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Tarifas dos EUA sob ataque: O que a elevação para 25% significa para a Coreia do Sul e para o Brasil

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Tarifas dos EUA sob ataque: O que a elevação para 25% significa para a Coreia do Sul e para o Brasil

Na segunda‑feira (26), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou as redes sociais para anunciar que vai elevar as tarifas sobre produtos sul‑coreanos de 15% para 25%. O aumento abrange automóveis, madeira, produtos farmacêuticos e outras categorias que antes tinham um acordo mais brando.



Mas por que essa mudança repentina? Trump acusa o Legislativo da Coreia do Sul de não cumprir o acordo comercial firmado entre Washington e Seul. Segundo ele, a Coreia não aprovou “nosso histórico acordo comercial”, e por isso ele está exercendo pressão ao subir as tarifas.

Para a Coreia do Sul, a notícia chegou como um balde de água fria. O gabinete sul‑coreano ainda não recebeu notificação oficial, mas já avisou que um assessor se reunirá com os ministérios envolvidos para discutir a resposta.

O ministro da Indústria, Kim Jung‑kwan, que está no Canadá, deve visitar os EUA entre 28 e 31 de janeiro para conversar com o secretário de Comércio, Howard Lutnick. Essa reunião pode ser o primeiro passo para tentar reverter a decisão ou, ao menos, negociar um prazo maior para a implementação das exigências americanas.



Um acordo que ainda não decolou

No ano passado, Washington e Seul assinaram um acordo que reduziu as tarifas americanas sobre automóveis e autopeças sul‑coreanos de 25% para 15%, alinhando‑se ao tratamento dado ao Japão. Em contrapartida, a Coreia do Sul se comprometeu a investir US$ 350 bilhões em setores estratégicos dos EUA, dos quais US$ 200 bilhões seriam pagos em dinheiro, em parcelas de até US$ 20 bilhões por ano.

Entretanto, no início de janeiro, o ministro das Finanças da Coreia do Sul admitiu que o investimento provavelmente não começará no primeiro semestre de 2026. A justificativa? A fraqueza do won, que está em níveis não vistos desde a crise de 2007‑2009, e o risco de grandes saídas de capital que poderiam desestabilizar ainda mais a moeda.

Impactos para o consumidor brasileiro

Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?” A resposta não é direta, mas há caminhos claros. Primeiro, o aumento das tarifas pode encarecer carros importados da Coreia, como os da Hyundai e Kia, que têm presença significativa no mercado brasileiro, especialmente em faixas de preço mais acessíveis.

Se os fabricantes sul‑coreanos sentirem a pressão nos EUA, eles podem repassar parte dos custos para outros mercados, incluindo o Brasil. Isso pode se traduzir em preços mais altos nas concessionárias ou, em alguns casos, em redução de linhas de modelo para cortar custos.

Além dos automóveis, produtos farmacêuticos sul‑coreanos – como medicamentos genéricos e equipamentos médicos – também podem sofrer aumentos de preço. O Brasil importa uma quantidade considerável desses itens, e qualquer elevação nas tarifas americanas pode reverberar nas cadeias de suprimento globais.



O que dizem os especialistas

Josh Lipsky, diretor de economia internacional do Atlantic Council, vê a medida como um sinal de impaciência de Trump com a velocidade de implementação do acordo por parte de Seul. “É apenas mais um lembrete de que os mercados estavam errados ao acreditar que entraríamos em um período de estabilidade tarifária em 2026”, afirmou.

Ele também aponta que a volatilidade tem um custo: empresas podem adiar investimentos, cadeias de produção podem ser reconfiguradas e consumidores acabam pagando mais. Em termos de política externa, a estratégia de usar tarifas como alavanca tem sido recorrente no segundo mandato de Trump, mas agora enfrenta um teste na Suprema Corte dos EUA.

Possíveis cenários futuros

Existem três caminhos principais que podem se desenrolar nos próximos meses:

  • Negociação e alívio: Se a visita de Kim Jung‑kwan a Washington for bem‑sucedida, pode haver um novo acordo que mantenha as tarifas em 15% ou estabeleça um cronograma mais flexível para o investimento sul‑coreano.
  • Escalada de tarifas: Caso as conversas falhem, os EUA podem manter ou até aumentar ainda mais as tarifas, pressionando a Coreia a aceitar condições mais duras ou a buscar outros parceiros comerciais.
  • Retaliação comercial: A Coreia do Sul poderia responder com tarifas sobre produtos americanos, afetando setores como tecnologia e agricultura nos EUA.

Para o Brasil, o cenário mais provável é o de “efeito indireto”: preços mais altos em produtos importados e possíveis atrasos em investimentos estrangeiros que poderiam gerar empregos e tecnologia.

Como se preparar?

Se você está pensando em comprar um carro novo nos próximos anos, vale a pena monitorar as notícias sobre esse impasse. Avalie opções de marcas que já produzem localmente no Brasil, como a própria Hyundai, que tem fábrica em Piracicaba (São Paulo). Comprar um modelo já fabricado no país pode reduzir a exposição a variações tarifárias.

Para quem depende de medicamentos importados, converse com seu farmacêutico sobre alternativas genéricas nacionais ou de outros países que não estejam sujeitos a essas tarifas.

Em resumo, a decisão de Trump pode parecer distante, mas o comércio global é uma teia interconectada. Uma mudança nas tarifas entre EUA e Coreia do Sul pode, em poucos meses, chegar até a sua carteira.

Fique de olho nas próximas semanas – as negociações em Seul e Washington vão definir se a tensão vai esfriar ou se vai esquentar ainda mais.