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Tarifas de €93 bi contra os EUA: o que está em jogo na disputa pela Groenlândia

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Tarifas de €93 bi contra os EUA: o que está em jogo na disputa pela Groenlândia

Nos últimos dias, a imprensa internacional tem sido invadida por manchetes sobre uma possível retaliação da União Europeia (UE) no valor de € 93 bilhões – cerca de R$ 580 bilhões – contra os Estados Unidos. O gatilho? As ameaças de Donald Trump de impor tarifas à Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, tudo isso para pressionar a anexação da Groenlândia.



Mas por que a Groenlândia, uma ilha de 2,1 milhões de km² coberta de gelo, virou o centro de uma disputa que pode reverberar nos mercados globais e na segurança do Ártico? Primeiro, a ilha está sob soberania dinamarquesa, mas goza de considerável autonomia. Seu território abriga recursos minerais valiosos – como urânio, zinco, ouro e terras raras – além de ser uma posição estratégica para rotas de navegação que se abrirão à medida que o gelo derrete.

Para os EUA, garantir acesso irrestrito a esses recursos e consolidar uma presença militar mais forte no Ártico seria um grande salto estratégico. Para a UE, aceitar a pressão americana sem resposta seria abrir precedentes perigosos: um país usando tarifas como moeda de negociação política, algo que a própria União tem buscado evitar com seu recém‑criado “instrumento anti‑coerção”.



Como a UE chegou a € 93 bi em tarifas?

O número não saiu do nada. Desde o último ano, os negociadores europeus já tinham um pacote de medidas pronto, mas o mantiveram em suspenso até 6 de fevereiro, esperando por uma oportunidade de usar a alavanca. Quando Trump anunciou a intenção de aplicar tarifas de 10 % – com possibilidade de subir para 25 % – sobre os produtos de oito países europeus, a UE decidiu que era hora de colocar o pacote de volta na mesa.

Essas tarifas seriam aplicadas a setores variados, desde automóveis e máquinas industriais até produtos agrícolas. A soma total das exportações europeias para os EUA que seriam afetadas chega a € 93 bi, o que explica a magnitude da proposta de retaliação.

O que é o “instrumento anti‑coerção”?

Trata‑se de uma ferramenta criada pela UE para responder a pressões econômicas externas que visam forçar decisões políticas. Em termos práticos, ele permite que o bloco imponha medidas de retaliação – como tarifas ou restrições ao acesso de empresas estrangeiras ao mercado europeu – como último recurso, com o objetivo de dissuadir práticas de coerção.

O uso desse instrumento ainda é raro. A última vez que a UE recorreu a algo semelhante foi durante as tensões comerciais com a China, mas nunca em escala tão ampla como a proposta atual contra os EUA.



Implicações para a segurança no Ártico

Além das questões econômicas, a disputa tem um forte componente de segurança. A Groenlândia está localizada no coração do Ártico, uma região que vem se tornando cada vez mais estratégica devido ao derretimento do gelo, que abre novas rotas marítimas e facilita o acesso a recursos naturais.

Em resposta às ameaças de Trump, vários países europeus – Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda – anunciaram o envio de contingentes militares para a ilha, a pedido do governo dinamarquês. Essa movimentação reforça a presença da OTAN no Ártico e envia um sinal claro de que a aliança não aceitará pressões unilaterais.

Os protestos nas ruas da Groenlândia e de Copenhague também mostram que a população local está atenta e não aceita ser usada como peça de xadrez geopolítico.

Como isso afeta o cidadão comum?

Para quem mora fora do círculo político, a notícia pode parecer distante, mas as consequências podem chegar ao bolso. Tarifas sobre produtos europeus podem encarecer bens importados dos EUA, como eletrônicos, veículos e até alimentos. Por outro lado, se a UE aplicar suas tarifas, produtos europeus – como vinhos, queijos e automóveis – podem ficar mais caros nos EUA, afetando cadeias de suprimento e empregos em ambos os lados do Atlântico.

Além disso, a instabilidade nas relações transatlânticas pode impactar acordos comerciais mais amplos, como o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, que ainda está em negociação. Uma escalada de tensões pode atrasar ou até inviabilizar esses projetos, o que tem reflexos diretos na economia brasileira.

O que dizem os líderes europeus?

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, deixou claro que a UE permanecerá “unida e coordenada” na defesa da soberania dinamarquesa. Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, alertou que divisões internas beneficiariam rivais como Rússia e China.

Os primeiros‑ministros da Suécia, Finlândia, Noruega e França também se mostraram firmes, rejeitando a chantagem e pedindo diálogo ao invés de pressão. O presidente da França, Emmanuel Macron, classificou as ameaças como inaceitáveis e sugeriu a ativação do instrumento anti‑coerção.

Mesmo dentro da OTAN, há consenso de que a ameaça de tarifas não tem lugar entre aliados. O secretário‑geral da OTAN, Jens Stoltenberg, reforçou que a aliança continuará a cooperar no Ártico, mas que medidas unilaterais podem colocar em risco a ordem mundial tal como a conhecemos.

Qual o futuro dessa disputa?

Nos próximos dias, os líderes europeus se encontrarão em Bruxelas para definir a resposta concreta. Ao mesmo tempo, o Fórum Econômico Mundial em Davos será um palco importante para negociações entre os chefes de Estado. Se a UE decidir ativar o instrumento anti‑coerção, podemos esperar uma escalada de tarifas que pode levar a um ciclo de retaliações, algo que nenhum dos lados deseja.

Entretanto, a alternativa – ceder à pressão de Trump – pode abrir precedentes perigosos, encorajando outros países a usar tarifas como ferramenta de negociação política. O equilíbrio está em encontrar uma solução que preserve a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia, mantenha a cooperação transatlântica e evite danos econômicos massivos.

Para nós, leitores que acompanham a economia e a política internacional, a lição aqui é clara: as decisões tomadas nos corredores de poder de Bruxelas e Washington podem acabar influenciando o preço de um carro novo, o custo de um smartphone ou até mesmo a disponibilidade de certos alimentos nas prateleiras. Fique de olho, porque o futuro da Groenlândia pode, de alguma forma, estar conectado ao seu dia a dia.