Na última quinta‑feira, em meio ao frio suíço de Davos, o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a criação do Conselho da Paz. Não foi um simples discurso de campanha; foi a apresentação de uma estrutura que pretende assumir papéis que tradicionalmente cabiam à Organização das Nações Unidas (ONU). O que eu achei mais curioso foi a forma como o anúncio misturou críticas à ONU, promessas de reconstrução da Faixa de Gaza e, ainda, um convite aberto a líderes como o presidente Lula, que ainda não respondeu.
Mas, antes de mergulharmos nos detalhes, vale a pena entender por que essa iniciativa surge agora e o que realmente está em jogo. Não é só mais um projeto de diplomacia; pode ser um divisor de águas nas relações internacionais, especialmente para quem acompanha de perto as discussões sobre soberania, ajuda humanitária e o futuro das instituições multilaterais.
O que é o Conselho da Paz?
Em linhas gerais, o Conselho da Paz foi idealizado pelos EUA como um organismo capaz de:
- Manter a paz em regiões de conflito;
- Coordenar a reconstrução de áreas devastadas, como Gaza;
- Fomentar investimentos privados para acelerar a recuperação econômica.
O grande diferencial (e ponto de controvérsia) é que Trump será o presidente vitalício do grupo, com poderes amplos para definir a agenda e as decisões estratégicas. Além disso, países que quiserem um assento permanente precisarão desembolsar US$ 1 bilhão – um valor que, em reais, chega a cerca de R$ 5,37 bilhões.
Por que criticar a ONU?
Trump não poupou palavras ao apontar falhas da ONU: lentidão nas decisões, burocracia excessiva e, segundo ele, falta de eficácia em crises como a de Gaza. Essa postura reflete uma tendência que vem crescendo nos últimos anos – a desconfiança em organismos multilaterais e a busca por soluções mais “pragmáticas”, muitas vezes lideradas por grandes potências.
Para quem acompanha a política internacional, isso levanta duas questões fundamentais:
- Será que a ONU está realmente perdendo relevância? Alguns analistas dizem que sim, principalmente porque países como os EUA e a China têm recursos para criar suas próprias coalizões.
- O que acontece com os países menores? Eles podem acabar dependentes de financiamentos bilaterais, o que diminui sua autonomia nas negociações.
Impactos para o Brasil e para o Lula
O convite ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva é, por si só, um sinal de que o Conselho da Paz pretende ser um fórum verdadeiramente global. Se o Brasil aceitar, algumas possibilidades surgem:
- Participação em projetos de reconstrução: O Brasil tem experiência em projetos de infraestrutura em áreas vulneráveis, o que poderia render parcerias estratégicas.
- Visibilidade diplomática: Estar presente ao lado de líderes como Trump pode reforçar a imagem do Brasil como ator relevante nas questões de paz e desenvolvimento.
- Risco de afastamento da ONU: Uma aliança mais próxima ao Conselho pode ser vista como um “desvio” da política tradicional de apoio à ONU, gerando críticas internas e externas.
É importante lembrar que o Brasil tem historicamente defendido o multilateralismo. Portanto, a decisão de Lula pode ser analisada sob duas lentes: pragmatismo econômico versus princípios diplomáticos.
Como o Conselho da Paz pode funcionar na prática?
Imaginar o funcionamento de um organismo tão novo exige um pouco de criatividade. Baseado nas informações divulgadas, podemos esboçar alguns cenários:
- Financiamento privado: Empresas globais poderiam investir em projetos de infraestrutura em Gaza, recebendo, em troca, concessões ou retornos financeiros.
- Comitês regionais: Cada região em conflito teria um comitê local, coordenado pelo Conselho, para garantir que as ações estejam alinhadas com as necessidades da população.
- Monitoramento de paz: Em vez de tropas da ONU, o Conselho poderia empregar forças de segurança privadas ou criar forças de paz compostas por membros de diferentes países, sob contrato.
Essas ideias, embora plausíveis, trazem à tona debates éticos: até que ponto a presença de capital privado pode influenciar decisões que deveriam ser baseadas no bem‑estar humano?
O que o futuro nos reserva?
Não há como prever com certeza se o Conselho da Paz vai se consolidar como um novo pilar da diplomacia ou se será apenas um experimento de curta duração. Alguns indicadores que podem nos ajudar a acompanhar a evolução:
- Adesão de países: Se mais nações pagarem o bilhão de dólares, o Conselho ganha peso e legitimidade.
- Resultados em Gaza: Uma reconstrução rápida e eficaz pode servir como vitrine para o modelo.
- Reação da ONU: Se a ONU buscar parcerias ou reformular sua estrutura, pode indicar que está disposta a se adaptar.
Para nós, leitores que se interessam por política internacional, a lição principal é ficar de olho nas alianças que se formam. O mundo está mudando, e novas formas de cooperação podem surgir a qualquer momento.
Se você ainda tem dúvidas sobre o que isso significa para o seu dia a dia, pense assim: decisões sobre paz e reconstrução afetam fluxos de comércio, migrações e até mesmo preços de commodities. Um cenário de estabilidade na região do Oriente Médio, por exemplo, pode influenciar o preço do petróleo, que, por sua vez, impacta o preço da gasolina nas bombas brasileiras.
Em resumo, o Conselho da Paz é um projeto ambicioso que desafia a ordem estabelecida. Seja ele bem‑sucedido ou não, ele já está provocando discussões importantes sobre quem deve liderar a agenda global de paz. E você, o que acha? Vale a pena apostar em um novo organismo liderado pelos EUA ou devemos reforçar a ONU, mesmo com suas falhas?



