Quando a gente ouve números gigantes como R$ 31,5 bilhões, a primeira reação costuma ser “uau, que montante!” Mas, para entender se isso traz algo de útil para a gente, é preciso ir além da cifra e olhar como esse dinheiro circula, quem decide onde ele vai e quais são as consequências práticas.
Emendas parlamentares: o que são e como funcionam?
Emendas são parcelas do Orçamento da União que os deputados e senadores podem indicar para projetos específicos – desde a pavimentação de uma rua até a compra de equipamentos para escolas. Elas podem ser impositivas (obrigatórias para o governo pagar) ou discricionárias (o Executivo pode decidir se paga ou não).
Em 2025, o governo Lula pagou R$ 31,5 bi em emendas, o maior valor da história. Dessas, 83,1% foram impositivas, ou seja, o governo tinha a obrigação legal de desembolsar o dinheiro naquele mesmo ano.
Como esse número se compara com o passado?
- 2016: R$ 9 bi em emendas
- 2020: início da chamada “orçamento secreto”, que acabou sendo vetado pelo STF em 2022
- 2025: R$ 48,5 bi empenhados, dos quais R$ 31,5 bi foram efetivamente pagos
Em uma década, o total de recursos destinados a emendas quintuplicou. Essa escalada reflete, em parte, a estratégia do Congresso de ampliar sua participação nas decisões orçamentárias, justificando‑se como uma forma de atender melhor às necessidades regionais.
Quem ganha mais com as emendas?
Os recursos são divididos em três grandes categorias:
- Emendas individuais – R$ 19,9 bi. Cada parlamentar indica projetos que levam seu nome.
- Emendas de bancada estadual – R$ 6,3 bi. Representam a soma das demandas de todos os deputados de um mesmo estado (por exemplo, Paraíba).
- Emendas de comissão – R$ 5,3 bi. São propostas pelas comissões temáticas do Congresso e são as menos obrigatórias, com taxa de pagamento de apenas 47,4%.
Essas diferenças são importantes porque influenciam a previsibilidade dos recursos. Enquanto as emendas individuais e de bancada são quase sempre pagas, as de comissão podem ficar retidas como “restos a pagar” e só serem quitadas nos anos seguintes.
Por que o governo paga tanto?
O ritmo acelerado de pagamentos, especialmente na semana do Natal (R$ 1,53 bi em poucos dias), foi resultado de um acordo entre o Palácio do Planalto e a liderança do Congresso. Hugo Motta, presidente da Câmara, destacou o esforço da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para honrar emendas que estavam atrasadas por causa da aprovação tardia do Orçamento.
Esse tipo de negociação costuma acontecer nos últimos meses do ano, quando o Executivo busca evitar críticas de “não cumprir promessas” e o Legislativo quer garantir que os recursos que ajudaram a eleger seus representantes cheguem aos municípios.
Impactos reais no cidadão comum
Você pode estar se perguntando: “E eu, como isso me afeta?” Aqui vão alguns exemplos práticos:
- Obras de infraestrutura: Muitas rodovias, pontes e escolas são construídas ou reformadas graças a emendas. Se a sua cidade recebeu uma emenda de bancada, provavelmente foi para melhorar algum serviço local.
- Saúde e educação: Equipamentos hospitalares, kits de vacinação e material didático costumam ser financiados por emendas individuais.
- Emprego: Cada obra gera empregos diretos (operários, engenheiros) e indiretos (comércio local, transporte).
Entretanto, há um lado menos positivo: a falta de transparência pode gerar desperdício ou favorecimento político. Quando o critério de escolha das obras não é claro, há risco de recursos serem direcionados para projetos de pouca relevância apenas para agradar eleitores.
Desafios de transparência e controle
O Supremo Tribunal Federal tem suspendido pagamentos de emendas que considerou opacas. Essa intervenção tenta equilibrar a necessidade de controle fiscal com a autonomia do Legislativo. Ainda assim, a prática de “orçamento secreto” – que durou até 2022 – deixou uma marca de desconfiança no público.
Para melhorar a situação, alguns especialistas sugerem:
- Publicar detalhadamente os critérios de seleção de projetos.
- Permitir que a sociedade civil acompanhe a execução das obras por meio de portais online.
- Estabelecer limites percentuais para o total de recursos que podem ser destinados a emendas individuais.
O futuro das emendas: o que esperar?
Com a tendência de crescimento dos recursos destinados ao Congresso, é provável que o debate sobre o papel das emendas continue intenso. Alguns pontos que podem mudar nos próximos anos:
- Reforma tributária: Se houver mudanças na arrecadação, o volume disponível para emendas pode ser reduzido.
- Maior fiscalização: O STF pode criar mecanismos mais rígidos de controle, limitando a margem de manobra do Legislativo.
- Participação cidadã: Plataformas digitais podem permitir que eleitores votem em projetos que consideram prioritários, tornando o processo mais democrático.
Para quem acompanha a política, ficar de olho nesses detalhes ajuda a entender não só onde o dinheiro público está sendo gasto, mas também como as decisões são tomadas e quem realmente se beneficia.
Resumo rápido
| Item | Valor (R$ bi) |
|---|---|
| Emendas pagas | 31,5 |
| Emendas empenhadas | 48,5 |
| Restos a pagar (não pagos) | ~17 |
| Emendas individuais | 19,9 |
| Emendas de bancada | 6,3 |
| Emendas de comissão | 5,3 |
Se você ainda tem dúvidas ou quer saber como acompanhar a execução das emendas na sua região, vale dar uma olhada no portal da Transparência do Governo Federal ou nos sites das assembleias estaduais. Informação é a melhor ferramenta para cobrar quem decide o destino do nosso dinheiro.



