Nos últimos meses, a cena do petróleo mudou de forma inesperada. Depois que a Venezuela e os Estados Unidos fecharam um acordo de US$ 2 bilhões para o fornecimento de petróleo, as refinarias da Costa do Golfo começaram a sentir o peso de um volume que ninguém esperava. Se você acompanha notícias de energia, já deve ter visto manchetes sobre o “excesso de oferta” e os descontos agressivos. Mas, afinal, como isso afeta o preço na bomba, a indústria americana e até o seu bolso?
Por que o petróleo venezuelano chegou de repente?
A decisão veio após um movimento político inusitado: a captura do presidente Nicolás Maduro em Caracas, que abriu espaço para que o governo dos EUA liberasse licenças a grandes tradings – Vitol, Trafigura e a própria Chevron. Essas empresas receberam permissão para comprar e revender milhões de barris de petróleo pesado venezuelano, que antes estavam bloqueados por sanções de 2019.
Com a liberação, a Venezuela aumentou drasticamente suas exportações para os EUA, quase triplicando para 284 mil barris por dia. O número parece grande, mas as refinarias da Costa do Golfo têm capacidade limitada para processar esse tipo de petróleo, que é mais denso e requer ajustes técnicos.
O dilema das refinarias americanas
Os operadores das refinarias admitiram que há mais produto para vender do que compradores dispostos a pagar preços competitivos. Mesmo com descontos de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent – mais altos que os descontos de janeiro – o petróleo venezuelano ainda é mais caro que o petróleo pesado canadense, que costuma ser a alternativa preferida.
- Capacidade de processamento: muitas unidades precisam adaptar suas torres de destilação para lidar com o petróleo pesado.
- Preço: o desconto ainda não cobre os custos adicionais de adequação.
- Logística: atrasos nos portos e na descarga de petroleiros aumentam os custos operacionais.
Mark Lashier, CEO da Phillips 66, disse que a empresa poderia processar até 250 mil barris por dia desse petróleo, mas só se os preços fossem atrativos. Até agora, a realidade tem sido outra: volumes empilhados nos tanques, preços pressionados para baixo e refinarias reclamando.
Impactos no preço do combustível
Para o consumidor, a situação pode parecer contraditória. Por um lado, há um excesso de oferta que normalmente faria o preço cair. Por outro, o petróleo venezuelano ainda não está sendo integrado de forma eficiente ao mercado interno dos EUA, o que impede que o desconto chegue à bomba.
Se as refinarias conseguirem adaptar suas plantas, poderemos ver uma redução gradual nos preços da gasolina, principalmente nas regiões próximas ao Golfo. Mas, se os ajustes demorarem, o excesso de oferta pode simplesmente se transformar em estoque, mantendo os preços estáveis ou até ligeiramente mais altos devido aos custos de armazenamento.
Quem mais está de olho?
A China, que antes era a maior compradora do petróleo venezuelano, cortou as compras após a captura de Maduro. A PetroChina ainda tem permissão, mas os EUA avisaram que não aceitarão preços abaixo do mercado. Já a Índia começou a estudar a possibilidade de importar esse petróleo, impulsionada por um acordo comercial com os EUA que reduz tarifas em troca de menor compra de petróleo russo.
Esses movimentos mostram que o petróleo venezuelano está em busca de novos destinos, mas ainda enfrenta barreiras políticas e técnicas.
O que esperar nos próximos meses?
Alguns cenários possíveis:
- Adaptação rápida: refinarias investem em upgrades e começam a processar o petróleo pesado de forma lucrativa. Isso geraria descontos maiores e poderia pressionar os preços globais do Brent.
- Estagnação: os ajustes demoram, o excesso de oferta permanece e os preços permanecem estáveis. As empresas americanas podem buscar vender o excedente para o Caribe ou armazenar até que o mercado se ajuste.
- Redirecionamento: a Venezuela procura novos compradores na Ásia, como Índia e possivelmente países do Sudeste Asiático, diversificando ainda mais sua base de exportação.
Independentemente do caminho, o que fica claro é que o mercado de energia está mais volátil e interconectado do que nunca. Decisões políticas, como a captura de Maduro, podem mudar rapidamente a dinâmica de oferta e demanda.
Como isso afeta o Brasil?
Embora o foco seja nos EUA, o Brasil sente os reflexos. O país importa petróleo principalmente da América do Norte e do Oriente Médio. Se os preços globais caírem devido ao excesso de oferta venezuelana, as refinarias brasileiras podem ganhar margem, importando a preços mais baixos. Por outro lado, se o excesso gerar instabilidade nos mercados futuros, pode haver volatilidade que afeta contratos de longo prazo.
Além disso, a possibilidade de a Venezuela aumentar sua produção – que atualmente está em torno de 250 mil barris por dia, mas tem potencial para crescer 50% nos próximos dois anos – pode abrir novas oportunidades de negociação para o Brasil, caso as sanções sejam flexibilizadas.
Em resumo, o cenário ainda está se desenhando. Para quem acompanha o mercado de energia, vale ficar de olho nas licenças de exportação dos EUA, nos investimentos das refinarias da Costa do Golfo e nas reações de grandes compradores como China e Índia. O futuro do petróleo venezuelano pode ser um termômetro das relações geopolíticas e das estratégias de energia de grandes potências.



