Na última segunda‑feira, 2 de janeiro de 2026, o ex‑presidente Donald Trump subiu ao Salão Oval em Mar‑a‑Lago e anunciou um plano que pode mudar a forma como a indústria americana lida com a escassez de minerais estratégicos. O chamado Project Vault – ou Projeto Caixa‑Forte – consiste em um estoque estratégico de minerais críticos, financiado inicialmente com US$ 10 bilhões do U.S. Export‑Import Bank e mais US$ 2 bilhões de capital privado.
Por que os minerais críticos são tão importantes?
Quando falamos de minerais críticos, estamos nos referindo a recursos como lítio, níquel, cobalto e as chamadas terras raras. Eles são a espinha dorsal de tecnologias que usamos todos os dias: baterias de veículos elétricos, smartphones, turbinas eólicas, sistemas de defesa avançados e até mesmo equipamentos médicos. A dependência desses materiais tem crescido exponencialmente nos últimos dez anos, e a maioria das reservas está concentrada em poucos países, com a China liderando a produção e o controle de preços.
O que motivou a criação do Project Vault?
Segundo Trump, “por anos, empresas americanas correram o risco de ficar sem minerais críticos durante interrupções de mercado”. Essa frase resume um medo real: se a cadeia de suprimentos for interrompida – seja por sanções, disputas comerciais ou problemas logísticos – toda a indústria nacional pode sofrer. O governo dos EUA tem tentado, nos últimos anos, reduzir essa vulnerabilidade, mas as medidas anteriores foram pontuais e pouco eficazes.
Pressões geopolíticas
A China tem sido acusada de manipular preços e limitar exportações de minerais estratégicos. Essa prática afeta diretamente montadoras de veículos elétricos, como a General Motors, que enviou sua CEO Mary Barra ao evento, além de gigantes da tecnologia que dependem de terras raras para chips avançados.
Iniciativas legislativas
No mês passado, um grupo bipartidário de congressistas propôs um projeto de lei para criar um estoque de US$ 2,5 bilhões em minerais críticos. O Project Vault, porém, eleva esse investimento a quase cinco vezes esse valor, sinalizando que o Executivo quer agir de forma mais rápida e robusta.
Como o estoque vai funcionar na prática?
O plano prevê a compra e armazenagem de minerais suficientes para garantir, no mínimo, 60 dias de suprimento em caso de emergência. A ideia é semelhante ao modelo de compras em grande volume da Costco: adquirir grandes quantidades quando os preços estão favoráveis e manter reservas estratégicas.
- Financiamento: US$ 10 bilhões do EXIM Bank + US$ 2 bilhões de capital privado.
- Operadores: Empresas como Hartree Partners, Traxys North America e Mercuria Energy Group serão responsáveis pela compra e logística.
- Beneficiários: Montadoras, fabricantes de eletrônicos, empresas de defesa e demais indústrias que dependem de minerais críticos.
Além de proteger as empresas de flutuações de preço, o estoque também deve incentivar a mineração doméstica, já que a demanda garantida pelo governo cria um mercado mais estável para projetos de extração e refino nos EUA.
Impactos econômicos e industriais
Na hora do anúncio, as ações de companhias como MP Materials e USA Rare Earth Inc dispararam. Isso demonstra que o mercado já percebeu o potencial de valorização desses ativos. Mas quais são os efeitos reais para a economia americana?
- Redução de riscos financeiros: Empresas podem planejar investimentos de longo prazo sem temer rupturas de suprimento.
- Criação de empregos: A expansão da mineração e do refino nacional gera postos de trabalho em regiões que antes dependiam de importações.
- Competitividade global: Um estoque sólido coloca os EUA em melhor posição nas negociações comerciais e nas disputas tecnológicas.
- Estímulo à inovação: Garantir matéria‑prima pode acelerar o desenvolvimento de novas baterias e tecnologias de defesa.
Por outro lado, há críticas. Alguns analistas apontam que o custo de manter reservas pode ser alto e que o governo pode acabar atrapalhando o mercado livre, criando distorções de preço. Também há preocupações ambientais sobre a expansão da mineração interna.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
Embora o Project Vault seja uma iniciativa norte‑americana, seus efeitos podem chegar até nós, no Brasil. Primeiro, a competição por minerais críticos pode subir os preços globais, impactando o custo de veículos elétricos e eletrônicos importados. Em segundo lugar, o movimento dos EUA pode pressionar a China a reduzir sua hegemonia, o que pode abrir oportunidades para mineradoras brasileiras que já produzem níquel e cobre.
Empresas brasileiras de automóveis, como a Volkswagen do Brasil, podem sentir a necessidade de buscar fornecedores alternativos ou até investir em parcerias nos EUA para garantir o acesso a esses recursos. Além disso, o aumento da demanda por minerais críticos pode incentivar investimentos em projetos de extração no território nacional, especialmente em estados como Minas Gerais e Pará, que já possuem reservas de terras raras.
Desafios e perspectivas futuras
O sucesso do Project Vault dependerá de alguns fatores críticos:
- Capacidade de compra: O governo precisará negociar contratos favoráveis com fornecedores globais, sem inflacionar demais os preços.
- Logística de armazenamento: Minerais como lítio exigem condições específicas de segurança e temperatura.
- Coordenação com a iniciativa privada: O envolvimento de empresas privadas é essencial para trazer expertise e capital.
- Apoio político contínuo: Mudanças de administração podem alterar a prioridade do projeto.
Se bem executado, o Project Vault pode servir como modelo para outros países que também buscam reduzir sua vulnerabilidade estratégica. Já se houver falhas na gestão ou na alocação de recursos, o projeto pode acabar sendo mais um gasto público sem retorno real.
Conclusão
O anúncio de Trump sobre o estoque estratégico de US$ 12 bilhões em minerais críticos representa uma resposta direta a um dos maiores desafios da era tecnológica: a segurança do abastecimento de recursos essenciais. Para os EUA, a medida pode significar mais estabilidade industrial, maior competitividade global e um impulso ao desenvolvimento de tecnologias limpas.
Para o resto do mundo, inclusive o Brasil, a iniciativa traz lições importantes sobre a necessidade de diversificar fontes, investir em mineração sustentável e estar atento às movimentações geopolíticas que podem mudar rapidamente o preço e a disponibilidade desses minerais. Independentemente de onde você esteja, vale a pena acompanhar de perto como esse estoque evoluirá nos próximos anos, pois seus efeitos podem reverberar em nossas carteiras, em nossos carros e até mesmo em nossos smartphones.



