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Superávit recorde em janeiro: o que o salto de 86% significa para o seu bolso

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Superávit recorde em janeiro: o que o salto de 86% significa para o seu bolso

Em janeiro de 2026 a balança comercial brasileira registrou um super‑vício que poucos esperavam: US$ 4,32 bilhões de saldo positivo, um salto de 85,8% em relação ao mesmo mês do ano passado. No papel, os números parecem um alívio para a conta‑gastos do país, mas o que isso realmente traz para a gente, cidadão e empresária, no dia a dia?

A primeira coisa a entender é como funciona a balança comercial. Quando o valor das exportações supera o das importações, temos superávit; quando o contrário acontece, é déficit. Em janeiro, as exportações totalizaram US$ 25,15 bilhões, um aumento diário de 3,8%, enquanto as importações caíram 5,5%, ficando em US$ 20,1 bilhões. Essa diferença gerou o saldo positivo que citamos.



Mas não se engane: o resultado positivo não veio de um único setor, e nem de um cenário estável. O panorama das exportações mostra contrastes marcantes. O petróleo bruto, que ainda representa US$ 4,3 bilhões, recuou 7,8%; o minério de ferro, tradicional estrela da pauta de comércio, caiu 8,6%. Por outro lado, a carne bovina despontou com alta de 42,5%, chegando a US$ 1,3 bilhão, enquanto o café não torrado sofreu queda de quase 24%.

Essas variações nos lembram que a economia brasileira é muito diversificada e vulnerável a choques externos. Um dos maiores desafios recentes foi o “tarifaço” dos Estados Unidos, implementado durante a administração Trump. Em janeiro, as exportações para os EUA despencaram 25,5%, de US$ 3,22 bilhões para US$ 2,4 bilhões. As importações americanas também recuaram, mas em ritmo menor, caindo 10,9%.



Mesmo com esse golpe, o Brasil conseguiu compensar a perda ao ampliar a presença em outros mercados. A China, por exemplo, registrou crescimento de 17,4% nas compras brasileiras, chegando a US$ 6,47 bilhões. O México aumentou 24,4%, e o Oriente Médio subiu 31,6%. Já a União Europeia e o Mercosul apresentaram retrações, mas o ganho nos novos destinos foi suficiente para manter o superávit.

Para quem acompanha a conta‑corrente familiar, o que isso significa? Primeiro, um superávit forte costuma refletir em uma moeda mais estável. Quando o país vende mais do que compra, há mais entrada de dólares, o que pode aliviar a pressão sobre o real e, indiretamente, reduzir a inflação de produtos importados. Ainda assim, a realidade é mais complexa: a alta nos preços de alimentos e combustíveis pode continuar, porque o superávit não garante que tudo fique mais barato.

Além disso, o desempenho das exportações de carne bovina pode ser uma boa notícia para quem trabalha na agroindústria ou tem negócios ligados à pecuária. O aumento de 42,5% indica que o mercado internacional está disposto a pagar mais pela nossa carne, o que pode gerar mais empregos nas regiões produtoras, como Mato Grosso e Paraná. Por outro lado, a queda no minério de ferro pode sinalizar desaceleração da demanda chinesa, o que afeta estados mineradores como Minas Gerais.



Um ponto que merece destaque é a situação da Amazônia. Em agosto de 2025, a região movimentou US$ 1,41 bilhão na Corrente de Comércio, com exportações de apenas US$ 86,3 milhões e importações de US$ 1,32 bilhão, gerando um déficit considerável. Embora o número de janeiro não seja divulgado especificamente para a Amazônia, o fato de que o estado aparece nas estatísticas de comércio indica que a região ainda depende muito de insumos externos. Para os moradores, isso se traduz em menos oportunidades de produção local e maior vulnerabilidade a políticas tarifárias.

Como o governo pode transformar esse superávit em benefício concreto? Uma estratégia seria reinvestir parte dos ganhos em infraestrutura logística – portos, ferrovias e estradas – para reduzir custos de exportação. Também seria inteligente diversificar ainda mais os produtos exportados, diminuindo a dependência de commodities voláteis como minério de ferro e petróleo.

Para o pequeno investidor, o cenário abre algumas possibilidades. Empresas exportadoras de carne, soja, açúcar ou produtos de tecnologia podem ver suas ações valorizarem, já que a demanda externa está em alta. Por outro lado, setores que competem diretamente com produtos importados – como eletrodomésticos ou veículos – podem sentir pressão se a moeda se fortalecer.

Em termos de política externa, a negociação entre Lula e Trump tem sido um ponto de atenção. Embora o tarifaço tenha sido suavizado em parte, ainda há itens tarifados, como aço e alumínio, que afetam indústrias brasileiras. O futuro depende de como esses acordos evoluirão nos próximos meses.

No fim das contas, o superávit de janeiro nos mostra que a economia brasileira tem capacidade de se adaptar, mesmo diante de barreiras comerciais. Para nós, consumidores, isso pode significar preços mais estáveis e, talvez, mais oportunidades de trabalho em setores que ganham com a exportação. Mas é preciso ficar de olho nas oscilações dos preços das commodities e nas decisões de política econômica que podem mudar rapidamente o cenário.

Se você tem um negócio que depende de importação, vale a pena rever contratos e buscar alternativas de fornecedores, já que a queda nas importações dos EUA pode abrir espaço para novos parceiros. E se você pensa em investir, acompanhe de perto os indicadores de comércio exterior – eles são um termômetro importante da saúde da nossa economia.

Em resumo, o salto de 86% no superávit é um sinal positivo, mas não um bilhete dourado. Ele nos lembra que a balança comercial é um jogo de soma zero, onde ganhos em um lado podem ser compensados por perdas em outro. O importante é transformar esse ganho em políticas que beneficiem a população e criem um ambiente de crescimento sustentável.