Na última terça‑feira, Stephen Miran, diretor do Federal Reserve (Fed) e antigo conselheiro econômico da Casa Branca, entregou sua carta de renúncia ao cargo de presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA). A notícia chegou através da Reuters e já está dando o que falar nos corredores de Washington. Para quem não acompanha de perto a política monetária dos EUA, pode parecer mais um nome saindo do jogo, mas a saída de Miran tem implicações que vão além da simples troca de cadeiras.
Primeiro, vale lembrar como Miran chegou ao Fed. Ele foi indicado pelo ex‑presidente Donald Trump, que, no segundo semestre de 2025, começou a montar um time alinhado à sua agenda econômica. O nome de Miran foi aprovado pelo Senado em setembro passado, e, desde então, ele tem participado ativamente das decisões sobre juros. Na primeira reunião em que votou, foi o único a defender um corte maior nas taxas – exatamente o que Trump costuma apoiar.
Mas por que ele decidiu deixar o CEA agora? Segundo a própria carta, Miran prometeu ao Senado que, caso permanecesse no Conselho após janeiro, deixaria o cargo formalmente. Ele reforça que quer “cumprir a palavra” enquanto continua no Fed, onde ainda pode exercer influência até que o Senado confirme um sucessor. Essa postura demonstra um certo respeito institucional, algo que nem sempre vemos quando políticos mudam de posição por conveniência.
Para entender o impacto, é preciso colocar a renúncia dentro do cenário mais amplo. Trump acabou de anunciar a indicação de Kevin Warsh para comandar o Fed a partir de maio, quando o mandato de Jerome Powell termina. Warsh ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas se tudo correr bem, teremos um novo presidente do Fed que já tem laços estreitos com Trump.
Além disso, a Suprema Corte está analisando a tentativa de demitir Lisa Cook, diretora do Fed, um caso que pode mudar o equilíbrio de poder dentro da instituição. Caso a Justiça confirme a demissão, Trump garantiria três indicações para o conselho do Fed, o que poderia dar a ele maior controle sobre as decisões de juros e, consequentemente, sobre a política econômica do país.
O que isso tudo significa para quem acompanha a economia? Primeiro, a presença de mais aliados de Trump no Fed pode sinalizar uma tendência de cortes mais agressivos nas taxas de juros. Até agora, a política tem sido de cautela, tentando equilibrar inflação alta com crescimento moderado. Se a maioria do conselho adotar a visão de Miran e Warsh, poderemos ver uma desaceleração dos aumentos de juros, ou até mesmo reduções, o que costuma impulsionar o crédito e o consumo, mas também pode reacender temores de inflação.
Para o investidor comum, isso se traduz em algumas mudanças práticas: títulos do Tesouro dos EUA podem perder parte de seu atrativo, já que rendimentos mais baixos reduzem a diferença com outros ativos. Ao mesmo tempo, ações podem ganhar força, principalmente nos setores mais sensíveis a crédito barato, como imobiliário e consumo durável. Por outro lado, o dólar pode enfraquecer se a expectativa de juros mais baixos se consolidar, o que afeta importações e preços de produtos importados.
É importante notar que, apesar das indicações políticas, o Fed ainda tem um mandato duplo – controlar a inflação e promover o pleno emprego. Mesmo que haja pressão para cortes, os membros do conselho ainda precisam justificar suas decisões com dados econômicos. A transparência dos minutos das reuniões será ainda mais observada nos próximos meses, pois o mercado tentará ler entre linhas a real inclinação do Fed.
Outra questão que surge é a relação entre o Fed e o Congresso. A nomeação de Miran foi aprovada por voto no Senado, mas a aprovação de Warsh ainda está pendente. Se o Senado, que atualmente tem maioria republicana, confirmar Warsh, a influência de Trump no banco central será ainda maior. Isso pode gerar atritos com membros democratas que temem que a política monetária seja usada como ferramenta política.
Por fim, vale refletir sobre a mensagem que essa sequência de mudanças envia ao resto do mundo. O Fed é o banco central mais influente do planeta; suas decisões repercutem nas bolsas globais, nas taxas de câmbio e até nas políticas de bancos centrais de outros países. Uma virada para uma postura mais expansionista pode estimular economias emergentes, mas também pode gerar volatilidade nos mercados emergentes que dependem de fluxos de capital dos EUA.
Em resumo, a renúncia de Stephen Miran ao Conselho de Assessores Econômicos não é apenas um detalhe de bastidores. Ela sinaliza uma consolidação da agenda econômica de Trump dentro do Fed, abre espaço para novas indicações e coloca o foco novamente nas próximas decisões de juros. Para quem acompanha a economia, a mensagem é clara: fique de olho nas próximas reuniões do Fed, nos minutos publicados e, principalmente, nas nomeações que ainda vão acontecer. O futuro da política monetária americana pode estar mais alinhado com a visão de Trump do que imaginávamos.



