Na última quinta-feira, o mundo ficou de olho em Washington: a Suprema Corte dos Estados Unidos tem um prazo curto para decidir se o chamado “tarifaço” de Donald Trump – aquele conjunto de tarifas que atingiu produtos de dezenas de países, inclusive o Brasil – é legal ou não. Para quem acompanha comércio internacional, a decisão pode mudar não só a forma como os EUA negociam com o resto do planeta, mas também o preço de um copo de café ou de um carro importado aqui no Brasil.
Um pouco de história: como chegamos ao tarifaço
Em abril de 2025, Trump anunciou tarifas recíprocas, começando com um adicional de 10 % sobre produtos brasileiros. Em julho, ele aumentou a alíquota para 40 %, totalizando 50 % de impostos sobre a maioria das exportações brasileiras. A medida tinha exceções (suco de laranja, aeronaves, petróleo, veículos, autopeças, fertilizantes etc.), mas ainda assim pesou muito nos custos de exportadores.
O objetivo, segundo o ex‑presidente, era usar as tarifas como ferramenta de negociação – “a melhor forma de proteger nossos trabalhadores e incentivar a produção nacional”. Na prática, o que se viu foi um clima de incerteza nos mercados, com empresas brasileiras tentando repassar os custos ou buscar novos destinos.
Por que a Suprema Corte está envolvida?
O caso chegou à Corte depois que o Departamento de Justiça dos EUA recorreu de uma decisão de um tribunal de apelações, que havia concluído que Trump extrapolou sua autoridade ao aplicar a lei de 1977 – originalmente destinada a emergências nacionais – para justificar tarifas comerciais. Em setembro passado, os nove juízes concordaram em analisar a legalidade das medidas.
O ponto central do debate: o presidente pode impor tarifas sem o aval do Congresso? Se a Corte entender que ele ultrapassou o poder legislativo, todo o arcabouço do tarifaço pode ser derrubado, incluindo a possibilidade de devolução dos bilhões arrecadados.
O que está em jogo?
- Trilhões de dólares em receitas de tarifas ao longo da próxima década.
- Relações comerciais entre EUA e mais de 30 países, entre eles o Brasil.
- Setores brasileiros diretamente atingidos: café, carnes, frutas, autopeças e fertilizantes.
- Empresas americanas que dependem de insumos importados e que já sofreram aumentos de custos.
Além disso, a decisão pode estabelecer um precedente sobre o quanto o Executivo pode agir unilateralmente em política comercial. Isso tem reflexos em futuras disputas comerciais, como as que envolvem a China ou a União Europeia.
Como isso afeta o dia a dia do brasileiro?
Para quem compra um pacote de café importado ou um carro com peças dos EUA, a tarifa pode significar um aumento de preço de 10 % a 50 %, dependendo do produto. Se a Corte declarar as tarifas ilegais, esses custos podem cair novamente, trazendo alívio para consumidores e empresas.
Mas há um lado menos óbvio: a decisão pode influenciar a política de negociação do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em novembro de 2025, após conversas diretas com Trump, os EUA retiraram a tarifa de 40 % sobre café, carnes e frutas, mostrando que o diálogo pode gerar concessões. Uma vitória para a Corte pode fortalecer a posição de Lula em futuras negociações, já que o governo brasileiro teria um argumento mais sólido contra medidas unilaterais.
Possíveis cenários
Cenário A – Corte declara as tarifas ilegais
– O “tarifaço” é suspenso imediatamente.
– Empresas americanas podem ser obrigadas a devolver parte das receitas arrecadadas.
– O Brasil recupera competitividade nas exportações de produtos afetados.
– O Congresso dos EUA ganha mais controle sobre políticas comerciais.
Cenário B – Corte mantém as tarifas
– As tarifas permanecem, mantendo a pressão sobre países exportadores.
– Empresas brasileiras continuam a arcar com custos adicionais.
– O Executivo americano reforça seu poder de decisão unilateral.
– Possível aumento de tensões comerciais globais.
O que dizem os especialistas?
Bill Harris, co‑fundador da Cooperative Coffees (Geórgia, EUA), conta que sua empresa pagou US$ 1,3 milhão em tarifas entre abril e novembro de 2025. “Esperamos que a Corte considere as tarifas ilegais, mas já estamos nos preparando para o pior cenário”, afirma.
Analistas de comércio internacional apontam que, mesmo que a Corte derrube o tarifaço, o dano à confiança dos investidores pode levar algum tempo para ser reparado. “A previsibilidade é o que o mercado mais valoriza”, lembra a economista Carla Mendes, da Fundação Getúlio Vargas.
Olhar para o futuro
Independentemente do veredicto, a discussão sobre o alcance do poder presidencial nos EUA deve continuar. A maioria conservadora da Corte (6 a 3) indica que há divergências internas, o que pode resultar em uma decisão mais equilibrada ou em um voto de minoria que ainda assim influenciará políticas futuras.
Para o Brasil, o importante é manter a diplomacia ativa, buscar acordos bilaterais que reduzam a dependência de tarifas e diversificar mercados. Enquanto isso, consumidores podem ficar atentos a possíveis variações de preço nos produtos importados e aproveitar oportunidades de compra quando as tarifas forem suspensas.
Em resumo, a decisão da Suprema Corte dos EUA não é só um caso jurídico; é um ponto de inflexão que pode mudar a dinâmica do comércio global e, consequentemente, o nosso bolso. Acompanhe as notícias, porque nos próximos dias o cenário pode mudar rapidamente.



