Na última quarta‑feira (21), a Suprema Corte dos Estados Unidos recebeu um caso que parece tirado de um thriller político: o ex‑presidente Donald Trump tentou demitir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve (Fed), alegando fraude hipotecária. A decisão da Corte pode mudar para sempre a forma como o banco central americano lida com pressões políticas e, por extensão, influenciar a estabilidade econômica global.
Para quem não acompanha de perto, o Fed é a instituição que controla a política monetária dos EUA – ou seja, decide a taxa de juros, regula a oferta de dinheiro e, em última instância, ajuda a conter a inflação. Quando o presidente tenta interferir diretamente na composição da diretoria, a questão não é só institucional; é sobre quem realmente tem o poder de moldar a economia de um país que responde por cerca de 25% do PIB mundial.
O caso começou em agosto de 2025, quando Trump anunciou a demissão de Cook. A justificativa oficial foi que a diretora teria cometido fraude ao declarar duas residências como principais, supostamente para conseguir condições de financiamento mais vantajosas. A acusação foi levada ao Departamento de Justiça, mas a própria justiça federal de Washington já havia rejeitado a alegação como insuficiente para justificar a remoção.
Mesmo assim, a Casa Branca recorreu à Suprema Corte, que agora analisa se o presidente tem autoridade para dispensar um membro da diretoria do Fed “por justa causa”. Até hoje, o termo nunca havia sido testado nos tribunais. O Federal Reserve Act, de 1913, permite a remoção apenas em situações bem definidas, mas não descreve claramente o que constitui “justa causa”.
O que está em jogo vai muito além da carreira de Cook. Se a Corte decidir a favor de Trump, abre‑se um precedente perigoso: futuros presidentes poderiam usar acusações frágeis como pretexto para substituir diretores do Fed que discordam de suas políticas econômicas. Isso enfraqueceria a independência do banco central, um dos pilares que garante credibilidade ao dólar e estabilidade aos mercados financeiros.
Especialistas alertam que a autonomia do Fed já está sob pressão. Desde o início do seu segundo mandato, Trump tem buscado pressionar a instituição a cortar juros para estimular a atividade econômica, mesmo diante de sinais de inflação ainda elevados. O presidente também tem atacado Jerome Powell, presidente do Fed, com críticas públicas e até investigações. A tentativa de demitir Cook é apenas a última peça de um quebra‑cabeça maior.
Lisa Cook, além de ser a primeira mulher negra a integrar a diretoria do Fed (indicação feita por Joe Biden), tem um currículo impressionante: doutora em economia pela UC Berkeley, ex‑professora na Universidade Estadual de Michigan, pesquisadora em Oxford e fluente em cinco idiomas, incluindo russo. Sua pesquisa foca nos impactos da discriminação e das recessões sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade americana.
Esses detalhes humanos ajudam a entender por que a sua demissão seria mais que um simples ato administrativo. Cook representa, para muitos, a diversificação e a inclusão dentro de um dos órgãos mais poderosos do mundo. Removê‑la por motivos políticos poderia ser interpretado como um retrocesso nesses avanços.
Mas vamos além da biografia. Qual seria o efeito prático de uma decisão desfavorável a Cook? Primeiro, a confiança dos investidores internacionais poderia ser abalada. O Fed, ao ser percebido como vulnerável a intervenções presidenciais, poderia ver sua capacidade de conduzir políticas de combate à inflação enfraquecida. Isso, por sua vez, poderia levar a uma alta nos prêmios de risco dos títulos do Tesouro americano, pressionando ainda mais a taxa de juros.
Em segundo lugar, a própria estrutura de governança do Fed poderia ser revisitada. O Conselho de Governadores tem sete membros, nomeados por presidentes diferentes e confirmados pelo Senado. Se a “justa causa” for redefinida de forma ampla, futuros presidentes poderiam usar esse mecanismo para remodelar o conselho inteiro, alinhando‑o com agendas políticas específicas, seja de corte de juros ou de políticas de estímulo fiscal.
É importante notar que a maioria dos economistas concorda que a independência do banco central é essencial para evitar ciclos inflacionários. Quando a política monetária se submete a pressões eleitorais de curto prazo, o risco de decisões populistas aumenta. O caso Cook‑Trump pode, portanto, servir como um alerta para outros países que ainda lutam para proteger suas instituições financeiras de interferências políticas.
O que podemos esperar da decisão da Suprema Corte? Embora a manutenção de Cook no cargo seja vista como o desfecho mais provável, não há garantias. A própria juíza que concedeu a medida provisória em setembro destacou que o caso ainda está em aberto. Caso a Corte decida pela demissão, o caminho legal para definir “justa causa” será aberto, e advogados de futuros presidentes já começam a esboçar estratégias.
Alguns analistas sugerem que, independentemente do veredicto, o caso já cumpriu seu papel de colocar o debate sobre a autonomia do Fed em destaque. O simples fato de estar nas manchetes internacionais faz com que legisladores, investidores e o público em geral reflitam sobre a importância de manter barreiras claras entre o Executivo e o Banco Central.
Para quem acompanha a economia doméstica, a lição pode ser mais prática: quando o governo tenta manipular a taxa de juros para atender a objetivos políticos, o preço costuma ser pago pelos consumidores, seja através de inflação mais alta ou de crédito mais caro. A independência do Fed funciona como um escudo que protege o cidadão comum desses efeitos colaterais.
Além do aspecto institucional, há também uma dimensão pessoal. Cook, que tem mandato até 2038, tem defendido uma postura cautelosa nas decisões de taxa de juros, apontando que a inflação ainda não está sob controle. Se sua voz for silenciada, a balança de poder dentro do Fed pode inclinar-se para políticas mais expansionistas, o que poderia gerar um ciclo inflacionário difícil de reverter.
Outro ponto a considerar é o futuro de Jerome Powell. Seu mandato termina em maio de 2025, e ele já tem sido alvo de críticas intensas por parte de Trump. Se a Corte aceitar a demissão de Cook, o presidente pode ainda ter a chance de influenciar a escolha do próximo presidente do Fed, consolidando ainda mais sua agenda econômica.
Em termos de perspectiva global, o caso pode servir de referência para outras economias que também lutam para proteger seus bancos centrais. Países como a Europa, o Reino Unido e o Japão observam atentamente como os EUA lidam com a interferência política. Uma decisão que enfraqueça a independência do Fed pode inspirar movimentos semelhantes em outras regiões, comprometendo a estabilidade macroeconômica global.
Por fim, vale refletir sobre o papel da sociedade civil. Um grupo de 18 ex‑diretores do Fed, ex‑secretários do Tesouro e outros altos funcionários já enviaram um apelo à Corte para rejeitar a petição de Trump. Essa mobilização demonstra que, mesmo em um sistema tão complexo, a pressão de especialistas e cidadãos pode influenciar decisões judiciais.
O que tudo isso significa para nós, que acompanhamos as notícias à distância? Primeiro, reforça a importância de instituições fortes e independentes. Segundo, nos lembra que a política econômica não acontece em um vácuo – ela afeta diretamente o custo do crédito, o preço dos alimentos e a taxa de desemprego. E terceiro, nos convida a prestar atenção nas decisões judiciais que, embora pareçam distantes, moldam o futuro da nossa própria economia.
Enquanto aguardamos o veredicto da Suprema Corte, vale ficar de olho nas reações dos mercados financeiros, nas declarações de economistas e nos próximos passos de Trump. Seja qual for o resultado, a discussão sobre a autonomia do Fed já ganhou um novo capítulo, e nós, como leitores e cidadãos, temos a oportunidade de entender melhor como funciona o grande mecanismo que controla a moeda mais usada no mundo.



