Na manhã de 2 de janeiro, a família Witter, que há três décadas cuida de vacas leiteiras, suínos e soja na zona rural de Novo Xingu, encontrou quatro animais mortos ainda antes da ordenha. O choque foi imediato: as vacas estavam ofegantes, babavam e não conseguiam se levantar. Em menos de três dias, o número de mortes chegou a 48, o que representa um prejuízo estimado em R$ 600 mil. Para quem depende da produção leiteira para viver, isso não é só uma notícia triste, é um verdadeiro golpe no sustento da família.
A suspeita mais forte dos técnicos da Secretaria de Agricultura e Pecuária de Novo Xingu é de intoxicação por excesso de nitrito nas plantas. Depois de dias de chuva intensa e pouca luz, o processo de fotossíntese das pastagens pode ter sido prejudicado, permitindo que compostos tóxicos se acumulem nas folhas que os animais consomem. A situação lembra outros episódios já registrados no Rio Grande do Sul, onde a combinação de clima úmido e manejo inadequado de silagem gerou crises semelhantes.
Mas o que exatamente são nitritos e por que eles podem ser tão perigosos para o gado? O nitrito é um composto que, em pequenas quantidades, faz parte do ciclo natural do nitrogênio no solo. Quando as condições ambientais mudam – como excesso de água e baixa luminosidade – as bactérias que transformam nitrito em nitrato podem ficar sobrecarregadas. O resultado: o nitrito se acumula nas plantas, e ao ser ingerido pelos animais, impede a capacidade do sangue de transportar oxigênio, levando a sintomas como falta de ar, fraqueza e, em casos graves, a morte.
Para quem tem uma fazenda, entender esse mecanismo pode fazer a diferença entre perder todo o rebanho ou conseguir intervir a tempo. Algumas medidas preventivas incluem:
- Monitorar a qualidade da água e da silagem, especialmente após períodos chuvosos.
- Realizar testes de nitrito nas pastagens sempre que houver mudança climática significativa.
- Evitar que o gado consuma pasto encharcado ou que esteja em fase de decomposição.
- Manter um plano de emergência com veterinários e laboratórios para análises rápidas.
Essas práticas são recomendadas pelos órgãos de extensão rural do estado, mas a realidade de muitos pequenos produtores é que nem sempre há recursos ou conhecimento técnico suficiente para aplicá‑las. No caso da família Witter, a primeira reação foi chamar veterinários e o poder público ainda pela manhã. Até o fim da tarde, 15 animais já haviam sido enterrados, e amostras de vísceras, água, ração e silagem foram coletadas para análise.
O que ainda falta saber é o resultado dos exames. O secretário de Agricultura, Sérgio Celso Tasso, avisou que o laudo pode ser inconclusivo, como já aconteceu em outras ocorrências no estado. Enquanto isso, a comunidade de Novo Xingu se mobilizou: uma campanha de apoio foi criada para arrecadar animais e dinheiro, e já mais de oito vacas foram doadas por vizinhos solidários. Essa rede de ajuda mostra como, mesmo diante de uma tragédia, a solidariedade rural ainda tem força.
Para quem vive de agricultura familiar, a perda de 48 vacas não é apenas um número; é a redução de uma renda bruta mensal que varia entre R$ 80 mil e R$ 100 mil. É menos leite para vender, menos fertilizante natural, menos força de trabalho para arar a terra. É também o impacto emocional de ver animais que fazem parte da família morrerem de forma tão repentina.
Olhemos para o futuro: quais lições podemos tirar desse episódio? Primeiro, a importância de investir em monitoramento ambiental, mesmo que seja algo simples como observar a cor da água ou o odor da silagem. Segundo, a necessidade de capacitação constante dos produtores, para que saibam identificar sinais de intoxicação antes que o dano seja irreversível. E terceiro, a urgência de políticas públicas que ofereçam suporte técnico rápido e acessível, principalmente em municípios pequenos como Novo Xingu, que tem apenas 1,6 mil habitantes.
Se você tem uma pequena propriedade ou conhece alguém que tem, vale a pena conversar sobre a experiência da família Witter. Trocar informações sobre como eles testam a qualidade da forragem, quais fornecedores de insumos são confiáveis e como organizar um plano de contingência pode evitar perdas maiores. A troca de conhecimento entre agricultores é uma das armas mais eficazes contra problemas que, à primeira vista, parecem inevitáveis.
Enfim, a história das 48 vacas em Novo Xingu nos lembra que a agricultura é uma atividade que depende tanto da natureza quanto da ciência. Quando a chuva se torna demais, o que antes era alimento pode virar veneno. Mas, com informação, prevenção e apoio mútuo, ainda há caminhos para transformar risco em oportunidade de aprendizado.



