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Saks Global pede falência: o que isso significa para o futuro das lojas de luxo nos EUA

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Saks Global pede falência: o que isso significa para o futuro das lojas de luxo nos EUA

Na última terça‑feira (13), a Saks Global, conglomerado que reúne Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus, entrou com um pedido de falência nos Estados Unidos. Não é só mais um número nos jornais; é um sinal de que o modelo de lojas físicas de alto padrão está passando por uma crise profunda que pode mudar a forma como consumimos luxo.



Para quem acompanha o varejo, o caso parece um ponto de inflexão. A Saks Global acabou de fechar um financiamento de US$ 1,75 bilhão e nomeou um novo CEO – Geoffroy van Raemdonck, ex‑CEO da Neiman Marcus – mas, ao mesmo tempo, pediu proteção à justiça para ganhar tempo e reorganizar suas dívidas, que variam entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões. Em outras palavras, a empresa está tentando se salvar, mas ainda tem um longo caminho pela frente.



Mas o que isso tem a ver com a gente, que não mora em Nova York e nem costuma comprar um casaco da Chanel? Primeiro, porque a situação da Saks reflete tendências que afetam todas as lojas de luxo, inclusive as que temos aqui no Brasil. Segundo, porque a forma como as marcas de alto padrão vão se adaptar pode influenciar o preço e a disponibilidade de produtos que, eventualmente, chegam ao nosso mercado.



Um breve histórico da Saks

A primeira Saks Fifth Avenue abriu as portas em 1867, fundada por Andrew Saks, um visionário do varejo americano. Ao longo de mais de 150 anos, a marca se tornou sinônimo de glamour, com vitrines que exibiam Chanel, Burberry, Cucinelli e, claro, os famosos shows de luzes de Natal na Times Square.

Em 2024, a Saks Global foi criada ao reunir três gigantes do luxo – Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus – após a compra da Neiman Marcus e a separação da canadense Hudson’s Bay Company, que controlava a Saks desde 2013. A ideia era simples: ganhar escala, reduzir custos e competir melhor contra o crescimento das vendas online.

Por que a estratégia de escala falhou?

A união das três redes parecia lógica, mas trouxe um problema clássico: o endividamento. A compra da Neiman Marcus foi financiada quase que totalmente por dívida, e quando a pandemia chegou, o fluxo de clientes ricos despencou. As lojas físicas, que dependem de visitas presenciais, viram suas receitas caírem enquanto as despesas fixas – aluguel de lojas premium, salários de vendedores especializados e estoque de marcas de alto valor – permaneceram altas.

Além disso, o comportamento do consumidor de luxo mudou. Cada vez mais, marcas como Louis Vuitton, Gucci e até Chanel abriram seus próprios e‑commerces, vendendo direto ao cliente e diminuindo a dependência de revendedores como a Saks. O e‑commerce oferece conveniência, entrega rápida e, muitas vezes, preços mais competitivos, o que atrai até os consumidores de alta renda que antes preferiam a experiência tátil das lojas de departamento.

O que o financiamento de US$ 1,75 bilhão pode fazer?

O acordo de crédito inclui US$ 1 bilhão imediato, mais US$ 240 milhões garantidos por ativos e outros US$ 500 milhões que serão liberados após a saída do processo de falência. Entre os credores estão nomes de peso como Chanel, Kering e LVMH, que, curiosamente, também são concorrentes diretos. Essa mistura de apoio e pressão pode ser um incentivo para que a Saks renegocie contratos, venda ativos não essenciais e, quem sabe, encontre um parceiro estratégico que traga expertise digital.

Entretanto, o financiamento não resolve o problema estrutural: a necessidade de adaptar o modelo de negócios ao novo cenário. Se a Saks conseguir transformar suas lojas em verdadeiros “showrooms” – espaços onde o cliente experimenta produtos, recebe consultoria de estilo e, depois, compra online – pode encontrar um nicho rentável. Caso contrário, o risco de fechar lojas físicas permanece alto.

Impactos para o consumidor brasileiro

Embora a Saks seja um ícone americano, suas decisões reverberam no mercado de luxo brasileiro. Muitas marcas que vendem nas lojas da Saks também têm presença aqui, seja em lojas próprias ou em multimarcas como a Daslu (que ainda tenta se reerguer). Se a Saks reduzir seu poder de negociação, pode haver uma pressão maior nos preços praticados no Brasil, já que os fornecedores perderão um canal de venda importante.

Por outro lado, a crise pode abrir oportunidades para marcas brasileiras de alto padrão. Com menos concorrência internacional nas lojas de departamento, há espaço para que designers locais conquistem espaço nas vitrines de Nova York ou de Los Angeles, ampliando a visibilidade global.

O que podemos esperar nos próximos meses?

  • Reestruturação de lojas: Possível fechamento de unidades menos rentáveis, especialmente fora das grandes capitais.
  • Parcerias digitais: A Saks pode firmar acordos com plataformas de e‑commerce para vender seu estoque online, mantendo a presença física como ponto de experiência.
  • Novos investidores: Fundos de private equity ou conglomerados de tecnologia podem aparecer interessados em transformar o modelo de varejo de luxo.
  • Impacto nas marcas: Fornecedores como Chanel e LVMH podem renegociar prazos e condições, afetando a cadeia de suprimentos global.

Conclusão pessoal

Eu sempre admirei a elegância das lojas da Saks – o cheiro de couro, o brilho dos vitrais, a sensação de estar em um filme clássico. Ver a empresa pedindo falência me fez refletir sobre como até os gigantes podem ser vulneráveis quando não acompanham a mudança de hábitos. Para nós, consumidores, a lição é clara: o luxo está se digitalizando, e a experiência física precisa ser reinventada.

Se você ainda não experimentou comprar um item de luxo online, talvez seja a hora de testar. As marcas estão investindo em tecnologia de realidade aumentada, atendimento personalizado via chat e entregas rápidas. E, quem sabe, daqui a alguns anos, ao visitar uma loja da Saks (se ela ainda existir), você será atendido por um assistente virtual que conhece seu histórico de compras melhor do que qualquer vendedor humano.

Fique de olho nas notícias, porque o futuro do varejo de luxo ainda está sendo escrito. Enquanto isso, aproveite para observar como as mudanças nas grandes lojas dos EUA podem influenciar as opções que temos aqui no Brasil.