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Superávit Fiscal na Argentina em 2025: O que a política de Milei significa para nós

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Superávit Fiscal na Argentina em 2025: O que a política de Milei significa para nós

Quando li que a Argentina terminou 2025 com superávit fiscal pelo segundo ano consecutivo, confesso que a primeira reação foi de surpresa. Não é todo dia que vemos um país da América Latina, que historicamente luta contra déficits crônicos, alcançar números positivos nas contas públicas. Mas, como tudo que parece bom à primeira vista, há camadas de detalhes que merecem ser destrinchadas.



O que exatamente significa “superávit fiscal”?

Antes de mergulharmos nas decisões de Javier Milei, vale a pena entender a diferença entre os termos que aparecem nos relatórios econômicos: superávit primário e superávit fiscal. O superávit primário exclui os juros da dívida pública – ele mostra apenas a diferença entre receitas (impostos, exportações, etc.) e despesas correntes (salários, compras de bens, etc.). Já o superávit fiscal inclui os juros, oferecendo uma visão mais completa do saldo final das contas do governo.

Em 2025, a Argentina registrou:

  • Superávit primário: 1,4% do PIB
  • Superávit fiscal: 0,2% do PIB

Esses números podem parecer pequenos, mas são historicamente relevantes: o país não tinha conseguido dois anos seguidos de superávit desde 2008.



Como chegamos lá? A política de “déficit zero” de Milei

Javier Milei, presidente ultraliberal, tem sido um personagem polêmico desde que assumiu o cargo. Seu discurso gira em torno da chamada “âncora fiscal” ou “déficit zero” – uma estratégia que visa equilibrar as contas públicas ao cortar gastos e reduzir subsídios. Na prática, isso significou:

  • Congelamento de orçamentos em áreas como educação, saúde, pesquisa e obras públicas
  • Redução de subsídios a setores que antes eram fortemente apoiados pelo Estado
  • Promoção de uma agenda de liberalização econômica, incluindo a flexibilização cambial

Essas medidas geraram um ajuste fiscal forte, permitindo que a arrecadação superasse as despesas, mesmo considerando os juros da dívida.

Impacto social: a cara da pobreza e da inflação

Os números fiscais são animadores, mas a realidade nas ruas conta outra história. No primeiro semestre de 2024, 52,9% da população argentina vivia em situação de pobreza. Já em 2025, esse percentual caiu para 31% – uma melhora significativa, mas ainda longe do ideal.

A inflação, outro vilão crônico da economia argentina, também apresentou melhora: 31,5% em 2025, muito abaixo dos 117,8% de 2024, e o menor índice desde 2017. Apesar da queda, a taxa ainda está acima de 30%, o que significa que o poder de compra dos argentinos continua sendo corroído.



O acordo com o FMI: confiança ou armadilha?

Em abril de 2025, o governo Milei firmou um acordo de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A primeira parcela, de US$ 12 bilhões, já foi liberada. Esse aporte é visto como um voto de confiança nas políticas adotadas, mas também traz condicionantes rígidos, como metas de inflação e ajustes fiscais.

Para o FMI, o objetivo principal é conter a hiperinflação e estabilizar a moeda. Milei, por sua vez, quer usar os recursos para reduzir a dívida externa e avançar com a liberalização dos controles de capital, que, segundo ele, atrapalham investimentos.

Flexibilização cambial: o fim do “cepo”

Um dos movimentos mais ousados foi a retirada dos rígidos controles cambiais que limitavam a compra de dólares. Ao adotar um regime de “câmbio flutuante”, o peso argentino passou a ter seu valor determinado pelo mercado. A ideia é atrair investidores estrangeiros, que agora podem comprar moeda local sem barreiras.

Entretanto, a volatilidade cambial também pode trazer riscos: se a confiança dos investidores vacilar, o peso pode desvalorizar rapidamente, alimentando nova pressão inflacionária.

O que isso tudo tem a ver comigo?

Mesmo que você não tenha planos de abrir um negócio na Argentina ou de investir em peso argentino, entender esse cenário traz lições valiosas para o Brasil e para qualquer pessoa que acompanha a economia global:

  • Políticas de austeridade têm consequências sociais. Cortes de gastos podem melhorar números fiscais, mas podem agravar a pobreza se não houver uma rede de proteção.
  • Estabilidade macroeconômica depende de confiança. O acordo com o FMI mostra que credores internacionais estão dispostos a financiar países que adotam políticas de ajuste, mas exigem disciplina.
  • Inflação alta corrói o poder de compra. Mesmo com superávit, se a inflação permanece acima de 30%, a população sente o aperto no bolso.
  • Liberação cambial pode ser um tiro de duas caras. Atrai investimentos, mas pode gerar volatilidade.

Próximos passos: o que esperar de 2026?

O próximo ano será decisivo para Milei. Se conseguir manter a inflação abaixo de 2% ao mês, como ele promete, o país pode ganhar ainda mais credibilidade internacional. Por outro lado, se a pressão inflacionária voltar a subir, o governo pode enfrentar protestos sociais e pressão política.

Além disso, o FMI costuma revisar suas metas anualmente. Caso a Argentina não cumpra os parâmetros acordados, pode haver restrições de crédito ou exigência de novos ajustes.

Para nós, leitores brasileiros, o caso argentino serve como um laboratório de políticas econômicas extremas. Enquanto o Brasil tem seguido um caminho mais gradual, com foco em controle de gastos e reformas estruturais, a Argentina mostra o que acontece quando se acelera o processo. É um alerta de que não existe fórmula mágica; cada medida tem trade‑offs que precisam ser equilibrados.

Conclusão: números positivos, desafios ainda maiores

O superávit fiscal da Argentina em 2025 é, sem dúvida, um marco histórico. Mas ele não resolve todos os problemas. A pobreza ainda afeta quase um terço da população, e a inflação continua alta. O sucesso de Milei dependerá da capacidade de transformar esses números positivos em melhorias concretas no cotidiano das pessoas.

Se você está pensando em investir na região, acompanhar de perto as políticas cambiais e os acordos com o FMI será crucial. Se o seu interesse é entender como políticas de austeridade podem impactar a sociedade, o caso argentino oferece um estudo de caso real e atual.

Em resumo, a mensagem que levo dessa notícia é: números macroeconômicos são importantes, mas não contam a história completa. O verdadeiro teste de qualquer política está no bem‑estar das pessoas.