Quando a gente ouve falar que o governo pagou R$ 31,5 bilhões em emendas parlamentares em 2025, a primeira reação costuma ser: “Uau, quanto dinheiro!” Mas, antes de ficar só no impressionado, vale entender como esse número chegou aí, quem se beneficia e, principalmente, como isso pode impactar a vida de quem mora no Brasil, seja na capital ou no interior.
Emendas parlamentares são recursos que o Congresso reserva dentro do orçamento federal para serem usados em projetos indicados por deputados e senadores. Em termos simples, são recursos que os parlamentares direcionam para suas bases eleitorais – escolas, hospitais, pavimentação de ruas, equipamentos esportivos, etc. O que mudou nos últimos anos é a forma como essas emendas são negociadas e pagas, e 2025 marcou um recorde histórico.
Como funciona o ciclo das emendas?
- Emissão (empenho): o governo se compromete a gastar um valor, mas ainda não paga.
- Liquidação: a obra ou serviço é entregue.
- Pagamento: o dinheiro sai de fato do caixa.
- Restos a pagar: valores empenhados que ainda não foram pagos e podem ser quitados nos anos seguintes.
Em 2025, o total de emendas empenhadas foi de R$ 48,5 bilhões, quase todo o que havia sido autorizado (R$ 50 bilhões inicialmente). Desses, 67% – ou R$ 31,5 bilhões – foram efetivamente pagos dentro do mesmo ano.
Tipos de emendas e seus percentuais de pagamento
As emendas se dividem em três categorias principais:
- Emendas individuais (impositivas): são obrigatórias para o governo pagar. Em 2025, representaram 83,1% do total pago, equivalendo a R$ 19,9 bilhões.
- Emendas de bancada (impositivas): definidas pelos parlamentares de cada estado. Em 2025, somaram R$ 6,3 bilhões.
- Emendas de comissão (não impositivas): dependem da avaliação do governo. Receberam apenas 47,4% de pagamento, totalizando R$ 5,3 bilhões.
O fato de as emendas de comissão não serem obrigatórias permite ao Executivo bloquear ou adiar pagamentos quando as contas não fecham, o que gera tensão entre os poderes.
Um salto de cinco vezes em uma década
Se em 2016 o total de emendas era de R$ 9 bilhões, em 2025 chegamos a R$ 48,5 bilhões. Esse crescimento explosivo tem raízes em mudanças legislativas ocorridas a partir de 2020, quando o chamado “orçamento secreto” foi extinto pelo STF. Na prática, o Congresso aproveitou a brecha para tornar as emendas individuais e de bancada impositivas, aumentando seu peso no orçamento.
Comparando os dois últimos governos:
- Bolsonaro (2019‑2022): R$ 83,7 bilhões em emendas, com 98% empenhados.
- Lula (2023‑2025): R$ 132 bilhões autorizados, 96% empenhados.
O maior diferencial está nas emendas de comissão, que passaram de menos de R$ 1 bilhão em 2020 para R$ 11,2 bilhões em 2025. Isso mostra que o Congresso está buscando novas formas de influenciar o orçamento, mesmo quando a transparência é questionada.
E o que isso tem a ver comigo?
Para quem não está dentro da política, a discussão pode parecer distante, mas o dinheiro das emendas chega às cidades de diferentes formas:
- Infraestrutura local: pavimentação de ruas, construção de escolas ou postos de saúde.
- Programas sociais: apoio a ONGs, projetos culturais ou esportivos.
- Geração de empregos: obras públicas costumam contratar mão‑de‑obra local.
Se a sua comunidade recebeu um novo centro esportivo ou a reforma de uma escola, há grande chance de que isso tenha sido financiado por alguma dessas emendas. Por outro lado, a falta de transparência pode gerar dúvidas sobre a real necessidade dos projetos, e o cidadão acaba sem saber quem realmente se beneficiou.
Os desafios da transparência
O STF tem suspendido pagamentos de emendas que julga pouco claras. Essa postura tenta frear o que muitos chamam de “clientelismo” – o uso de recursos públicos para garantir apoio político. Mas a medida também traz um efeito colateral: atrasos nos pagamentos que podem deixar obras inacabadas ou serviços interrompidos.
Um exemplo recente: na semana do Natal, o governo liberou R$ 1,53 bilhão em emendas. Desses, 55% foram para emendas de bancada (R$ 831 milhões), 27% para comissões (R$ 416 milhões) e 18% para individuais (R$ 270 milhões). O ritmo acelerado foi resultado de um acordo entre o Palácio e a liderança do Congresso, liderada por Hugo Motta (Republicanos‑PB), que destacou o esforço da ministra Gleisi Hoffmann para quitar os valores represados.
O que esperar nos próximos anos?
Os “restos a pagar” – recursos já empenhados mas ainda não desembolsados – somam bilhões que podem aparecer nos orçamentos de 2026 e 2027. Isso significa que, mesmo que o governo tenha reduzido o orçamento de 2025, ainda haverá pressão para honrar esses compromissos.
Se a tendência de aumento das emendas continuar, podemos esperar:
- Mais projetos locais, mas também maior necessidade de fiscalização.
- Possíveis conflitos entre Executivo e Legislativo sobre a disponibilidade de recursos.
- Novas decisões judiciais que podem mudar a forma como as emendas são pagas.
Para o cidadão, a melhor arma continua sendo a informação: acompanhar os projetos que chegam à sua cidade, exigir transparência e cobrar dos representantes locais a correta aplicação dos recursos.
Em resumo, os R$ 31,5 bilhões em emendas de 2025 são mais do que um número recorde – são um reflexo de como o orçamento brasileiro está sendo negociado nos bastidores e, ao mesmo tempo, de como esses recursos podem melhorar (ou não) a vida nas ruas onde moramos.



