Eu estava tomando meu café da manhã quando vi a notícia: a Suprema Corte dos Estados Unidos vai decidir, nesta quarta‑feira, se o presidente Donald Trump tem ou não o direito de impor tarifas de forma unilateral. Parece papo de economista, mas a verdade é que esse julgamento pode mexer com o nosso bolso aqui no Brasil, com o valor do dólar e até com a forma como as empresas brasileiras vendem para o exterior.
Antes de mergulhar nos detalhes, vamos entender o que, na prática, é esse tal de “tarifaço”. Em 2025, Trump lançou uma série de tarifas que variaram de 10% a 50% sobre produtos de diversos países, inclusive o Brasil. A ideia, segundo ele, era proteger a indústria americana e pressionar concorrentes que, segundo sua visão, praticavam comércio desleal. Mas a Constituição dos EUA deixa claro que quem cria impostos e tarifas é o Congresso, não o presidente. Trump, porém, invocou uma lei de 1977 – a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) – que já foi usada para sanções, mas nunca para tarifas tão amplas.
Três tribunais inferiores já rejeitaram o argumento do governo americano, mas a palavra final cabe à Suprema Corte. E o que está em jogo? Não são apenas números no papel, mas efeitos reais na inflação, nos juros, no fluxo de capitais e, claro, no preço do dólar frente ao real.
Se a Corte apoiar Trump: o que muda?
Um veredito a favor do presidente significa que as tarifas impostas desde abril de 2025 permanecem legais. Elas variam de 10% a 50% e, no caso de produtos brasileiros, chegam a 40% em algumas categorias. O especialista em comércio exterior Jackson Campos explica que isso consolidaria o uso de medidas unilaterais como ferramenta de política econômica. Em termos simples: o governo dos EUA poderia, a qualquer momento, subir ou criar novas tarifas sem precisar passar pelo Congresso.
Do ponto de vista financeiro, a consequência mais imediata seria um fortalecimento do dólar. Por quê? Tarifas elevam os preços dos produtos importados, geram inflação e forçam o Federal Reserve (Fed) a manter os juros altos para conter a alta de preços. Juros altos, por sua vez, tornam os investimentos nos EUA mais atrativos, atraindo capital estrangeiro e aumentando a demanda por dólares. Como diz Sérgio Brotto, CEO da Dascam Corretora de Câmbio, os EUA se tornam um “aspirador de capital”.
Para nós, brasileiros, isso tem duas implicações práticas:
- Dólar mais caro: com a moeda americana mais valorizada, tudo que importamos – de eletrônicos a insumos industriais – fica mais caro.
- Exportações mais difíceis: produtos brasileiros que já pagam tarifas de até 40% perdem competitividade nos EUA, reduzindo a demanda.
Além disso, o Fed, pressionado pela inflação gerada pelas tarifas, deve manter os juros elevados nas próximas reuniões. Isso significa menos espaço para cortes de juros no futuro próximo, o que mantém o dólar em alta.
E se a Corte derrubar as tarifas?
Um veredito desfavorável a Trump faria com que as tarifas fossem consideradas ilegais. Na prática, isso suspenderia a cobrança, mas não garantiria a devolução automática dos valores já pagos. As empresas que pagaram as tarifas precisariam entrar com pedidos de reembolso, um processo que pode ser moroso e burocrático.
Do ponto de vista do mercado, a derrota de Trump enfraqueceria o dólar. Sem a pressão inflacionária das tarifas, o Fed teria mais liberdade para cortar juros, tornando os ativos americanos menos atraentes. Isso abriria espaço para que investidores busquem oportunidades em mercados emergentes, como o Brasil.
Na prática, isso se traduziria em:
- Dólar mais fraco: menos demanda por dólares, o que pode reduzir o preço da moeda em relação ao real.
- Mais capital entrando no Brasil: investidores em busca de rendimentos maiores podem aplicar em títulos brasileiros, fortalecendo o mercado interno.
- Real se valorizando: com menos pressão de compra de dólares, o real tende a subir, reduzindo o custo de importação.
- Juros internos mais baixos: se o cenário internacional for de juros mais baixos, o Banco Central brasileiro pode reduzir a taxa Selic, aliviando o crédito para consumidores e empresas.
Mas a história não termina aqui
Mesmo que a Suprema Corte declare as tarifas ilegais, Trump já sinalizou que pode buscar outras bases legais para impor medidas semelhantes. Ele pode recorrer a argumentos de segurança nacional ou alegar práticas comerciais desleais. Ou seja, a decisão da Corte não elimina a incerteza, mas reduz a capacidade do presidente de agir de forma repentina e sem apoio do Congresso.
O que isso significa para quem acompanha o mercado? Primeiro, menos insegurança jurídica no curto prazo. Segundo, a necessidade de ficar de olho em possíveis novas estratégias do governo americano. Em termos de números, estamos falando de cerca de US$ 90 bilhões (aproximadamente R$ 483 bilhões) já arrecadados em tarifas de importação. Se as tarifas forem anuladas, parte desse dinheiro pode ser devolvido, mas o impacto real na economia dos EUA ainda será significativo.
Impactos concretos para o Brasil
As exportações brasileiras para os EUA são um bom termômetro. Hoje, alguns produtos entram sem tarifa adicional, enquanto outros pagam até 40% de sobretaxa. Quando Trump impôs as tarifas, a lista mudou três vezes ao longo de 2025:
- Abril: tarifa de 10% para todos os produtos.
- Julho: aumento para até 50%, com exceções para 700 itens.
- Novembro: retirada da tarifa de 10%, mantendo apenas as taxas mais altas e ajustando a lista, incluindo a retirada de tarifas de 40% para café, carnes e frutas.
Se as tarifas forem mantidas, os exportadores brasileiros continuam enfrentando custos elevados e menor competitividade. Por outro lado, se forem anuladas, há a possibilidade de retomada das exportações com preços mais estáveis, o que pode impulsionar setores como agronegócio, máquinas e equipamentos.
Como se preparar?
Para quem tem empresa que exporta ou importa, ou mesmo para quem investe em ações de empresas exportadoras, algumas estratégias podem ajudar a mitigar riscos:
- Diversificar mercados: não depender só dos EUA. Buscar clientes na Europa, Ásia ou América Latina pode reduzir a exposição a decisões políticas americanas.
- Hedging cambial: usar contratos de câmbio futuro ou opções para travar a taxa de câmbio e evitar surpresas com a volatilidade do dólar.
- Monitorar políticas do Fed: ficar atento ao calendário de reuniões do Fed e às declarações de seus membros. Decisões sobre juros afetam diretamente o valor do dólar.
- Rever a cadeia de suprimentos: avaliar se há fornecedores em países menos expostos a tarifas americanas ou se há possibilidade de produzir localmente.
E, claro, acompanhar de perto a cobertura da decisão da Suprema Corte. O julgamento acontece nesta quarta‑feira, 14 de janeiro, e o impacto será sentido nos mercados já na semana seguinte.
Conclusão
O “tarifaço” de Trump pode parecer um assunto distante, mas ele tem consequências reais para quem vive no Brasil. Seja no preço do dólar, na competitividade das exportações ou na taxa de juros que afeta o crédito, a decisão da Suprema Corte vai reverberar por todo o planeta. Se Trump vencer, prepare‑se para um dólar mais forte e um cenário de juros altos nos EUA, o que pode tornar as importações caras e pressionar a inflação aqui. Se ele perder, há chances de um dólar mais fraco, juros mais baixos e um ambiente mais favorável para as exportações brasileiras.
De qualquer forma, a melhor atitude é ficar informado, diversificar e usar ferramentas de proteção cambial. O mundo está cada vez mais interligado, e decisões tomadas em Washington podem mudar o que pagamos por um celular ou o que recebemos pela nossa soja. Fique de olho, porque a próxima semana pode trazer surpresas que vão direto ao seu bolso.



