Na última semana, o clima nas relações internacionais ficou ainda mais tenso. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor sanções a países que mantiverem negócios com o Irã. A notícia pegou a imprensa e, claro, a gente aqui no Brasil também ficou de olho. Mas será que isso vai mexer no nosso dia a dia, no preço da comida na mesa ou no emprego dos nossos amigos?
Para entender melhor, conversei com o vice‑presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, durante a transmissão do programa “Bom Dia Ministro”. Ele explicou que, apesar da preocupação dos EUA, a relação comercial do Brasil com o Irã é bem pequena. E, na prática, isso pode significar que o impacto aqui será mínimo.
Qual o tamanho da nossa relação comercial com o Irã?
Os números ajudam a colocar tudo em perspectiva. Em 2025, o Irã ficou em 11º lugar entre os destinos das exportações agropecuárias brasileiras, representando apenas 1,73% do total – cerca de US$ 2,9 bilhões. Isso inclui soja, carne, açúcar e outros produtos que chegam ao mercado iraniano.
Do outro lado, nas importações, o Irã aparece como o 42º fornecedor de produtos agro, mas tem destaque como grande exportador de ureia, um fertilizante essencial para a agricultura. Mesmo assim, a fatia dele no nosso comércio externo ainda é diminuta quando comparada a parceiros como China, Estados Unidos e União Europeia.
O que são essas sanções americanas?
Em termos simples, os EUA pretendem cobrar uma sobretaxa de 25% sobre produtos de países que continuarem a negociar com o Irã. A ideia é pressionar o regime iraniano a mudar de postura em relação ao seu programa nuclear e aos protestos internos. Mas aplicar essa taxa não é tão fácil assim.
- Primeiro, a medida precisaria ser formalizada por uma ordem executiva, o que ainda não aconteceu.
- Segundo, a aplicação prática exigiria identificar quais produtos e quais países seriam alvo da taxa – algo complexo, já que mais de 70 nações mantêm algum tipo de comércio com o Irã.
- Por fim, há o risco de retaliações e de uma “guerra de tarifas” que pode acabar envolvendo grandes blocos econômicos, como a União Europeia.
Alckmin destacou que o Brasil não tem litígio aberto com ninguém e que, se a supertarifação for implementada, o impacto será sentido mais fortemente por países que têm relações comerciais muito mais intensas com o Irã, como a Europa.
Por que o Brasil se preocupa mesmo assim?
Mesmo que nossa balança comercial com o Irã seja pequena, o governo brasileiro não pode simplesmente fechar os olhos. A política externa tem que estar alinhada com as decisões dos parceiros estratégicos, sobretudo os EUA, que são um dos maiores investidores no país.
Além disso, o Brasil está prestes a assinar um acordo histórico entre o Mercosul e a União Europeia. Essa negociação inclui cláusulas que buscam evitar a tributação excessiva em casos como o do Irã, garantindo que o comércio global continue fluindo sem barreiras desnecessárias.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, está acompanhando o assunto de perto no Itamaraty, avaliando como proteger os interesses brasileiros sem se colocar em rota de colisão com Washington.
O que isso pode mudar no nosso cotidiano?
Para a maioria dos brasileiros, a resposta curta é: nada de imediato. Como a exportação de soja ou carne para o Irã representa menos de 2% do total, não devemos esperar aumentos de preço nos supermercados ou mudanças nos contratos de trabalho ligados ao agronegócio.
No entanto, vale ficar atento a alguns pontos:
- Setor de fertilizantes: se a ureia iraniana for afetada por tarifas, pode haver uma pressão de preço nos fertilizantes importados, o que, indiretamente, encarece a produção agrícola.
- Exportadores de nicho: empresas menores que dependem de contratos específicos com o Irã podem precisar buscar novos mercados ou renegociar condições.
- Política externa: decisões de sanções podem influenciar a forma como o Brasil se posiciona em fóruns internacionais, afetando acordos futuros.
Um olhar para o futuro
Se as sanções forem efetivamente aplicadas, o cenário mais provável é uma “cascata” de medidas comerciais. Países que dependem muito do Irã – como a China, Rússia e alguns membros da UE – podem sofrer mais, e isso pode gerar novos blocos de comércio tentando contornar as restrições americanas.
Para o Brasil, a estratégia parece ser de cautela e diversificação. Continuar ampliando acordos como o Mercosul‑UE, buscar novos parceiros na Ásia e fortalecer a produção interna são caminhos que reduzem a vulnerabilidade a choques externos.
Em resumo, embora a ameaça de sanções dos EUA ao Irã seja um tema que faz barulho nos noticiários, seu efeito direto sobre o bolso do brasileiro ainda é limitado. O que vale a pena acompanhar são as decisões do Itamaraty e as negociações do Mercosul, que podem garantir que o Brasil continue navegando em águas mais tranquilas, mesmo quando tempestades geopolíticas surgirem.



