Na última segunda‑feira (12), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou a sua conta na Truth Social para anunciar uma medida que pegou muita gente de surpresa: a imposição de uma tarifa de 25% sobre qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã. A ordem, segundo o próprio Trump, entra em vigor imediatamente e, apesar de simples na forma, tem um potencial de repercussão enorme, principalmente para quem acompanha o comércio exterior brasileiro.
Mas, antes de mergulharmos nos detalhes de como isso pode afetar as exportações e importações do nosso país, vale a pena entender o pano de fundo. A relação entre os EUA e o Irã está marcada por décadas de sanções, acordos quebrados e tensões geopolíticas. Desde que Trump saiu do cargo em 2021, ele manteve uma postura agressiva contra Teerã, inclusive revogando o acordo nuclear de 2015. Agora, de volta à Casa Branca, ele parece estar usando a política de tarifas como mais uma ferramenta de pressão.
Como a tarifa funciona na prática?
Em termos simples, qualquer empresa ou governo que importe ou exporte produtos para o Irã terá que pagar 25% a mais em cada transação feita com os EUA. Isso inclui desde commodities agrícolas até bens de tecnologia. A medida ainda não deixa claro se as tarifas se aplicam apenas a novos negócios ou se retroagem para acordos já firmados. Essa ambiguidade gera incerteza, e os mercados costumam reagir rapidamente a esse tipo de notícia.
Brasil e Irã: números que dão a dimensão do risco
Em 2025, o Brasil importou cerca de US$ 84,5 milhões de produtos iranianos – a maior parte ureia, pistache e uvas secas. Por outro lado, as exportações brasileiras para o Irã somaram US$ 2,9 bilhões, com destaque para milho, soja e açúcar. Embora o Irã não esteja entre os 20 maiores parceiros comerciais do Brasil, ele ainda representa um mercado relevante no Oriente Médio.
- Ureia: essencial para a agricultura brasileira, principalmente no Centro‑Oeste.
- Pistache e uvas secas: produtos de nicho, mas com demanda crescente no mercado interno.
- Milho, soja e açúcar: commodities que movimentam bilhões e são vitais para a balança comercial.
Se a tarifa de 25% for aplicada a toda a cadeia de comércio com o Irã, as empresas brasileiras podem enfrentar custos adicionais que reduzam a competitividade dos nossos produtos no mercado iraniano. Isso pode levar a uma diminuição nas exportações ou a um repasse de custos para o consumidor final.
Impactos diretos nas empresas brasileiras
Para quem tem uma empresa que depende de insumos iranianos, como a ureia, a tarifa pode significar um aumento de preço de até 25% nos custos de produção. Imagine um produtor de soja do Mato Grosso que vê seu custo de fertilizante subir e, consequentemente, sua margem de lucro encolher. Já para os exportadores de milho ou açúcar, a situação pode ser ainda mais delicada: se o preço final dos produtos subir, os compradores iranianos podem procurar fornecedores alternativos, como a Rússia ou a Turquia.
Além dos impactos financeiros, há também questões logísticas. A tarifa pode gerar atrasos nas liberações aduaneiras, já que as autoridades americanas precisarão aplicar a nova alíquota em cada operação. Isso pode aumentar o tempo de entrega e, em setores que dependem de rapidez – como o de alimentos perecíveis – gerar perdas significativas.
O que o governo brasileiro pode fazer?
Até o momento, o Itamaraty e a Presidência não se manifestaram oficialmente. No entanto, o Brasil tem experiência em lidar com sanções internacionais, como as impostas à Rússia. Algumas estratégias possíveis incluem:
- Negociação diplomática: buscar uma exceção ou um acordo que minimize o impacto da tarifa para produtos estratégicos.
- Diversificação de mercados: reduzir a dependência do Irã, buscando novos compradores no Sudeste Asiático ou na África.
- Incentivo à produção nacional: estimular a produção de fertilizantes e outros insumos que hoje são importados do Irã, diminuindo a vulnerabilidade.
- Monitoramento de custos: criar um canal de comunicação rápido entre o setor privado e o governo para acompanhar o efeito da tarifa em tempo real.
Essas medidas podem ajudar a amortecer o choque e garantir que o comércio brasileiro continue fluindo, mesmo diante de pressões externas.
Contexto interno nos EUA: por que Trump voltou a usar tarifas?
Nos últimos dias, Trump tem sinalizado que os EUA podem intervir nos protestos que se espalham pelo Irã. Desde o fim de dezembro, milhares de iranianos têm saído às ruas contra o regime do aiatolá Ali Khamenei. O presidente norte‑americano, em declarações públicas, chegou a dizer que o Irã está “buscando a liberdade” e que os EUA estão “prontos para ajudar”.
Segundo o Wall Street Journal, há até discussões internas na Casa Branca sobre autorizar um ataque militar ao Irã, embora alguns conselheiros prefiram uma solução diplomática. Essa atmosfera de tensão pode ser o que impulsiona a decisão de usar tarifas como forma de pressão econômica, antes de recorrer a medidas militares mais drásticas.
O que esperar nos próximos meses?
Três cenários principais podem se desenrolar:
- Escalada de sanções: se os protestos continuarem e a política interna dos EUA permanecer agressiva, podemos ver novas tarifas ou restrições sobre outros setores.
- Negociação de alívio: o Irã pode buscar um acordo com Washington, talvez oferecendo concessões no programa nuclear, o que poderia levar à retirada ou redução das tarifas.
- Estabilidade parcial: as tarifas permanecem, mas as empresas brasileiras se adaptam, encontrando alternativas de fornecimento ou novos mercados.
Para nós, que acompanhamos de perto o comércio exterior, a chave será manter-se informado e pronto para agir. Acompanhar as publicações do Ministério da Economia, do Itamaraty e das associações de exportadores será essencial para tomar decisões estratégicas.
Em resumo, a tarifa de 25% anunciada por Trump pode parecer apenas mais uma medida isolada, mas seu efeito cascata tem potencial para mexer com cadeias produtivas, preços no varejo e, claro, com a confiança dos investidores. Se você tem alguma relação comercial com o Irã – seja como importador de insumos ou exportador de commodities – vale a pena rever contratos, analisar margens e, se possível, buscar assessoria especializada.
E você, já sentiu o impacto de alguma tarifa inesperada? Compartilhe sua experiência nos comentários – a troca de ideias ajuda a todos a navegar por esses mares turbulentos.



