Quando a gente ouve falar de “tarifas” costuma imaginar aquele preço extra no carrinho de compras ou o papo das notícias sobre guerra comercial. Mas, para quem acompanha de perto a política econômica dos Estados Unidos, a questão vai muito além de um número percentual. Recentemente, o presidente Donald Trump revelou um “plano B” que pode mudar o cenário global: impor uma tarifa geral de 10% caso a Suprema Corte derrube o tão falado “tarifaço”.
Entendendo o que está em jogo
Em setembro de 2025, a Suprema Corte dos EUA recebeu um pedido para analisar a legalidade de um conjunto de tarifas que o governo Trump impôs a mais de 180 países – entre eles o Brasil. Essas tarifas, que ficaram conhecidas como “tarifaço”, foram justificadas como resposta a práticas comerciais desleais e como forma de equilibrar o déficit comercial americano.
O que poucos sabem é que, se a Corte decidir que Trump excedeu sua autoridade, o presidente já tem um plano de contingência pronto: usar dispositivos da lei de comércio exterior, como as Seções 301, 232 e 122, para aplicar uma tarifa de 10% de forma quase automática.
Como funciona o plano B
Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, explicou à Fox Business que o governo pode recorrer a três principais instrumentos:
- Seção 301: permite impor sobretaxas quando há práticas comerciais desleais, como pirataria ou subsídios ilegais.
- Seção 232: autoriza tarifas por razões de segurança nacional, algo que tem sido usado para proteger a indústria de aço e alumínio.
- Seção 122 da Lei de Comércio de 1974: dá ao presidente a possibilidade de impor sobretaxas de até 15% por até 150 dias para corrigir desequilíbrios comerciais.
Essas ferramentas dão ao Executivo americano um “cinto de utilidades” para agir rapidamente, mesmo que a decisão judicial vá contra o atual regime tarifário.
Por que isso importa para o Brasil?
O Brasil está entre os países que mais sentiram o impacto do tarifaço. Produtos como soja, carne bovina, café e automóveis viram seus custos de exportação aumentarem, o que, por sua vez, afetou a competitividade das empresas brasileiras no mercado americano.
Se a Suprema Corte derrubar o tarifaço e o governo de Trump acionar o plano B, o cenário pode mudar de duas formas:
- Tarifa de 10% generalizada: ao invés de tarifas específicas por setor, todos os produtos importados dos países afetados pagariam 10% a mais. Isso pode ser menos doloroso para alguns setores, mas mais amplo.
- Uso de Seções 301/232: tarifas mais direcionadas podem ser aplicadas a setores que o governo considerar críticos, como tecnologia ou energia.
Para o exportador brasileiro, isso significa precisar reavaliar estratégias de preço, buscar novos mercados ou até renegociar contratos já firmados.
O que a decisão da Suprema Corte pode revelar sobre o poder presidencial
A disputa judicial não é só sobre números; ela testa os limites da autoridade do presidente americano. A lei de 1977, que serviu de base para o tarifaço, foi criada para situações de emergência nacional, como guerras. A questão central é se Trump pode usar essa lei para questões econômicas normais, sem a aprovação do Congresso.
Os juízes conservadores da Corte, que atualmente têm a maioria (6 a 3), mostraram dúvidas sobre a extensão desse poder “inerente”. Se decidirem a favor de Trump, o precedente pode fortalecer o Executivo em futuras disputas comerciais. Se decidirem contra, o Congresso terá que assumir um papel mais ativo na definição de políticas tarifárias.
Impactos econômicos nos EUA e no mundo
Os números ainda são incertos, mas alguns analistas já apontam tendências:
- Mercado de ações: a bolsa americana reagiu positivamente ao anúncio de que o tarifaço teria efeitos menores do que o esperado, mas a volatilidade pode aumentar com a decisão da Corte.
- Dólar: o dólar recuou levemente, refletindo a incerteza sobre políticas protecionistas.
- Setores exportadores: indústrias como a agrícola e a de bens de consumo sentiram pressão nos últimos anos, mas ainda mantêm demanda robusta nos EUA.
Se o plano B for ativado, podemos esperar um aumento moderado nos preços de bens importados, o que pode gerar inflação importada, embora ainda seja um efeito pequeno comparado a outras pressões inflacionárias.
Como as empresas brasileiras podem se preparar
Não é hora de entrar em pânico, mas sim de adotar uma postura estratégica. Aqui vão algumas sugestões práticas:
- Monitorar a decisão da Corte: mantenha contato com consultorias de comércio exterior e siga de perto os comunicados oficiais.
- Reavaliar cadeias de suprimento: se possível, diversifique os mercados de destino ou busque fornecedores alternativos que não dependam tanto dos EUA.
- Negociar cláusulas de ajuste: inclua no contrato cláusulas que permitam repassar parte das tarifas ao comprador caso haja mudanças abruptas nas políticas tarifárias.
- Aproveitar incentivos locais: explore programas de exportação do governo brasileiro que podem oferecer apoio logístico ou financeiro.
Essas medidas ajudam a reduzir a vulnerabilidade a choques externos e a manter a competitividade.
O que pode acontecer nos próximos meses
Com a decisão da Suprema Corte prevista para a próxima semana, o clima de expectativa está alto. Existem três cenários principais:
- Decisão a favor de Trump: o tarifaço permanece, e o governo pode seguir com as tarifas atuais ou ajustá-las conforme a situação econômica.
- Decisão contra Trump, mas sem plano B imediato: o governo pode precisar negociar com o Congresso para criar uma nova base legal para tarifas, o que pode demorar.
- Decisão contra Trump e ativação rápida do plano B: tarifas de 10% entram em vigor rapidamente, gerando um ajuste súbito nos fluxos comerciais.
Independentemente do resultado, o importante é que as empresas se mantenham flexíveis e preparadas para adaptar suas estratégias.
Conclusão: Por que você deve ficar de olho
Mesmo que você não seja um exportador, as tarifas americanas têm um efeito cascata. Elas influenciam preços de produtos importados, afetam a taxa de câmbio e podem mudar a dinâmica de investimentos estrangeiros no Brasil. Além disso, o caso serve como um termômetro da relação entre o Executivo e o Judiciário nos EUA – algo que pode reverberar em outras áreas, como políticas climáticas e de tecnologia.
Em resumo, o “plano B” de Trump é mais que um detalhe de política comercial; é um lembrete de que o ambiente global está em constante mudança e que, para nós, estar bem informado pode fazer a diferença entre aproveitar uma oportunidade ou sofrer um revés inesperado.
Fique atento às próximas notícias, converse com seus parceiros de negócios e, se possível, busque aconselhamento especializado. O futuro das tarifas pode estar se formando agora, e quem se prepara melhor sai na frente.



