Na última quarta‑feira (24), o Diário Oficial publicou o Decreto nº 12.797, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oficializando o novo piso salarial que entrará em vigor em 1º de janeiro de 2026. O valor sobe de R$ 1.518 para R$ 1.621, um acréscimo de R$ 103. Parece simples, mas esse número tem várias camadas que afetam desde quem recebe o salário mínimo até a conta pública do país.
Entendendo o salário mínimo
Primeiro, vale lembrar o que a Constituição diz sobre o assunto: o salário mínimo deve ser suficiente para cobrir as necessidades básicas de um trabalhador e sua família – moradia, alimentação, saúde, educação, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência. Em teoria, ele é um piso que protege o poder de compra da população mais vulnerável.
Na prática, porém, o valor real necessário para atender a essas necessidades é muito maior. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) estima que, em novembro de 2023, uma família de quatro pessoas precisaria de cerca de R$ 7.067,18 por mês – o que corresponde a 4,66 vezes o salário mínimo vigente.
Como o reajuste foi calculado?
Se a regra constitucional fosse seguida à risca, o reajuste seria apenas a inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Até novembro, a inflação acumulada foi de 4,18 %. Aplicando esse número ao piso de R$ 1.518, teríamos um salário mínimo próximo a R$ 1.582.
O governo Lula, porém, prometeu retomar a “política de valorização do salário mínimo”, que inclui um ganho real acima da inflação. A fórmula aprovada em 2023 combina dois fatores:
- Inflação (INPC) dos últimos 12 meses – 4,18 %;
- Crescimento real do PIB dos dois anos anteriores, limitado a 2,5 % (teto do arcabouço fiscal).
Somando 4,18 % + 2,5 % = 6,68 % de aumento, o cálculo chega a R$ 1.621, exatamente o que está no decreto.
Quem vai sentir a diferença?
O salário mínimo não afeta só quem tem contrato de trabalho formal. Ele serve de referência para quase 60 milhões de brasileiros, segundo o Dieese. Entre eles:
- Trabalhadores que recebem o piso ou múltiplos dele;
- Aposentados que recebem benefícios vinculados ao mínimo (BPC, seguro‑desemprego, abono salarial etc.);
- Empresas que utilizam o valor como base para cálculos de benefícios e encargos.
Para esses grupos, o aumento será creditado já no início de fevereiro de 2026, o que pode representar um alívio nas contas mensais.
Impacto nas finanças públicas
Um aumento no piso traz um custo direto ao governo. Cada real a mais no salário mínimo gera, aproximadamente, R$ 420 milhões em despesas adicionais em 2026. Multiplicando pelos R$ 103 de aumento, chegamos a um impacto de cerca de R$ 43,2 bilhões nas contas obrigatórias.
Esses recursos são retirados do chamado gasto discricionário – aquele que o governo pode usar em projetos de infraestrutura, saúde, educação etc. Em outras palavras, ao garantir mais renda para quem recebe o mínimo, o Estado tem menos margem para investir em outras áreas, a menos que encontre compensações em outras fontes de receita ou corte de gastos.
Prós e contras do aumento real
Prós:
- Melhoria do poder de compra: Mesmo que o aumento não alcance o nível ideal apontado pelo Dieese, ele ainda eleva a capacidade de consumo de milhões de famílias.
- Estímulo ao consumo interno: Mais dinheiro nas mãos de quem tem maior propensão a gastar gera demanda por produtos e serviços, o que pode impulsionar a economia.
- Valorização do trabalhador: A medida reforça a mensagem de que o governo se preocupa com a classe trabalhadora, o que pode melhorar a confiança social.
Contras:
- Pressão sobre a dívida pública: O aumento das despesas obrigatórias pode ampliar o déficit, exigindo mais endividamento ou ajuste fiscal.
- Risco de inflação de custos: Empresas que precisam pagar salários mais altos podem repassar esses custos para os preços finais, alimentando a inflação.
- Desvio de recursos de políticas públicas: Como mencionado, menos dinheiro pode ficar disponível para investimentos em saúde, educação e infraestrutura.
O que fazer para se preparar?
Se você recebe o salário mínimo, ou tem familiares que recebem, vale a pena planejar como usar o aumento. Algumas dicas práticas:
- Reavalie o orçamento: Anote receitas e despesas fixas. O acréscimo de R$ 103 pode ser destinado a quitar dívidas, criar uma reserva de emergência ou melhorar a qualidade de vida.
- Invista em capacitação: Se o objetivo for crescer profissionalmente, use parte do dinheiro extra para cursos ou certificações que aumentem sua empregabilidade.
- Considere a inflação: Lembre‑se de que o aumento não cobre toda a inflação esperada para 2026. Planeje compras maiores com antecedência para evitar surpresas.
Visão de futuro
O debate sobre desvincular benefícios previdenciários do salário mínimo tem ganhado força entre economistas que temem o crescimento descontrolado da dívida. Se essa proposta avançar, poderemos ver um cenário onde o piso continua a subir, mas os benefícios como BPC e seguro‑desemprego sejam corrigidos apenas pela inflação, reduzindo o impacto fiscal.
Por outro lado, a continuidade da política de valorização do salário mínimo pode se tornar um ponto de estabilidade política. Ele funciona como um termômetro social: quando o governo demonstra que está disposto a melhorar a renda mínima, ganha apoio de uma parcela significativa da população.
Conclusão
O reajuste para R$ 1.621 em 2026 é mais que um número; é um reflexo de escolhas políticas, econômicas e sociais. Ele traz alívio para quase 60 milhões de brasileiros, mas também coloca pressão sobre as contas públicas. Como cidadão, a melhor estratégia é entender o que está por trás da decisão, ajustar seu planejamento financeiro e ficar atento às discussões que podem moldar o futuro do salário mínimo no Brasil.
E você, já pensou como vai usar os R$ 103 a mais? Compartilhe nos comentários suas ideias e estratégias – a troca de experiências pode ajudar a todos a tirar o melhor proveito dessa mudança.



