Eu sempre acompanhei o perfil 2depais nas redes sociais. Com mais de 2,5 milhões de seguidores, Gustavo e Robert pareciam ter encontrado a fórmula mágica: conteúdo autêntico, rotina de pais e, de repente, contratos milionários. Até que a história deu uma guinada assustadora e acabou virando manchete no G1.
O que aconteceu?
O casal de influenciadores foi contratado pela Hello Group, que se apresentava como a agência ideal para profissionalizar a carreira deles. O contrato, assinado em 2021, previa que a agência cuidaria de tudo: fechar campanhas, conversar com marcas, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar 70 % do valor ao influenciador, ficando com 30 % de comissão.
Mas, logo nos primeiros meses, começaram as primeiras “regras de ouro” da Hello: “nunca conte qual é o seu trabalho, nunca fale com as marcas, nunca compare preços”. Era um isolamento total, justificado como “cuidado com a imagem”. Na prática, virou um tipo de terrorismo psicológico, segundo Robert.
Descobrindo o rombo
Quando os pagamentos das campanhas começaram a atrasar, a agência sempre apresentava desculpas: “mercado difícil”, “burocracia das marcas”. Como toda a comunicação era feita apenas pela Hello, Gustavo e Robert não tinham como checar se o dinheiro realmente chegava às empresas.
Foi então que decidiram agir diferente: contataram as marcas diretamente e pediram comprovantes de pagamento. O choque foi imediato. As empresas mostraram que os valores já haviam sido quitados meses antes, enquanto a agência alegava que ainda não os tinha recebido.
Com planilhas próprias, cruzaram datas, valores e perceberam que o “rombo” ultrapassava R$ 500 mil. O contrato dizia que a agência ficava com 30 % – mas, na prática, parecia que a Hello estava retendo quase tudo.
Consequências no dia a dia
Além do estresse financeiro, a situação trouxe problemas práticos. O casal precisou emitir notas fiscais sem ter o dinheiro em mãos, acumulando mais de R$ 40 mil em impostos parcelados. A saúde também foi afetada: Robert desenvolveu uma doença autoimune ligada ao estresse e ambos viveram momentos de insegurança e desconfiança.
O ponto crítico aconteceu quando a filha do casal ficou gravemente doente. No caminho para o hospital, receberam o primeiro comprovante de que, de fato, a campanha já havia sido paga há meses. “Ali, a ficha caiu”, lembra Gustavo.
O que a justiça decidiu
Com a documentação em mãos, buscaram um advogado que levou o caso ao Ministério Público, alegando apropriação indébita majorada. O juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes, porém, considerou que não havia provas suficientes para bloquear bens da agência, mas determinou que uma patrocinadora de R$ 42 mil pagasse a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Por que isso importa para você?
Se você é criador de conteúdo, freelancer ou simplesmente pensa em contratar uma agência para gerenciar sua carreira, essa história serve de alerta. A confiança cega pode transformar um parceiro estratégico em um risco enorme.
- Transparência financeira: exija relatórios detalhados, comprovantes de pagamento e acesso a todos os contratos.
- Limite de exclusividade: cláusulas que impeçam contato direto com marcas podem ser abusivas.
- Cláusulas de rescisão: tenha previsões claras sobre como encerrar o contrato caso algo dê errado.
- Conta bancária própria: prefira repasses diretos ou contas de garantia em vez de depender de terceiros.
O que dizem os especialistas?
A advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, reforça que contratos bem redigidos são a primeira linha de defesa. Ela recomenda que o influenciador tenha direito a solicitar, a qualquer momento, cópias de contratos, notas fiscais e comprovantes de pagamento. “A falta desses documentos aumenta drasticamente o risco de perdas financeiras e danos à reputação”, alerta.
Além disso, Itaborahy aponta que cláusulas que proíbem totalmente o contato direto com marcas podem ser contestadas judicialmente por violarem princípios de boa‑fé.
O que podemos esperar no futuro?
O caso ainda está em andamento, mas já gerou um efeito dominó: outros influenciadores começaram a relatar situações semelhantes com a mesma agência. Isso indica que o problema pode ser estrutural, não um caso isolado.
É provável que, nos próximos anos, haja mais regulamentação sobre a relação entre criadores de conteúdo e agências. Já existem discussões no Congresso sobre a necessidade de normas específicas para o mercado de influenciadores, que ainda opera em grande parte sem regras claras.
Enquanto isso, a melhor estratégia continua sendo a informação. Compartilhar experiências, como fez o casal 2depais, ajuda a construir um ambiente mais seguro para todos.
Conclusão
O caso da Hello Group mostra que, mesmo em um mercado que parece cheio de oportunidades, a falta de transparência pode custar muito mais do que dinheiro – pode custar tranquilidade, saúde e até a confiança nas relações profissionais. Se você está pensando em contratar uma agência, faça sua lição de casa, exija documentos e, sobretudo, mantenha um canal direto com as marcas. Assim, você diminui as chances de ser a próxima vítima de um rombo de meio milhão de reais.



