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Regulação dos apps de entrega: o que muda para motoristas, entregadores e para o seu dia a dia

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Regulação dos apps de entrega: o que muda para motoristas, entregadores e para o seu dia a dia

Nos últimos meses, a discussão sobre como garantir direitos para quem trabalha em aplicativos de transporte e entrega tem ganhado força no Brasil. Se você já usou um serviço de entrega ou conhece alguém que ganha a vida dirigindo por apps, vai perceber que a notícia do governo avançar com um relatório em até 10 dias tem impacto direto na sua rotina.



## Por que o assunto apareceu agora?

A ideia de regular o trabalho por plataformas não é nova, mas o clima político mudou. O presidente Lula, antes mesmo de assumir a pasta da Secretaria‑Geral da Presidência, pediu ao ministro Guilherme Boulos que intensificasse o diálogo com a chamada “nova classe trabalhadora”. Essa classe inclui motoristas de Uber, iFood, Rappi, 99, entre outros. O objetivo: transformar relações de trabalho que, até agora, são marcadas por pouca transparência e ausência de garantias sociais.



## Como o grupo de trabalho está organizado?

O GT (grupo de trabalho) reúne representantes de diferentes áreas:
– Secretaria‑Geral da Presidência (coordenado por Guilherme Boulos);
– Ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio;
– Entregadores e motoristas de aplicativos.

Essa mistura de vozes tenta equilibrar os interesses das plataformas – que defendem flexibilidade – com as demandas dos trabalhadores, que buscam segurança e remuneração justa. O relatório que deve ser entregue em até 10 dias servirá de base para o projeto de lei que já tramita na Câmara dos Deputados, sob relatoria do deputado Augusto Coutinho (Republicanos‑PE).

## Os três eixos centrais da proposta

O Executivo tem três pilares claros:
1. **Remuneração mínima** – definir um piso por entrega ou corrida e limitar o percentual que a plataforma pode reter.
2. **Transparência dos algoritmos** – obrigar as empresas a revelar como calculam os valores pagos, evitando surpresas desagradáveis.
3. **Contribuição para a Previdência** – garantir que a maior parte da contribuição seja paga pelo empregador (a plataforma), facilitando o acesso ao INSS.

Essas ideias podem mudar a forma como você vê um pedido de entrega: ao invés de ser apenas um “gasto rápido”, pode se tornar um serviço que respeita quem o executa.



## O que isso significa para quem usa apps?

Para o consumidor, a regulação pode trazer alguns efeitos colaterais, mas nada alarmante. Se houver um piso salarial, as plataformas podem repassar parte desse custo ao cliente, elevando levemente o preço das corridas ou entregas. Por outro lado, a maior transparência pode melhorar a qualidade do serviço – motoristas e entregadores bem remunerados tendem a ser mais cuidadosos e pontuais.

Além disso, a garantia de contribuição previdenciária abre a porta para benefícios como aposentadoria, auxílio‑doença e licença‑maternidade. Imagine que seu amigo entregador, que hoje não tem acesso ao INSS, passe a ter direito a esses benefícios. Isso reduz a vulnerabilidade social e cria um círculo virtuoso de consumo mais consciente.

## Desafios e possíveis críticas

Nem tudo são flores. Algumas empresas de tecnologia argumentam que a regulação pode reduzir a flexibilidade que atrai muitos trabalhadores para esses empregos. Elas temem que custos maiores levem a menos oportunidades ou à migração para mercados informais. Também há dúvidas sobre como fiscalizar algoritmos complexos – será que o governo tem capacidade técnica para isso?

Outro ponto delicado é a negociação política. O relatório do GT será levado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos‑PB), para alinhar o texto final. Como a disputa eleitoral de 2026 se aproxima, partidos podem usar a pauta para ganhar apoio de grupos de trabalhadores, o que pode tornar o debate ainda mais acirrado.

## O que podemos fazer agora?

– **Fique informado**: acompanhe as notícias sobre o relatório e a votação do projeto de lei.
– **Converse com quem usa apps**: se você tem amigos que trabalham como motoristas ou entregadores, pergunte como eles veem a proposta.
– **Exija transparência**: ao usar um serviço, peça informações sobre como o preço foi calculado. As empresas podem começar a ser mais abertas por força da lei.
– **Participe de debates locais**: em cidades como São Paulo, já houveram protestos de entregadores. Sua voz pode ajudar a moldar políticas mais justas.

## Olhando para o futuro

Se a regulação avançar como esperado, podemos imaginar um cenário onde o trabalho por apps seja tão protegido quanto o emprego formal. Isso não significa que a flexibilidade desaparecerá, mas que haverá um piso de direitos que evite abusos. Para o cidadão comum, isso se traduz em serviços mais confiáveis e em um mercado de trabalho menos precário.

A questão ainda está em aberto, e a próxima semana será decisiva com a entrega do relatório e as primeiras reuniões entre Boulos, o ministro do Trabalho Luiz Marinho e o presidente da Câmara. Enquanto isso, vale a pena observar como a discussão evolui e pensar nas implicações para o seu bolso e para a sociedade.