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Trump ameaça tarifas de 100% ao Canadá: o que isso significa para o comércio global

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Trump ameaça tarifas de 100% ao Canadá: o que isso significa para o comércio global

Nos últimos dias, o clima entre Estados Unidos, Canadá e China ficou ainda mais tenso. O presidente dos EUA, Donald Trump, usou sua conta no Truth Social para avisar que, se o Canadá fechar um acordo comercial com a China, vai impor tarifas de 100% sobre todas as exportações canadenses que entrarem nos EUA. A ameaça soa drástica, mas tem raízes em uma disputa mais longa sobre quem controla as rotas de comércio na América do Norte.



Para entender o impacto real dessa declaração, precisamos olhar para o contexto recente. Em janeiro de 2026, o primeiro‑ministro canadense, Mark Carney, fez a primeira visita oficial à China em oito anos. O objetivo era claro: reaproximar o Canadá do seu segundo maior parceiro comercial depois dos Estados Unidos.

Durante a visita, Carney negociou duas concessões importantes. A primeira foi a promessa de que a China reduziria as tarifas sobre a canola canadense – um produto agrícola que representa bilhões em exportações. A segunda, e talvez mais visível, foi a permissão para que quase 50 mil veículos elétricos chineses entrassem no mercado canadense com uma tarifa de apenas 6,1%, muito abaixo da taxa de 100% que o ex‑primeiro‑ministro Justin Trudeau havia imposto em 2024.



Essas medidas são vistas como um “retorno aos níveis anteriores aos atritos comerciais”. Em 2023, a China exportou cerca de 41.700 veículos elétricos para o Canadá, e Carney pretende ampliar esse número para cerca de 70 mil nos próximos cinco anos. A lógica do governo canadense é simples: para desenvolver um setor interno competitivo de veículos elétricos, é preciso aprender com os parceiros mais avançados, acessar suas cadeias de suprimentos e estimular a demanda doméstica.

Mas nem todos no Canadá recebem bem essa estratégia. O primeiro‑ministro de Ontário, Doug Ford, criticou duramente a medida, alegando que o país estaria “convidando uma enxurrada de veículos elétricos baratos” sem garantias de investimentos reais na indústria local. Essa preocupação ecoa a posição de Trump, que vê o acordo como um risco de transformar o Canadá em um “porto de descarga” para a China, permitindo que produtos chineses entrem nos EUA com tarifas mínimas.



Então, o que realmente está em jogo? Primeiro, há a questão das tarifas agrícolas. Em resposta ao alívio das tarifas canadenses sobre veículos elétricos, a China ajustou medidas antidumping sobre a canola e outras commodities. Se o acordo avançar, a China prometeu reduzir as tarifas sobre sementes de canola para cerca de 15% dos atuais 84%, além de eliminar tarifas sobre farinha de canola, lagostas, caranguejos e ervilhas até o final do ano. Isso pode desbloquear até US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores e pescadores canadenses.

Por outro lado, a ameaça de Trump de aplicar tarifas de 100% sobre todas as importações canadenses nos EUA seria devastadora. O Canadá exporta bilhões de dólares em produtos agrícolas, automotivos e de tecnologia para os EUA. Uma tarifa tão alta poderia cortar quase todo esse fluxo, prejudicando setores que dependem do mercado norte‑americano. Além disso, aumentaria os custos para consumidores americanos, que pagariam mais por produtos como carne, laticínios e até veículos.

É importante notar que, apesar da retórica agressiva, Trump já mostrou apoio a acordos que beneficiem os EUA, como quando elogiou Carney por buscar um acordo com a China. O paradoxo está na diferença entre a política de “America First” e a realidade de cadeias de suprimentos interconectadas. Mesmo que o governo dos EUA queira proteger indústrias domésticas, ele também depende de importações de componentes e matérias‑primas.

Qual é o futuro provável? Existem alguns cenários:

  • Conciliação: O Canadá pode renegociar alguns termos para incluir garantias de investimento em sua indústria automotiva, acalmando críticos como Ford e reduzindo a ameaça de Trump.
  • Escalada: Se o acordo avançar sem concessões, os EUA podem efetivamente aplicar as tarifas anunciadas, provocando uma guerra comercial que afetaria toda a América do Norte.
  • Mediação do México: O México, como parte do acordo USMCA (ou USMCA‑2026), pode atuar como mediador, buscando equilibrar as pressões de ambos os lados.

Para nós, leitores que acompanham as notícias de comércio internacional, a lição principal é que as decisões de alto nível têm efeitos diretos no preço dos alimentos na mesa, no custo dos carros que vemos nas ruas e até nas oportunidades de emprego nas indústrias locais. Se você trabalha na agricultura, na pesca ou no setor automotivo, vale a pena ficar de olho nas próximas declarações de Trump e nas negociações de Carney.

Em resumo, a ameaça de tarifas de 100% não é apenas um discurso político; é um risco real que pode mudar a dinâmica econômica da região. Enquanto o Canadá tenta diversificar suas parcerias, os EUA parecem determinados a manter sua posição dominante. O que acontecerá nos próximos meses vai depender de como cada governo equilibrará interesses nacionais com a necessidade de cooperação global.

Fique atento às atualizações e, se quiser entender melhor como essas políticas podem impactar seu bolso, acompanhe nossos próximos posts. O comércio internacional pode parecer distante, mas ele está presente em cada compra que fazemos.