Na última semana, a relação comercial entre Canadá e China deu um salto inesperado. O primeiro‑ministro canadense, Mark Carney, fez a primeira visita oficial a Pequim em oito anos e saiu de lá com a promessa de reduzir tarifas sobre a canola e abrir espaço para quase 50 mil carros elétricos chineses no mercado canadense. Mas, enquanto os agricultores canadenses comemoram a perspectiva de novos pedidos de exportação, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma ameaça que pode mudar todo o cenário: tarifas de 100% sobre tudo que vier do Canadá para os EUA.
Por que o Canadá está buscando a China?
Depois de décadas de dependência dos Estados Unidos como principal parceiro comercial, o Canadá tem sentido a necessidade de diversificar. A canola, por exemplo, é um dos produtos agrícolas mais importantes do país, mas tem sido alvo de tarifas chinesas desde 2023. Reduzir essas barreiras seria um alívio imediato para os agricultores.
Além disso, o setor automotivo canadense – especialmente em Ontário – está em transição. A aposta em veículos elétricos (VE) como futuro da mobilidade tem levado o governo a buscar tecnologias e cadeias de suprimentos mais avançadas. Permitir a entrada de carros elétricos chineses a uma tarifa de 6,1% (bem abaixo dos 100% que o ex‑primeiro‑ministro Justin Trudeau impôs) parece, à primeira vista, um caminho para acelerar a adoção desses veículos no país.
O que Trump realmente quer?
Para entender a ameaça de Trump, é preciso lembrar que os EUA ainda são o maior mercado para o Canadá. Qualquer mudança que favoreça a China pode ser vista como um risco para a competitividade americana. Quando Trump escreveu no Truth Social que o Canadá não deve se tornar um “porto de descarga” para a China, ele estava sinalizando que, se o acordo avançar, os EUA aplicarão tarifas de 100% sobre todos os bens canadenses que entrarem no país.
Essa postura tem duas motivações claras:
- Proteção da indústria americana: tarifas altas podem tornar os produtos canadenses menos atrativos, forçando as empresas dos EUA a buscar fornecedores locais.
- Pressão política: ao ameaçar com tarifas, Trump tenta colocar o Canadá em uma posição delicada, forçando-o a escolher entre os EUA e a China.
Impactos para os canadenses
Se a ameaça de Trump se concretizar, o efeito cascata será grande:
- Agricultores: a canola e outros produtos agrícolas que já enfrentam tarifas chinesas podem perder acesso ao maior mercado de exportação – os EUA.
- Indústria automotiva: fabricantes de peças e montadoras que dependem da cadeia de suprimentos norte‑americana podem ver seus custos subir, já que os veículos chineses entram no Canadá a baixo custo, mas podem ser barrados nos EUA.
- Consumidores: preços mais altos para bens importados e menor variedade de produtos nos supermercados.
Por outro lado, a redução das tarifas chinesas pode gerar um influxo de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses, segundo o próprio Carney. Esse dinheiro pode ser um alívio temporário, mas não resolve o risco de longo prazo de ser excluído do mercado americano.
O que os políticos canadenses estão dizendo?
O premier de Ontário, Doug Ford, já criticou a decisão, alegando que a entrada massiva de veículos elétricos baratos pode prejudicar a indústria local sem garantias de investimentos reais. Já o próprio Trump, em declarações contraditórias, chegou a elogiar Carney por buscar um acordo com a China, mas logo depois reforçou a ameaça de tarifas.
Essa ambiguidade revela um cenário de negociação onde cada movimento tem um duplo sentido: ao mesmo tempo em que o Canadá tenta abrir portas para a China, os EUA mostram que não vão abrir as portas para o Canadá se ele se aproximar demais de Pequim.
Qual o futuro desse embate?
Algumas possibilidades se destacam:
- Negociação de um novo acordo NAFTA/USMCA: se os EUA revisarem o acordo trilateral, pode haver espaço para concessões que reduzam a pressão sobre o Canadá.
- Compensação chinesa: a China poderia oferecer reduções adicionais de tarifas em troca de acesso mais amplo ao mercado canadense, criando um equilíbrio delicado.
- Desenvolvimento interno: o Canadá pode investir mais em sua própria indústria de veículos elétricos, reduzindo a dependência de importações chinesas.
Para nós, leitores que acompanhamos de perto o comércio internacional, o que fica claro é que o cenário está em constante mudança. Uma decisão de política comercial em Washington pode reverberar nos campos de canola de Saskatchewan, nas fábricas de automóveis de Ontário e até nos nossos carrinhos de supermercado.
Como isso afeta o seu dia a dia?
Mesmo que você não seja agricultor ou executivo da indústria automobilística, as repercussões podem chegar até a sua conta de luz ou ao preço da comida. Tarifas mais altas tendem a ser repassadas ao consumidor final. Além disso, a disputa pode influenciar a velocidade com que veículos elétricos mais baratos chegam ao mercado brasileiro, já que as cadeias de suprimento são globais.
Ficar atento às notícias sobre comércio internacional é, portanto, uma forma de entender por que certos produtos ficam mais caros ou mais baratos, e como decisões tomadas em Washington ou Pequim podem mudar a nossa realidade.
Em resumo, a ameaça de Trump de impor tarifas de 100% ao Canadá é mais do que um simples blefe: é um lembrete de que o comércio global é um jogo de xadrez onde cada movimento tem consequências em múltiplas frentes. O Canadá está tentando equilibrar seus interesses com a China, enquanto os EUA não pretendem perder sua posição dominante. O que acontecerá nos próximos meses será decisivo para agricultores, montadoras e, claro, para o nosso bolso.



