Se você já se pegou olhando o preço da carne na prateleira do supermercado e se perguntando por que está tão caro, a resposta pode estar a milhares de quilômetros de distância, nos campos secos do interior dos Estados Unidos. Segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA), o rebanho bovino dos EUA chegou a 86,2 milhões de cabeças em 1º de janeiro, o menor número registrado desde 1951. Essa queda de 0,4% em relação ao ano anterior pode parecer pequena, mas tem impactos gigantescos na cadeia de produção e, consequentemente, no bolso do consumidor.
Mas por que o rebanho está diminuindo? A principal culpada é a seca persistente que tem assolado os estados do oeste americano, como Califórnia, Nevada e Arizona. Pastagens secas significam menos alimento natural para o gado, o que eleva os custos de alimentação. Muitos pecuaristas, diante de custos cada vez maiores, optam por vender parte do rebanho para abate ao invés de mantê‑lo para reprodução. O efeito colateral? Menos animais nas fazendas e, portanto, menos carne disponível para o mercado.
O que isso traz para nós, consumidores brasileiros? Primeiro, os preços da carne bovina nos EUA já estavam em alta recorde no ano passado. O preço da carne moída chegou a US$ 6,69 por libra em dezembro, um aumento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. Se a produção nos EUA – que responde por cerca de 20% da produção mundial de carne bovina – permanecer baixa, a pressão sobre os preços globais tende a se manter por, pelo menos, mais dois anos, que é o tempo estimado para que um rebanho volte ao tamanho de abate adequado.
Como a escassez nos EUA afeta o mercado brasileiro?
- Importação mais cara: O Brasil importa parte da carne bovina dos EUA, sobretudo cortes de alta qualidade. Quando o preço de produção sobe, os exportadores repassam o custo extra.
- Concorrência por grãos: A seca nos Estados Unidos também reduz a produção de milho e soja, principais alimentos para o gado. Isso eleva o preço dos grãos no mercado internacional, impactando os custos de alimentação do gado brasileiro.
- Pressão sobre a inflação: Alimentos são um dos principais componentes da inflação. Se a carne bovina permanecer cara, isso pode puxar a inflação para cima, afetando o poder de compra das famílias.
O que os produtores brasileiros podem fazer?
Os pecuaristas aqui têm algumas cartas na manga para mitigar o efeito da alta nos preços internacionais:
- Investir em pastagens resilientes: Tecnologias de irrigação e seleção de forragens mais tolerantes à seca ajudam a manter a produção mesmo em períodos de escassez de água.
- Rever a dieta do gado: O uso de subprodutos da indústria de cana‑de‑açúcar e de óleos vegetais pode reduzir a dependência de milho importado.
- Fortalecer a cadeia de valor local: Processadores como a JBS e a Marfrig têm buscado aumentar a capacidade de abate e de produção de cortes premium dentro do Brasil, diminuindo a necessidade de importação.
O futuro da carne bovina nos próximos anos
Especialistas como Rich Nelson, da Allendale, apontam que, se os pecuaristas americanos não começarem a reconstruir seus rebanhos de forma consistente, os preços da carne podem permanecer elevados até 2027. Essa previsão tem duas implicações claras:
- Investimento em alternativas: Consumidores podem migrar para outras fontes de proteína, como frango, peixe ou mesmo carnes vegetais, que têm se tornado mais acessíveis e populares.
- Políticas públicas: Governos, incluindo o dos EUA, podem ser pressionados a criar incentivos para a produção de gado, como subsídios de água ou de ração, ou até mesmo a revisar políticas de exportação.
No Brasil, a situação pode ser um alerta para diversificar ainda mais a produção de alimentos e reduzir a vulnerabilidade a choques externos. Enquanto isso, para quem faz compras no supermercado, a dica prática continua: fique de olho nas promoções, compare preços entre diferentes cortes e, se possível, considere comprar carne em maior quantidade quando houver ofertas – o que costuma ser mais econômico a longo prazo.
Em resumo, a queda histórica do rebanho bovino dos EUA não é apenas um número em um relatório do USDA. É um sinal de que fatores climáticos, econômicos e de política agrícola estão interligados e que, de alguma forma, acabam chegando ao prato de todo mundo. Entender esse caminho ajuda a tomar decisões de consumo mais informadas e a perceber que, às vezes, a solução pode estar tão perto quanto mudar a forma como alimentamos o nosso próprio gado.



