Na quinta‑feira (1º) o salário mínimo nacional passou a valer R$ 1.621. Parece só mais um número nos noticiários, mas, na prática, esse ajuste afeta milhões de brasileiros – de quem recebe o piso na carteira até quem depende de benefícios como o BPC ou o seguro‑desemprego. Eu mesmo já vi de perto como essas mudanças repercutem no dia a dia das famílias, então resolvi colocar tudo em ordem para quem ainda tem dúvidas.
Como chegou a esse valor?
O cálculo do salário mínimo não é aleatório. Ele segue duas regras principais:
- Inflação medida pelo INPC nos últimos 12 meses (até novembro). Em 2023 essa taxa foi de 4,18%.
- Ganhos reais limitados pelo teto de gastos do arcabouço fiscal – neste caso, 2,5%.
Somando 4,18% + 2,5% chega a 6,68%, que arredondado dá o aumento de 6,79% sobre o piso anterior de R$ 1.518. O resultado? R$ 1.621.
Por que não foi R$ 1.636, como alguns esperavam?
Durante a campanha, o governo Lula prometeu que o salário mínimo subiria acima da inflação, usando também o crescimento do PIB como gatilho. A ideia era aplicar a inflação de 4,18% mais o crescimento real do PIB de 2024 (3,4%). Isso teria gerado um piso de R$ 1.636.
Mas, em dezembro de 2023, o Congresso aprovou uma lei que limitou o ganho real a 2,5%, para manter o controle das contas públicas. Assim, o número final ficou menor que o esperado, mas ainda acima da única correção inflacionária que tínhamos nos últimos governos.
Quem sente o impacto?
Não são só os trabalhadores que recebem o salário mínimo. A base de referência inclui:
- Benefícios previdenciários como o BPC (Benefício de Prestação Continuada).
- Seguro‑desemprego.
- Abono salarial.
- Contratos que pagam múltiplos do mínimo (por exemplo, 2 × R$ 1.621).
Segundo o Dieese, cerca de 59,9 milhões de brasileiros dependem direta ou indiretamente desse valor. Isso representa quase 30% da população em idade ativa.
O que muda no seu bolso?
Para quem ganha o piso, o aumento de R$ 103 pode parecer pouco, mas o efeito multiplicador é grande:
- Mais dinheiro para comprar alimentos, pagar transporte e cobrir despesas básicas.
- Elevação do salário médio nacional, já que o piso serve de referência para negociações salariais em diversos setores.
- Possível aumento do consumo em comércios locais, impulsionando a economia regional.
Mas há um lado menos visível: o aumento das despesas obrigatórias do governo. Cada real a mais no piso gera, em média, R$ 420 milhões de gastos adicionais em 2026. No total, o ajuste de R$ 103 gera cerca de R$ 43,2 bilhões a mais nas contas públicas.
Impacto nas contas públicas e nas políticas públicas
Esses R$ 43,2 bilhões não vêm de graça. Eles são retirados do orçamento que poderia ser usado em áreas como saúde, educação e infraestrutura – o que chamamos de gastos discricionários. Em tempos de restrição fiscal, cada aumento no piso significa menos espaço para novos projetos ou investimentos.
Alguns economistas defendem que benefícios como o BPC deveriam ser corrigidos apenas pela inflação, e não vinculados ao salário mínimo, para evitar esse efeito cascata nas contas públicas. Outros argumentam que a vinculação garante um piso de renda digno, especialmente para os mais vulneráveis.
Como o salário mínimo se compara ao que seria necessário?
A Constituição estabelece que o salário mínimo deve atender a necessidades vitais básicas – moradia, alimentação, saúde, educação, lazer, etc. O Dieese fez um cálculo de que, para garantir esse padrão de vida a uma família de quatro pessoas, seria preciso um piso de R$ 7.067,18 em novembro de 2023 – ou seja, quase quatro vezes o valor atual.
Essa disparidade mostra que, embora o aumento seja positivo, ainda há um longo caminho para que o salário mínimo cumpra integralmente seu objetivo constitucional. Enquanto isso, a política de valorização do piso busca, ao menos, reduzir a perda de poder de compra ao longo dos anos.
O que fazer com o novo salário?
Se você recebeu o reajuste, vale a pena rever seu orçamento. Algumas dicas práticas:
- Reavalie gastos fixos: aluguel, contas de energia e água podem ser renegociados ou otimizados.
- Monte uma reserva de emergência: o aumento pode liberar um pequeno espaço para poupar, mesmo que seja R$ 20‑30 por mês.
- Invista em capacitação: use parte do extra para cursos que aumentem sua empregabilidade e, quem sabe, levem a um salário acima do mínimo.
Lembre‑se de que o poder de compra ainda depende da inflação. Se os preços subirem mais rápido que o aumento, o ganho real pode desaparecer rapidamente.
O que esperar para 2027?
O próximo reajuste será calculado com base na inflação até novembro de 2025 e no limite de ganho real de 2,5%. Se a inflação permanecer em torno de 4% e o PIB crescer, podemos esperar um piso próximo de R$ 1.700. Mas tudo depende das decisões do Congresso e da disciplina fiscal.
O importante é acompanhar as discussões – elas afetam diretamente o valor que você recebe e o quanto o governo pode gastar em outras áreas.
Conclusão
O salário mínimo de R$ 1.621 representa um avanço em relação ao piso anterior, mas ainda está longe de garantir uma vida digna para todas as famílias brasileiras. Ele traz benefícios imediatos para quem recebe o valor, mas também aumenta as despesas obrigatórias do Estado, criando um dilema entre proteção social e sustentabilidade fiscal.
Para nós, trabalhadores e cidadãos, a melhor estratégia é usar o aumento como oportunidade para melhorar a gestão financeira pessoal, enquanto acompanhamos de perto as decisões políticas que moldarão o futuro do nosso país.



