Na manhã de 2 de janeiro, eu estava lendo as notícias do G1 quando me deparei com uma história que me deixou sem palavras. Uma família de agricultores do Rio Grande do Sul perdeu 48 vacas leiteiras em apenas três dias, e o prejuízo chegou a impressionantes R$ 600 mil. O que parecia ser um simples problema de saúde animal se transformou em um alerta sobre como o clima, a alimentação e a gestão da fazenda podem se combinar de forma perigosa.
O que aconteceu em Novo Xingu?
Todo o drama começou na Linha Cotia, zona rural do pequeno município de Novo Xingu, que tem pouco mais de 1,6 mil habitantes. O patriarca da família, Vanderlei Witter, de 44 anos, encontrou quatro vacas mortas ao conferir o rebanho por volta das 5h30 da manhã, antes da ordenha. As vacas estavam babando, ofegantes e incapazes de se levantar.
A situação se agravou rapidamente. No mesmo dia, até 15 animais já foram enterrados. No dia seguinte, mais 16 vacas foram encontradas mortas. No domingo, o número total chegou a 48. A principal suspeita das autoridades é de intoxicação por excesso de nitrito, possivelmente causada por condições climáticas adversas que impediram a fotossíntese nas plantas de pastagem.
Entendendo a intoxicação por nitrito
O nitrito não é algo que a gente costuma associar ao cotidiano de quem vive na cidade, mas no meio rural ele pode ser um vilão silencioso. Quando a chuva é abundante e a luz solar escassa, as plantas podem acumular nitrito em vez de convertê-lo em nitrato – forma que as vacas conseguem digerir com mais facilidade. O excesso de nitrito no organismo bovino impede a capacidade do sangue de transportar oxigênio, levando a sintomas como falta de ar, fraqueza e, nos casos mais graves, a morte.
Alguns pontos que ajudam a entender o risco:
- Chuva prolongada: aumenta a umidade do solo e diminui a fotossíntese.
- Baixa luminosidade: reduz a conversão de nitrito em nitrato.
- Pastagens inadequadas: capim Sudão, gramas Tifton e Papua podem acumular nitrito se não forem bem manejados.
Impacto econômico para a família Witter
Para quem trabalha há 30 anos com vacas leiteiras, suínos e soja, perder 48 animais representa um golpe devastador. A renda bruta mensal da família varia entre R$ 80 mil e R$ 100 mil; com o prejuízo de R$ 600 mil, eles perderam quase seis meses de faturamento. Além do aspecto financeiro, há o impacto emocional – o vínculo com os animais, o conhecimento acumulado ao longo de décadas e a confiança na própria produção.
Como a comunidade reagiu?
Em situações como essa, a solidariedade costuma aparecer. Moradores de Novo Xingu criaram uma campanha de apoio, arrecadando tanto animais quanto recursos financeiros. Mais de oito vacas já foram doadas, demonstrando que, mesmo em cidades pequenas, a rede de ajuda pode ser forte.
O que os produtores podem fazer para prevenir?
Embora nem sempre seja possível controlar o clima, há medidas que ajudam a reduzir o risco de intoxicação por nitrito:
- Monitoramento da pastagem: analisar a qualidade da forragem, especialmente após períodos de chuva.
- Suplementação: oferecer fontes de nitrato ou outros suplementos que ajudem na digestão.
- Rotação de áreas: evitar que o mesmo lote fique encharcado por muito tempo.
- Teste de nitrito: levar amostras de água e forragem a laboratórios especializados.
Reflexões finais
Essa história me fez pensar sobre a fragilidade da cadeia produtiva rural. Quando um pequeno detalhe – como a falta de luz solar – se transforma em um desastre, todo o ecossistema sente o impacto. Para quem vive da terra, o conhecimento técnico precisa andar lado a lado com a atenção ao clima e à qualidade da alimentação.
Se você tem alguma vaca, ou conhece alguém que trabalha no campo, vale a pena ficar de olho nos sinais de intoxicação: respiração acelerada, fraqueza, babação excessiva. E, claro, manter um canal de comunicação aberto com veterinários e órgãos de agricultura pode fazer a diferença entre um susto e uma tragédia.
Vamos torcer para que os exames tragam respostas claras e que a família Witter consiga se reerguer. Enquanto isso, a história serve de alerta para todos nós que dependemos da produção agropecuária para o alimento na mesa.



