Na última sexta‑feira, 19 de dezembro, 50 congressistas democratas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao presidente Donald Trump pedindo que ele revogue o chamado “tarifaço” imposto ao Brasil. O pedido não foi só um apelo econômico; foi também uma crítica direta às alegações de que o ex‑presidente Jair Bolsonaro estaria sendo perseguido pela justiça brasileira. Para quem acompanha a política internacional, essa carta abre uma série de questões que vão muito além dos números de impostos sobre soja, carne ou café.
O que exatamente é o “tarifaço”?
Em agosto de 2024, a Casa Branca anunciou tarifas de até 40 % sobre mais de 200 produtos brasileiros. A justificativa oficial era proteger a agricultura americana e, segundo o governo de Trump, punir o que ele chamou de “perseguição política” contra Bolsonaro. Na prática, os produtores brasileiros viram seus custos subir, os exportadores perderam competitividade nos EUA e a balança comercial entre os dois países ficou ainda mais desequilibrada.
Por que os democratas se manifestaram agora?
Além da pressão econômica, a carta traz duas acusações graves:
- Uso indevido da IEEPA: os democratas alegam que Trump violou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), um instrumento que permite ao governo impor sanções apenas em situações de emergência nacional. Aplicar tarifas como forma de retaliação política seria, segundo eles, um abuso da lei.
- Tentativa de minar a democracia brasileira: ao defender Bolsonaro, que foi condenado pelo STF a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe, Trump estaria interferindo no processo democrático do Brasil e, ao mesmo tempo, enfraquecendo a liderança dos EUA na América Latina.
O que isso tem a ver com a gente?
Se você costuma comprar café, chocolate ou carne de origem brasileira, ou se trabalha em alguma cadeia de suprimentos que depende das exportações do país, as tarifas têm impacto direto no seu bolso. Um aumento de 40 % nos impostos de importação pode significar preços mais altos nas prateleiras americanas – e, indiretamente, nos mercados globais, já que os EUA são um grande ponto de referência de preço.
Mas a questão vai além do preço dos produtos. Ela toca na forma como duas potências lidam com questões de soberania, direitos humanos e comércio justo. Quando um país usa tarifas como ferramenta de pressão política, ele cria um precedente perigoso: o comércio deixa de ser um jogo de oferta e demanda para se tornar um tabuleiro de xadrez geopolítico.
Como a diplomacia brasileira reagiu
O governo Lula, que assumiu a presidência em janeiro de 2023, adotou uma postura de diálogo. Em novembro, o presidente anunciou a retirada da taxa de 40 % para mais de 200 produtos, graças a negociações lideradas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Lula descreveu a vitória como “resultado de diplomacia e bom senso”.
Essa reviravolta mostrou que, mesmo sob pressão, é possível encontrar caminhos de conciliação. Contudo, a carta dos democratas indica que ainda há resistência dentro da ala conservadora da política americana, que vê as tarifas como ferramenta de coerção.
Próximos passos: o que pode acontecer?
Alguns cenários são possíveis:
- Revogação total das tarifas: Se Trump ceder à pressão interna (democratas e setores empresariais) e internacional, podemos esperar a normalização das exportações brasileiras para os EUA, o que traria alívio para agricultores e indústrias.
- Manutenção parcial: O governo pode manter algumas tarifas como forma de negociação, exigindo concessões em áreas como proteção ambiental ou direitos trabalhistas.
- Escalada de tensões: Caso Trump ignore a carta e mantenha ou até aumente as sanções, o Brasil poderia buscar novos parceiros comerciais – a China, por exemplo, já se posicionou como “defensora do Sul Global”.
Impactos para a democracia brasileira
A condenação de Bolsonaro pelo STF já mudou o cenário interno. A prisão do ex‑presidente e a aprovação do PL da Dosimetria, que reduz penas para golpistas, mostram que o Brasil está avançando em direção à consolidação institucional. Quando um líder externo tenta “proteger” um político condenado por golpe, isso pode ser interpretado como uma ameaça à soberania nacional.
Para nós, cidadãos, isso reforça a importância de acompanhar não só o que acontece dentro do país, mas também como outros governos tentam influenciar nossos processos. A carta dos democratas, ao condenar as “tentativas de minar a democracia”, traz à tona a necessidade de vigilância constante sobre interferências externas.
Como você pode se posicionar?
Mesmo que você não seja um especialista em relações internacionais, há algumas atitudes simples que ajudam a entender e influenciar esse debate:
- Fique informado: acompanhe fontes confiáveis, tanto brasileiras quanto internacionais, para entender os argumentos de cada lado.
- Consuma de forma consciente: ao escolher produtos brasileiros, procure saber se eles foram afetados por tarifas e, se possível, dê preferência a marcas que defendem comércio justo.
- Participe do debate: escreva para seus representantes, compartilhe informações nas redes sociais e participe de discussões públicas sobre política externa.
- Valorize a diplomacia: reconheça que o diálogo – como o que levou à retirada parcial das tarifas – pode ser mais eficaz que a retaliação econômica.
Um olhar para o futuro
O mundo está cada vez mais interconectado, e as decisões de um presidente americano reverberam em mercados e democracias ao redor do globo. Se a carta dos democratas conseguir mudar a postura de Trump, talvez vejamos um retorno ao uso do comércio como ponte, e não como barreira.
Por outro lado, se a estratégia de tarifas continuar, o Brasil pode acelerar sua diversificação de parceiros, fortalecendo relações com a União Europeia, a China e países da América Latina. Essa mudança poderia reduzir a dependência dos EUA e abrir novas oportunidades de investimento.
Em última análise, o que está em jogo não é apenas um número de 40 % sobre um saco de café, mas a forma como duas nações lidam com questões de poder, responsabilidade e respeito mútuo. E, como cidadãos, temos o dever de acompanhar, questionar e, quando possível, contribuir para que a diplomacia prevaleça sobre a coerção.
Então, da próxima vez que ouvir sobre tarifas, lembre‑se de que há muito mais por trás da notícia: há histórias de agricultores, de políticos, de juízes e de cidadãos que, de alguma forma, sentem o peso dessas decisões. E, quem sabe, talvez a nossa voz – mesmo que pequena – possa fazer a diferença.



