Na última quinta‑feira (8), a cidade luz ganhou um cenário inesperado: tratores gigantes bloqueando a Champs‑Élysées, o Arco do Triunfo e até as rodovias que levam a Paris. Não foi um desfile de moda nem um filme de ação, mas sim a manifestação de milhares de agricultores franceses contra o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Eu sempre achei curioso como acordos comerciais, que parecem tão distantes da vida cotidiana, acabam invadindo as ruas das capitais. Quando vi fotos dos tratores parados sob a Torre Eiffel, percebi que o debate vai muito além de números e tarifas; ele toca a sobrevivência de quem planta, cria e vende o alimento que chega às mesas.
Para entender o que está em jogo, vale dar um passo atrás e lembrar rapidamente o que é o Mercosul. Formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o bloco representa cerca de 260 milhões de consumidores e produtores. A proposta da UE, aprovada em parte pelos países membros, prevê a eliminação de tarifas sobre produtos agrícolas, industriais e serviços, prometendo abrir mercados de ambos os lados.
Mas, como todo acordo, há quem ganhe e quem perca. Os agricultores franceses, representados por sindicatos como a FNSEA (Federação Nacional de Sindicatos de Agricultores) e a Coordination Rurale, enxergam ameaças reais ao seu futuro.
O que motiva a revolta dos agricultores?
- Competitividade dos preços: A entrada de carne bovina, soja e outros produtos sul‑americanos a preços mais baixos pode reduzir a demanda pelos produtos locais, afetando a renda dos produtores franceses.
- Regulamentações sanitárias: A França tem enfrentado uma epidemia de dermatite nodular no gado, que levou o governo a adotar medidas de abate massivo. Os agricultores pedem vacinação em vez de abate, alegando que a política é excessiva e prejudica ainda mais o setor.
- Subsídios e apoio da UE: Embora a Comissão Europeia tenha prometido 45 bilhões de euros em recursos agrícolas e redução de tarifas de fertilizantes, os produtores ainda sentem que o apoio chega tarde demais ou não cobre todas as perdas esperadas.
Stéphane Pelletier, dirigente da Coordination Rurale, descreveu o clima como “entre o ressentimento e o desespero”. Essa frase resume bem o sentimento de abandono que muitos agricultores sentem, sobretudo quando veem decisões que afetam diretamente seu sustento sendo tomadas em Bruxelas, longe dos campos que cultivam.
Como a manifestação se desenrolou em Paris
Os protestos foram organizados em vários pontos estratégicos: a avenida mais famosa da cidade, a Champs‑Élysées, ficou bloqueada por tratores que avançaram até o Arco do Triunfo. Nas rodovias que conectam Paris a regiões como a Normandia, dezenas de tratores criaram congestionamentos que se estenderam por mais de 150 km, segundo o ministro dos Transportes, Philippe Tabarot.
O objetivo era claro: chamar a atenção de Emmanuel Macron e pressionar o governo francês a se posicionar contra o acordo antes da votação prevista para a sexta‑feira (9). A FNSEA chegou a anunciar que, se o acordo for assinado, organizará outra manifestação em Estrasburgo, onde fica o Parlamento Europeu.
O que está em jogo para a França?
Além das questões econômicas, o acordo tem um peso político significativo. As eleições municipais de março e a ascensão da extrema‑direita nas pesquisas criam um cenário delicado para Macron. Um voto favorável ao acordo poderia ser usado pelos adversários como sinal de que o governo está distante das preocupações rurais.
Por outro lado, países como Alemanha e Espanha já demonstraram apoio ao tratado, e a Itália parece pronta para dar o aval final. Se Roma fechar o bloco, a UE terá votos suficientes para aprovar o acordo mesmo sem o voto francês, o que deixaria Macron em uma posição ainda mais complicada.
Quais são as possíveis consequências para o consumidor?
Se o acordo for aprovado, os consumidores europeus podem ver uma maior variedade de produtos sul‑americanos nas prateleiras, possivelmente a preços mais baixos. Para alguns, isso pode significar economia nas compras de carne ou soja. Contudo, há o risco de que produtores locais percam participação de mercado, o que poderia levar ao fechamento de pequenas propriedades e à concentração da produção em grandes conglomerados.
Além disso, a questão ambiental não pode ser ignorada. A expansão da agropecuária no Mercosul tem sido associada ao desmatamento na Amazônia. Um aumento das exportações pode intensificar essa pressão, gerando críticas de grupos ambientalistas europeus.
O que podemos esperar nos próximos dias?
Com a votação marcada para sexta‑feira, o clima está tenso. Se o Parlamento Europeu aprovar o acordo, ainda será necessário que todos os Estados‑membros ratifiquem o tratado. A França tem a chance de bloquear ou, ao menos, de negociar cláusulas adicionais que protejam seus agricultores.
Enquanto isso, os agricultores franceses continuam nas ruas, usando tratores como megafone para fazer ouvir sua voz. Para nós, que acompanhamos de longe, fica a lição de que acordos globais têm impactos locais profundos e que, muitas vezes, a melhor forma de entender esses impactos é observar quem realmente sai na rua para protestar.
Se você ainda não tinha ideia de como um tratado comercial pode transformar o cotidiano de quem planta e cria, espero que este relato tenha ajudado a conectar os pontos. E, quem sabe, da próxima vez que passar por um supermercado, lembre‑se de que por trás de cada etiqueta há uma rede complexa de decisões políticas, econômicas e, às vezes, protestos barulhentos nas avenidas de Paris.



