Se você acompanha o universo dos criadores de conteúdo, já deve ter ouvido falar das agências que prometem transformar seguidores em dinheiro. Mas o que acontece quando a promessa vira um pesadelo financeiro? É exatamente isso que vivenciou o casal Gustavo Catunda e Robert Rosselló, conhecidos pelo perfil 2depais, que acumulam mais de 2,5 milhões de seguidores. Eles descobriram, quase por acidente, um rombo de mais de R$ 500 mil em pagamentos que a agência Hello Group dizia não ter recebido.
O início da parceria: confiança cega
A história começou em 2021, quando o casal ainda postava a rotina de um futuro pai. O dono da Hello Group apareceu com a proposta de “profissionalizar” o conteúdo, oferecendo exclusividade total: a agência cuidaria de fechar campanhas, negociar com marcas, emitir notas fiscais, receber os pagamentos e repassar 70% ao influenciador, ficando com 30% de comissão. Na época, tudo parecia perfeito. As campanhas começaram a chegar, o número de seguidores disparou e a família se mudou para São Paulo, acreditando que tinham encontrado o parceiro ideal.
As primeiras falhas: atrasos “pontuais” e instruções de isolamento
Com o tempo, os atrasos nos repasses foram se tornando frequentes. A agência, porém, sempre tinha uma desculpa pronta: “o mercado está difícil”, “as marcas estão confusas”, ou ainda “há muita burocracia”. Além disso, os influenciadores foram instruídos a não falar com marcas, nem comparar preços com outros criadores, nem manter contato direto com quem não fosse a Hello Group. Essa “proteção da imagem” acabou se transformando em um tipo de terrorismo psicológico, onde tudo era centralizado em um único ponto.
O ponto de ruptura: a descoberta do rombo
Em 2024, a situação saiu do controle. A filha do casal ficou gravemente doente, e, enquanto corriam para o hospital, receberam o primeiro comprovante de pagamento de uma campanha que, segundo a agência, ainda não havia sido quitada. O documento mostrava que a marca havia pago a campanha há meses. A mesma resposta se repetiu com outras empresas: os pagamentos estavam em dia, mas a agência alegava o contrário.
Percebendo que algo muito errado estava acontecendo, Gustavo e Robert criaram uma planilha própria para registrar todas as campanhas, valores e datas. Quando cruzaram os números, a diferença ultrapassou meio milhão de reais. O contrato previa que 70% do valor fosse entregue ao influenciador, mas a Hello Group não repassava nada.
Buscando justiça: advogado e Ministério Público
Com a documentação em mãos, o casal procurou um advogado especializado em direito digital. O profissional entrou em contato com o Ministério Público, alegando possível apropriação indébita majorada – crime que ocorre quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não repassa. A medida incluiu pedido de bloqueio de bens da agência e prestação de contas.
No entanto, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes, ao analisar o caso, considerou que ainda não havia provas suficientes para o bloqueio e negou o depósito judicial. Como alternativa, determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pagasse a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Consequências reais: dívidas, saúde e confiança abalada
Além do prejuízo direto, o casal teve que emitir notas fiscais sem ter o dinheiro em caixa, o que gerou dívida tributária de mais de R$ 40 mil, parcelada ao longo dos meses. O estresse também teve reflexos na saúde: Robert desenvolveu uma doença autoimune ligada ao desgaste emocional e descreveu um sentimento constante de insegurança.
O caso trouxe à tona um ponto que poucos comentam: a vulnerabilidade dos criadores de conteúdo diante de agências que detêm total controle financeiro. Quando tudo passa pela agência, o influenciador perde a capacidade de verificar se o dinheiro realmente chegou às mãos das marcas.
O que a lei diz e como se proteger
A advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, ressalta a importância de cláusulas contratuais claras. Entre os pontos essenciais, estão:
- Limitar o poder da agência, exigindo autorização prévia e por escrito para qualquer acordo.
- Garantir acesso total a contratos, comprovantes de pagamento e relatórios detalhados.
- Estabelecer prazos de repasse e multas por atrasos.
- Evitar cláusulas que proíbam totalmente o contato direto entre influenciador e marca, pois podem ser questionadas juridicamente.
Modelos mais seguros incluem repasses diretos ao influenciador, contas de garantia ou pagamentos em duas etapas – uma parte à agência e outra ao criador.
Impacto no mercado: um alerta para todos
Desde que o caso ganhou repercussão, outros influenciadores se manifestaram, relatando problemas semelhantes com a mesma agência. Isso indica que o problema pode ser sistêmico, e não um caso isolado. Para quem está começando ou já tem um público consolidado, a lição é clara: não delegue totalmente a parte financeira sem exigir transparência.
Se você está pensando em contratar uma agência, faça perguntas difíceis: quem tem acesso ao dinheiro? Posso ver os comprovantes? Qual a política de repasse? E, sobretudo, mantenha um canal direto com as marcas sempre que possível. Essa postura pode evitar surpresas desagradáveis e proteger seu negócio.
Conclusão: confiança, mas com checagem
O relato de Gustavo e Robert mostra que, no mundo digital, a confiança precisa ser acompanhada de mecanismos de controle. Agências podem ser grandes aliadas, mas também podem se tornar fontes de risco se não houver clareza nos contratos e prestação de contas. Ao entender seus direitos e exigir transparência, o influenciador garante não só o pagamento justo, mas também a tranquilidade para focar no que realmente importa: criar conteúdo autêntico.



