Na segunda‑feira (2), o economista Marco Lavagna, que liderava o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) da Argentina desde 2019, entregou sua demissão. A notícia pegou o mercado e os analistas de surpresa, principalmente porque o anúncio chegou a apenas oito dias da divulgação do primeiro índice de inflação calculado com a nova metodologia.
Um pouco de contexto: quem é Marco Lavagna?
Lavagna não é um nome desconhecido nos corredores do poder argentino. Ele tem laços estreitos com o líder da oposição peronista, ex‑candidato à presidência Sergio Massa, e foi mantido à frente do INDEC mesmo após a chegada do presidente ultraliberal Javier Milei, em dezembro de 2023. Essa escolha foi vista como um sinal de que o governo buscava dar mais credibilidade ao órgão que, historicamente, tem sido alvo de críticas por supostas manipulações.
Por que a mudança na metodologia importa?
Até pouco tempo atrás, a inflação argentina era calculada com base em uma cesta de preços de 2004. Essa cesta deixava de fora gastos que hoje são essenciais para a maioria das famílias, como internet, telefonia móvel e TV a cabo. O resultado? Uma subestimação das pressões inflacionárias que realmente afetam o bolso do consumidor.
A nova metodologia, que será aplicada a partir de 10 de fevereiro, se baseia em pesquisas de renda e gastos das famílias de 2017‑2018, alinhando‑se às recomendações internacionais. Em termos práticos, isso significa que itens como moradia e serviços públicos terão peso maior na conta final.
O que os números dizem até agora?
- Inflação oficial de 2023: 211,4%.
- Inflação estimada para 2025 (segundo o governo): 31,5%, a menor em oito anos.
- Última medição de dezembro (metodologia antiga): alta de 2,8%.
Esses números parecem indicar uma desaceleração impressionante, mas a alta de 2,8% em dezembro já mostrava sinais de que a tendência de alta poderia voltar, especialmente a partir de junho do ano passado.
Por que a renúncia é tão surpreendente?
Raúl Llaneza, representante dos trabalhadores do INDEC, descreveu a saída como “extremamente surpreendente”. Ele também aproveitou para cobrar um INDEC independente do poder político, um pedido que ecoa há anos entre economistas e investidores estrangeiros. A falta de explicação oficial sobre os motivos da renúncia alimenta ainda mais a especulação.
Impactos possíveis no mercado e na política
1. Volatilidade cambial. A Argentina já vive um cenário de desvalorização do peso; a incerteza sobre quem assumirá o INDEC pode acelerar a fuga de capitais.
2. Credibilidade dos dados. Se o próximo chefe for percebido como mais alinhado ao governo de Milei, analistas podem duvidar da independência dos números, afetando decisões de investimento.
3. Pressão sobre o governo. O próprio Milei tem usado a queda da inflação como principal argumento de sua agenda econômica. Uma nova medição que mostre alta pode enfraquecer essa narrativa.
O que podemos esperar nos próximos meses?
O próximo passo imediato é a nomeação de um substituto. Se o novo dirigente mantiver a linha de independência defendida pelos trabalhadores do INDEC, talvez vejamos um reforço da confiança dos mercados. Caso contrário, a suspeita de manipulação pode se intensificar.
Além disso, a própria aplicação da nova metodologia será observada de perto. Se a inflação recalculada ficar significativamente acima da projeção oficial de 31,5%, o governo terá que lidar com críticas internas e externas.
Como isso afeta a vida do cidadão comum?
Para quem vive de salário fixo, a inflação é mais que um número em gráficos – é a diferença entre conseguir pagar o aluguel ou não. Uma medição mais precisa pode ajudar famílias a planejar melhor seus gastos, mas também pode revelar que o custo de vida está subindo mais rápido do que se imaginava.
Se a nova taxa for mais alta, pode haver pressão para ajustes salariais, renegociação de contratos e até protestos. Por outro lado, se a taxa confirmar a queda anunciada, pode gerar esperança de estabilização econômica, embora ainda haja muito a ser feito para conter a desvalorização do peso.
Olhar para o futuro
Independentemente de quem assumir o INDEC, a mudança metodológica já está em curso. Isso indica que a Argentina está tentando se alinhar a padrões internacionais, algo que pode abrir portas para financiamentos externos e melhorar a percepção de risco do país.
Entretanto, a credibilidade dos números depende de transparência e independência. A comunidade internacional, incluindo o FMI e investidores privados, continuará acompanhando de perto cada passo.
Em resumo, a renúncia de Marco Lavagna pode ser um ponto de inflexão. Ela traz dúvidas, mas também abre espaço para reforçar a autonomia do INDEC. Para nós, leitores que acompanham a economia latino‑americana, vale a pena ficar de olho nas próximas nomeações e, principalmente, nos números que serão divulgados a partir de fevereiro.



