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Salário Mínimo de R$ 1.621 em 2026: O que isso muda no seu dia a dia?

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Salário Mínimo de R$ 1.621 em 2026: O que isso muda no seu dia a dia?

Um aumento que gera conversa

Na última quarta‑feira (24) o Diário Oficial publicou o Decreto nº 12.797, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oficializando o novo piso salarial: a partir de 1º de janeiro de 2026 o salário mínimo será de R$ 1.621. Para quem recebe o valor integral, ou benefícios atrelados a ele – como seguro‑desemprego e BPC – a mudança já aparece no contracheque de fevereiro.

Mas como funciona o salário mínimo?

O conceito é simples: é a menor remuneração que a lei garante a um trabalhador formal. A Constituição determina que esse valor deve ser capaz de cobrir necessidades básicas – moradia, alimentação, saúde, educação, transporte, lazer e previdência. Além disso, o piso tem que ser reajustado periodicamente para preservar o poder de compra.

Por que o valor ainda está longe do que seria “necessário”?

Segundo o Dieese, para manter uma família de quatro pessoas em novembro de 2023 seria preciso ganhar cerca de R$ 7.067, ou 4,66 salários mínimos. Ou seja, o piso atual cobre apenas 21% do que seria ideal para garantir o padrão de vida básico. Essa disparidade é um dos pontos mais debatidos nas discussões sobre política salarial no Brasil.

Como chegou a cifra de R$ 1.621?

Se a regra constitucional fosse seguida à risca – corrigir apenas pela inflação – o salário subiria de R$ 1.518 para aproximadamente R$ 1.582 (inflação acumulada de 4,18% até novembro). O governo Lula, porém, prometeu retomar a “política de valorização do salário mínimo”, que inclui um ganho real acima da inflação.

Em 2023 o Congresso aprovou uma medida provisória que passou a considerar dois fatores para o reajuste: a inflação (INPC) e o crescimento real do PIB dos dois anos anteriores. No cálculo original, a combinação de 4,18% de inflação + 3,4% de crescimento do PIB levaria o piso a R$ 1.636. Mas, em dezembro, foi estabelecido um teto de 2,5% para a parte real do aumento, para respeitar o limite de gastos do arcabouço fiscal. Assim, 4,18% + 2,5% = 6,68% de aumento, resultando nos R$ 1.621.

Quem sente o impacto direto?

  • Trabalhadores que recebem um salário mínimo ou múltiplos dele.
  • Beneficiários do seguro‑desemprego.
  • Recipientes do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
  • Aposentados que têm o benefício atrelado ao piso.

Ao todo, cerca de 59,9 milhões de brasileiros são afetados direta ou indiretamente por esse número, de acordo com o Dieese.

O peso nas contas públicas

Um aumento de R$ 103 no piso gera, segundo cálculos do governo, uma despesa adicional de aproximadamente R$ 420 milhões por cada real de aumento. Multiplicando pelos R$ 103, o custo total para 2026 chega a R$ 43,2 bilhões em gastos obrigatórios – tudo isso porque benefícios como abono salarial, seguro‑desemprego e BPC também precisam ser ajustados.

Esse gasto eleva a pressão sobre o chamado “gasto discricionário”, ou seja, o dinheiro que o governo poderia usar em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Alguns economistas defendem que a vinculação de benefícios previdenciários ao salário mínimo seja revista, propondo correções apenas pela inflação para conter a expansão da dívida pública.

Qual o efeito na economia real?

O aumento do piso tem efeitos indiretos que vão além dos salários. Ele eleva o “salário médio” nacional, aumenta o consumo das famílias e pode gerar um efeito de estímulo ao comércio. Por outro lado, custos mais altos para empregadores podem pressionar a contratação formal ou incentivar a adoção de tecnologia para reduzir a mão‑de‑obra.

Historicamente, nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, o salário mínimo foi reajustado apenas pela inflação, sem ganho real. O retorno ao ganho real, ainda que limitado a 2,5%, sinaliza uma mudança de postura: o governo quer garantir que o trabalhador não perca poder de compra, mesmo que isso pese nas contas do Estado.

O que isso significa para você?

Se você recebe o salário mínimo, o aumento de R$ 103 pode representar uma diferença importante no orçamento familiar – mais recursos para alimentação, transporte ou até um pequeno extra para lazer. Para quem recebe benefícios vinculados, o efeito é semelhante.

Mas é preciso lembrar que o aumento pode ser absorvido de forma diferente por cada região. Em lugares onde o custo de vida é mais alto, o ganho pode ser menos perceptível. Já em regiões com menor custo, o impacto pode ser mais significativo.

O que esperar nos próximos anos?

O debate sobre a política salarial ainda está longe de acabar. A proposta de limitar o ganho real a 2,5% está vinculada ao teto de gastos, mas a pressão social por salários que acompanhem o crescimento econômico pode levar a novas negociações.

Além disso, a inflação tem se mostrado volátil nos últimos tempos. Caso os índices subam acima da projeção atual, pode haver pressão para ajustar novamente a fórmula de cálculo, ou até para rever a própria vinculação de benefícios ao piso.

Conclusão

O novo salário mínimo de R$ 1.621, válido a partir de 2026, traz um aumento real limitado, mas ainda assim significativo para quase 60 milhões de brasileiros. Ele reflete a tentativa do governo de equilibrar a preservação do poder de compra dos trabalhadores com a necessidade de manter a disciplina fiscal.

Para quem vive de salário mínimo ou de benefícios atrelados a ele, a notícia traz um alívio imediato. Para a economia, o efeito será misto: maior consumo, mas também maior pressão sobre as contas públicas. O importante é acompanhar como essa política evolui e como ela se traduz no seu bolso nos próximos meses.