powell: o que isso significa para a economia global

Na última quarta‑feira (14), o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, respondeu a uma pergunta direta da Reuters: ele não tem planos de demitir Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed). A resposta pode parecer simples, mas o contexto por trás dela é tudo menos trivial. Vamos destrinchar o que está acontecendo, por que isso importa para quem acompanha a economia e, principalmente, como isso pode afetar o seu bolso.



Um pano de fundo: quem é Jerome Powell?

Jerome Powell está à frente do Fed desde 2018, quando foi indicado por Trump durante seu primeiro mandato. O Fed, banco central dos EUA, tem a missão de controlar a inflação, regular a política de juros e garantir a estabilidade do sistema financeiro. Em termos práticos, quando o Fed decide subir ou baixar a taxa básica de juros – a chamada Fed Funds Rate – isso repercute em tudo, desde o custo do financiamento de casas até a taxa de câmbio do dólar.

Powell tem sido, nos últimos anos, um defensor da independência do Fed. Ele costuma dizer que decisões de política monetária não podem ser influenciadas por pressões políticas. Essa postura, porém, tem gerado atritos com Trump, que sempre preferiu juros mais baixos para estimular o crescimento econômico e, de quebra, tornar o dólar menos atraente para investidores estrangeiros.



Por que Trump está falando de demitir Powell?

A conversa não surgiu do nada. No último domingo, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou uma investigação criminal envolvendo Powell por supostos custos excessivos em um projeto de US$ 2,5 bilhões para reformar dois edifícios históricos da sede do Fed. Powell nega qualquer irregularidade e, segundo ele, a investigação seria um pretexto para pressioná‑lo a baixar ainda mais os juros.

Para Trump, a situação abre a porta para uma possível troca de comando no Fed. Ele já citou nomes como Kevin Warsh, ex‑diretor do Fed, e Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, como possíveis substitutos. Também descartou a ideia de nomear o secretário do Tesouro, Scott Bessent, alegando que o homem prefere ficar onde está.

Independência do Fed: por que isso importa?

A independência do banco central é um conceito que, à primeira vista, pode parecer abstrato, mas tem impactos bem concretos. Quando o Fed age livremente, sem pressões políticas, ele costuma focar no controle da inflação a longo prazo. Se políticos conseguem influenciar a política de juros para atender a interesses de curto prazo – como impulsionar a popularidade antes de eleições – o risco é que a inflação suba sem controle.

Historicamente, países onde o banco central está sujeito a interferências políticas costumam enfrentar crises de inflação. A Turquia, por exemplo, viu sua moeda despencar nos últimos anos após o presidente Recep Tayyip Erdogan pressionar o banco central a manter juros baixos, mesmo com inflação acima de 80%.

No caso dos EUA, a credibilidade do Fed tem sido um dos pilares da força do dólar. Se essa credibilidade for abalada, o dólar pode perder valor frente a outras moedas, o que, por sua vez, encarece produtos importados e pode gerar pressões inflacionárias internas.



O que a investigação criminal tem a ver com tudo isso?

A investigação sobre o projeto de reforma dos edifícios do Fed parece, à primeira vista, um detalhe de gestão de patrimônio. No entanto, o montante de US$ 2,5 bilhões não é pequeno, e qualquer indício de desperdício pode ser usado como argumento para questionar a capacidade de liderança de Powell.

Se a investigação avançar e houver indícios de má conduta, isso pode dar a Trump – e a seus aliados – uma justificativa legal para substituir Powell. Mas, por enquanto, tudo ainda está no campo da suspeita. Powell já declarou que a investigação é “sem precedentes” e que serve apenas para pressioná‑lo a atender às demandas de Trump por juros mais baixos.

Como isso afeta o cidadão comum?

Você pode estar se perguntando: “E eu, como isso me impacta?” A resposta está nos juros que pagamos nos empréstimos, nas taxas de financiamento de imóveis e até no rendimento das aplicações financeiras.

  • Empréstimos e financiamentos: Se o Fed decidir cortar juros, os bancos tendem a seguir a tendência, reduzindo o custo dos empréstimos. Isso pode facilitar a compra da casa própria ou reduzir as parcelas de um carro.
  • Investimentos: Juros mais baixos também significam menores retornos em investimentos de renda fixa, como CDBs e Tesouro Direto. Para quem depende desses produtos para a aposentadoria, a mudança pode ser significativa.
  • Preço dos produtos importados: Um dólar mais fraco, consequência de uma perda de credibilidade do Fed, encarece produtos importados, elevando o custo de vida.

Em resumo, a estabilidade (ou instabilidade) do Fed tem reflexos diretos no seu orçamento doméstico.

O cenário político nos EUA e o papel do Fed nas eleições

Com as eleições de meio de mandato se aproximando em novembro, a pressão sobre Powell aumenta. Eleitores costumam se preocupar com o custo de vida, e candidatos políticos tendem a prometer soluções rápidas, como a redução de juros para “aliviar o bolso”.

Trump, que ainda tem influência sobre a base republicana, tem usado o discurso de que o Fed está “preso” por uma elite que não se importa com a classe média. Essa narrativa pode ser atraente para eleitores que sentem que o sistema financeiro está fora de controle.

No entanto, analistas e economistas ao redor do mundo alertam que a erosão da independência do Fed pode gerar mais problemas do que soluções. Uma política de juros artificialmente baixa pode inflar bolhas de ativos – como o mercado imobiliário – que, quando estouram, causam crises financeiras.

Quais são as possíveis saídas?

Vamos analisar três cenários plausíveis:

  1. Powell permanece no cargo até o fim de seu mandato (maio de 2025) e o Fed mantém sua política atual. Nesse caso, a estabilidade permanece, e o mercado continua a confiar na capacidade do Fed de controlar a inflação.
  2. Powell é substituído antes do término do mandato, por um dos “Kevins” citados por Trump. Se o novo presidente for mais alinhado com as ideias de Trump, poderemos ver uma aceleração na redução de juros, o que pode gerar um alívio temporário, mas também riscos inflacionários.
  3. A investigação se intensifica e leva a uma ação legal contra Powell. Mesmo que Powell não seja demitido, a simples sombra de um processo pode enfraquecer a confiança dos investidores e gerar volatilidade nos mercados.

Qualquer um desses caminhos tem implicações diferentes para a economia global e para o seu bolso.

O que eu, como leitor, devo ficar de olho?

Alguns indicadores podem ajudar a entender para onde o Fed está caminhando:

  • Declarações do próprio Fed: Fique atento aos discursos de Powell e dos demais membros do Conselho de Governadores. Eles costumam sinalizar a direção da política monetária.
  • Relatórios do Departamento de Justiça: Embora raros, anúncios de avanços na investigação podem mudar a dinâmica política.
  • Reações do mercado: O preço do dólar, os rendimentos de títulos do Tesouro dos EUA e as bolsas de valores são termômetros rápidos das expectativas dos investidores.

Se você tem empréstimos em dólares, investimentos em ativos americanos ou simplesmente acompanha a cotação do dólar, esses sinais podem ser úteis para decidir se deve ou não ajustar sua estratégia financeira.

Um olhar para o futuro: o que vem depois?

Independentemente de quem esteja à frente do Fed nos próximos meses, a questão central permanece: a independência do banco central será preservada?

Historicamente, países que conseguiram manter essa independência viram suas economias crescer de forma mais sustentável. Os EUA, com seu papel de “líder mundial”, têm um peso ainda maior. Se a pressão política continuar, poderemos assistir a um debate intenso nos próximos congressos sobre a necessidade de proteger a autonomia do Fed por meio de reformas legislativas.

Para o leitor brasileiro, isso tem um efeito indireto: o dólar forte ou fraco influencia o preço das commodities, das importações e até das viagens ao exterior. Além disso, a percepção de risco global afeta os fluxos de investimento para o Brasil, impactando a taxa de câmbio e, por consequência, o preço dos produtos que consumimos.

Em resumo, a disputa entre Trump e Powell pode parecer um drama interno dos EUA, mas o eco desse drama reverbera ao redor do globo, chegando até a sua conta bancária.

Conclusão

Trump garantiu que não tem planos de demitir Powell – ainda que a porta esteja “um pouco aberta”. A investigação criminal, as pressões por juros mais baixos e a proximidade das eleições criam um cenário de incerteza que vale a pena acompanhar de perto. Para quem busca entender como esses movimentos podem mudar o custo de um financiamento ou o valor da moeda que usamos para comprar produtos importados, a mensagem é clara: fique de olho nas decisões do Fed, nas declarações de Powell e nas reações do mercado.

Se você quiser se preparar, avalie sua exposição a juros e ao dólar, diversifique seus investimentos e, principalmente, mantenha-se informado. O futuro econômico pode ser imprevisível, mas a informação é a melhor ferramenta que temos para navegar por ele.