Na manhã de 2 de janeiro, a família Witter, que há três décadas cuida de um pequeno rebanho de vacas leiteiras em Novo Xingu, no Rio Grande do Sul, encontrou quatro animais já mortos. Em menos de 72 horas, o número saltou para 48, e o prejuízo estimado chegou a R$ 600 mil. O que parecia ser um simples incidente de saúde animal rapidamente se transformou em um alerta para toda a região rural: a intoxicação por excesso de nitrito pode ser devastadora.
O que é o nitrito e por que ele pode ser mortal?
O nitrito (NO₂⁻) é um composto químico que, em pequenas quantidades, pode estar presente naturalmente em solos e água. Ele surge, por exemplo, a partir da decomposição de matéria orgânica ou do uso de fertilizantes nitrogenados. Quando há excesso, porém, ele interfere na capacidade do sangue de transportar oxigênio – o chamado efeito “metemoglobinemia”. Nos bovinos, isso se manifesta como falta de ar, letargia, respiração ofegante e, nos casos mais graves, morte súbita.
Nas últimas décadas, casos de intoxicação por nitrito foram registrados em várias regiões do Brasil, principalmente após períodos de muita chuva seguidos de sol forte, que favorecem a conversão de nitratos em nitritos nas plantas forrageiras.
Como a chuva e a falta de luz podem agravar o problema?
Em Novo Xingu, o início de janeiro trouxe chuvas intensas e dias nublados. Essa combinação cria o ambiente perfeito para que as plantas, como o capim Sudão e as gramíneas Tifton, acumulem nitratos. Quando o sol volta a brilhar, a fotossíntese normalmente converte esses nitratos em aminoácidos. Mas se a luminosidade está baixa por muito tempo, a conversão fica incompleta, e parte dos nitratos se transforma em nitrito, que permanece no forragem.
Quando os animais consomem essa forragem contaminada, o nitrito entra na corrente sanguínea, ligando-se à hemoglobina e impedindo a oxigenação dos tecidos. O resultado são os sintomas descritos pela família: vacas que “babam”, ficam ofegantes, deitam e não conseguem se levantar.
Impacto econômico: além da perda de animais
Para a família Witter, a perda de 48 vacas representa mais que um número. Cada vaca leiteira gera, em média, R$ 2.500 por mês em produção de leite. Considerando a renda bruta mensal da família entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, a morte de quase 50 animais pode cortar cerca de 15% da receita esperada para o trimestre. Somado ao custo de reposição – que inclui compra de animais, adaptação ao manejo e despesas veterinárias – o prejuízo de R$ 600 mil se torna ainda mais pesado.
Mas o efeito cascata não para por aí. A diminuição da produção de leite afeta os compradores locais, os laticínios da região e até os consumidores finais, que podem sentir aumento de preço ou escassez. Em comunidades pequenas como Novo Xingu, onde a agropecuária representa a principal fonte de renda, um evento assim pode desencadear uma crise econômica local.
O papel das autoridades e da veterinária
Logo nas primeiras horas, a família acionou a Inspetoria Veterinária de Constantina. Equipes recolheram amostras de vísceras, água, ração, silagem e das próprias pastagens. O objetivo é identificar a presença de nitrito, mas também de outros agentes tóxicos, como micotoxinas ou metais pesados.
O secretário de Agricultura e Pecuária de Novo Xingu, Sérgio Celso Tasso, explicou que o clima úmido e a falta de luz solar são fatores de risco bem conhecidos. No entanto, ele alertou que, em casos anteriores, os laudos foram inconclusivos, dificultando a responsabilização e a adoção de medidas corretivas.
O que os agricultores podem fazer para prevenir intoxicações?
- Teste regular da forragem: Levar amostras ao laboratório antes de oferecer ao rebanho, especialmente após períodos de chuva.
- Rotação de pastagens: Evitar que os animais permaneçam muito tempo em áreas que apresentem acúmulo de nitratos.
- Uso controlado de fertilizantes: Aplicar doses recomendadas e observar o calendário de aplicação para evitar excesso de nitrogênio.
- Suplementação: Oferecer minerais e vitaminas que ajudam na desintoxicação, como a vitamina C e o sulfato de sódio.
- Monitoramento da saúde: Observar sinais de falta de ar, letargia ou comportamento anômalo nos animais e agir rapidamente.
Essas práticas não eliminam o risco, mas reduzem significativamente a chance de um desastre como o de Novo Xingu.
Solidariedade rural: a campanha de apoio
Ao saber da tragédia, vizinhos, amigos e até estranhos se mobilizaram. Uma campanha de arrecadação de animais e recursos financeiros foi criada nas redes sociais. Até o momento, mais de oito vacas foram doadas, além de doações em dinheiro que ajudarão a família a repor parte do rebanho e a cobrir despesas veterinárias.
Esse gesto mostra a força da comunidade rural gaúcha, que costuma se unir em momentos de dificuldade. Para quem vive longe da zona urbana, a ajuda mútua é muitas vezes a única forma de superar perdas inesperadas.
Perspectivas para o futuro: o que esperar das investigações?
Os resultados das análises laboratoriais ainda não foram divulgados. Caso confirmem a presença de nitrito em níveis críticos, será necessário rever as práticas agrícolas da região. Poderá haver recomendações de mudanças nos calendários de fertilização, ajustes no manejo da pastagem e até a implementação de sistemas de drenagem para reduzir o acúmulo de água nas áreas de forragem.
Se, por outro lado, o laudo for inconclusivo, a família pode enfrentar dificuldades para obter indenizações ou apoio governamental. Isso reforça a importância de manter registros detalhados de manejo, uso de insumos e condições climáticas – documentos que podem servir de prova em eventuais processos.
Reflexões finais
O caso das 48 vacas mortas em Novo Xingu nos lembra que a agricultura familiar, embora resiliente, está à mercê de fatores ambientais que muitas vezes escapam ao controle humano. A combinação de chuva excessiva, falta de luz e manejo inadequado pode transformar pastagens em armadilhas mortais.
Para quem tem um pequeno rebanho ou pensa em iniciar na pecuária, a lição é clara: invista em monitoramento, busque orientação técnica e mantenha um plano de contingência. E, acima de tudo, valorize a solidariedade que faz parte do DNA do campo gaúcho – ela pode ser o diferencial entre a perda total e a reconstrução.
Se você conhece alguém que trabalha com gado, compartilhe essas informações. A prevenção começa com a conscientização.



