Eu sempre achei que a gente só se envolve em polêmicas quando o assunto é política ou futebol. Mas, nos últimos dias, a discussão tomou um rumo inesperado: um comercial de fim de ano da Havaianas, estrelado pela Fernanda Torres, acabou virando ponto de partida para um debate que mistura marketing, ideologia e até memes. Se você ainda não viu o vídeo, a frase‑de‑efeito da atriz – “não quero que você comece 2026 com o pé direito” – pode parecer apenas uma brincadeira de fim de ano. Para muita gente, porém, ela se transformou em um sinal de provocação política. Vamos entender como isso aconteceu, por que a reação foi tão intensa e o que isso nos diz sobre o clima cultural e político no Brasil.
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## O comercial em poucos minutos
O vídeo, divulgado no Instagram da Havaianas, mostra Fernanda Torres caminhando na praia, falando de forma descontraída sobre desejos para o próximo ano. Ela brinca com a expressão “começar o ano com o pé direito”, que costuma ser usada para desejar sorte. Mas, em vez de encorajar a sorte, a atriz diz que prefere que a gente comece 2026 com os dois pés – “os dois pés na porta, na estrada, na jaca, onde quiser” – e finaliza com o clássico “Havaianas, todo mundo usa”.
A produção tem a cara típica das campanhas de verão da marca: cores vibrantes, música leve e um toque de humor. Em termos de visual, nada fora do comum. O que mudou foi a interpretação que alguns usuários fizeram da mensagem.
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## Por que a direita reagiu?
### 1. A frase foi vista como crítica velada
Políticos e influenciadores alinhados à direita, como o deputado Nikolas Ferreira (PL‑MG) e a deputada Bia Kicis (PL‑DF), foram os primeiros a levantar a questão. Para eles, a fala “não quero que você comece 2026 com o pé direito” soava como um convite à desconfiança em relação ao futuro – algo que poderia ser lido como um comentário sobre a conjuntura política atual. A ideia de que a sorte “não depende de você, depende da sorte” também foi interpretada como uma alusão a um sentimento de impotência que, segundo eles, poderia ser explorado por grupos de esquerda.
### 2. Medo de misturar marca e ideologia
A Havaianas, apesar de ser uma marca global, tem forte identidade nacional. Quando um comercial parece carregar um subtexto político, a preocupação – real ou percebida – é que a empresa esteja se posicionando de forma explícita. Para alguns, isso pode afastar consumidores que preferem marcas neutras. O medo de que a publicidade sirva como ferramenta de propaganda ideológica não é novidade no Brasil, mas quando a marca tem tanto apelo popular, a reação se intensifica.
### 3. O boicote como ferramenta de pressão
Logo após o vídeo ganhar 6 milhões de visualizações, surgiram chamadas para boicotar a Havaianas. Usuários criaram hashtags, memes e até imagens editadas da atriz com frases alteradas. Essa estratégia de boicote tem sido usada por grupos de direita como forma de sinalizar desaprovação e pressionar marcas a “cuidarem da neutralidade”.
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## O papel dos memes: humor como arma
A internet brasileira adora transformar controvérsias em memes. No caso da Havaianas, a frase “não comece o ano com o pé direito” virou piada visual – fotos de pés descalços, sandálias diferentes, e até imagens da atriz com o pé “errado”. Essa explosão de humor tem duas funções: descontrair o assunto e, ao mesmo tempo, espalhar a mensagem de forma ainda mais rápida. Quando algo se torna meme, ele ganha vida própria, muitas vezes ultrapassando o debate original.
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## O que isso revela sobre a cultura de consumo no Brasil?
### 1. Consumidores como atores políticos
Hoje, comprar um produto não é só uma questão de necessidade ou gosto. Cada escolha pode ser interpretada como um posicionamento. A reação à campanha da Havaianas mostra que os consumidores – especialmente os mais engajados nas redes – estão atentos a possíveis mensagens subliminares. Eles não aceitam mais que marcas falem sem assumir alguma responsabilidade social ou política.
### 2. A rapidez da viralização
Em menos de 48 horas, o comercial já estava no topo dos trending topics. Isso demonstra o poder das plataformas – Instagram, X (Twitter) e TikTok – em transformar um conteúdo de marketing em debate nacional. A velocidade com que a mensagem se espalha também dificulta o controle da marca; qualquer tentativa de retirar o vídeo pode ser vista como censura, gerando ainda mais repercussão.
### 3. A polarização como combustível de engajamento
A polarização política no Brasil tem se tornado um motor para discussões em todas as áreas, inclusive na publicidade. Quando um conteúdo toca um ponto sensível, ele tende a gerar reações extremas, seja de apoio ou de crítica. Essa dinâmica cria um ciclo de atenção contínua que as marcas, muitas vezes, não conseguem prever.
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## Como a Havaianas respondeu – ou não respondeu?
A Alpargatas, controladora da Havaianas, optou por não comentar o caso. Em entrevistas, a assessoria afirmou que a empresa não vai se manifestar sobre o tema. Essa postura pode ser vista de duas maneiras:
* **Neutralidade estratégica:** ao não entrar no debate, a marca evita se aprofundar em discussões que poderiam alienar parte do público.
* **Perda de oportunidade:** ao permanecer em silêncio, a empresa deixa de esclarecer a intenção da campanha e de controlar a narrativa, permitindo que a interpretação dos críticos se solidifique.
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## O que podemos aprender com essa situação?
### • A importância de revisar o discurso
Mesmo quando a intenção é apenas brincar, é preciso considerar como a mensagem pode ser recebida em um cenário altamente polarizado. Uma frase aparentemente inocente pode ser reinterpretada de formas inesperadas.
### • O poder dos influenciadores políticos
Políticos como Nikolas Ferreira e Bia Kicis têm grande alcance nas redes. Quando eles se posicionam contra uma marca, o impacto pode ser imediato. Para as empresas, monitorar essas vozes é essencial.
### • Memes são a nova linguagem de protesto
Se antes o protesto se dava em forma de cartazes nas ruas, hoje ele se manifesta em GIFs, edições de fotos e hashtags. Entender esse novo formato ajuda a perceber a velocidade e a abrangência da crítica.
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## Olhando para o futuro: será que mais campanhas vão enfrentar esse tipo de reação?
A tendência é que, à medida que a sociedade se torna mais consciente – e mais crítica – sobre mensagens subliminares, as marcas precisarão ser ainda mais cuidadosas. Algumas estratégias que podem ajudar:
* **Testes de percepção:** antes de lançar um comercial, submeter a mensagem a grupos focais que representem diferentes espectros políticos.
* **Transparência nas intenções:** se a campanha tem um objetivo social ou cultural, explicitar isso de forma clara pode reduzir interpretações equivocadas.
* **Planejamento de crise:** ter um plano de comunicação pronto para responder rapidamente a críticas, sem parecer defensivo.
No fim das contas, o caso da Havaianas nos mostra que o Brasil está vivendo um momento em que tudo pode se tornar assunto de debate político – até mesmo um par de sandálias. Para quem acompanha as tendências de consumo e comunicação, isso é um sinal de que o cenário está mudando e que a linha entre marketing e mensagem política está cada vez mais tênue.
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### Conclusão pessoal
Eu, pessoalmente, achei a situação curiosa e um pouco cansativa. É fácil perceber que, em tempos de alta polarização, até um comercial de fim de ano pode ser transformado em campo de batalha ideológico. Mas também vejo uma oportunidade: a chance de refletir sobre o que realmente queremos das marcas que usamos no dia a dia. Se a mensagem da Fernanda Torres – “começar o ano com os dois pés” – nos faz pensar em estar presentes, completos e firmes, talvez seja isso que valha a pena levar adiante, independentemente da polêmica.
Se você ainda não viu o comercial, vale a pena dar uma olhada. E, se quiser, compartilhe sua opinião nos comentários: a campanha te fez sorrir, pensar ou até mesmo irritar? A discussão está aberta, e eu fico curioso para saber o que você pensa.
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