## Introdução: um salto inesperado na bolsa
Na última semana, eu estava acompanhando as notícias do mercado e me deparei com um número que chamou a atenção: as ações da Copasa (CSMG3) subiram mais de 100% em 2025. De R$ 20,53 no início de janeiro, elas fecharam a última quinta‑feira em R$ 42,91. Essa valorização não aconteceu por acaso – está diretamente ligada ao debate sobre a privatização da empresa de saneamento de Minas Gerais.
Se você não acompanha o mercado de ações, pode estar se perguntando: “Mas o que isso tem a ver comigo?” A resposta é simples. A Copasa fornece água e coleta esgoto para a maior parte dos municípios mineiros, o que afeta a vida de milhões de pessoas. Quando a estrutura de uma empresa tão essencial muda, todo mundo sente o impacto – seja no preço da conta de água, na qualidade do serviço ou até nas oportunidades de investimento.
Neste post, vou destrinchar o que está acontecendo, analisar os números, explicar como a privatização pode mudar o cenário e, principalmente, trazer reflexões práticas para quem vive em Minas ou tem interesse no setor de saneamento no Brasil.
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## 1. O que desencadeou a alta de 100% nas ações?
### 1.1 Aprovação do projeto de lei na Assembleia Legislativa
Em 17 de julho, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou o Projeto de Lei que autoriza a desestatização da Copasa. O texto ainda precisa ser sancionado pelo governador Romeu Zema, mas a simples aprovação já foi suficiente para acionar os investidores. Quando há a perspectiva de que um ativo estatal será vendido ou transformado em “corporation”, o mercado costuma reagir rapidamente, pois se abre a porta para capital privado, novos investimentos e, potencialmente, maiores lucros.
### 1.2 Expectativa de modernização e investimento
Zema tem defendido a privatização como a solução para modernizar a Copasa, atrair recursos que o Estado não tem e, ainda, ajudar a pagar a dívida de R$ 180 bilhões que Minas tem com a União. Para os investidores, isso significa um cenário onde a empresa pode receber injeções de capital, melhorar sua eficiência operacional e, quem sabe, expandir serviços que ainda não chegam a todos os cantos do estado.
### 1.3 O efeito “golden share”
Mesmo que o Estado perca o controle majoritário (de 50,03% para menos), ele ainda manterá uma “golden share” – uma ação preferencial que dá veto em decisões estratégicas como mudança de nome, sede ou alterações no direito de voto. Essa segurança para o governo também tranquiliza parte do mercado, pois garante que o interesse público não será totalmente deixado de lado.
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## 2. Como a Copasa está hoje: números que valem a pena conhecer
### 2.1 Cobertura de água e esgoto
– **Água:** 637 municípios atendidos, representando 75% dos municípios de MG, com cobertura acima de 99% (meta 2033: 99%).
– **Esgoto:** 308 municípios com coleta, cobertura atual de 78,4% (meta 2033: 90%).
### 2.2 Desempenho financeiro recente
| Indicador | 2024 | 1T‑3T 2025 |
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| Lucro líquido | R$ 1,3 bi | R$ 1,07 bi |
| Receita líquida (água, esgoto, resíduos) | R$ 1,78 bi | R$ 1,84 bi (+3,4%) |
| EBITDA | R$ 725,7 mi | R$ 726,9 mi (margem 39,3%) |
| Investimentos consolidados | R$ 1,58 bi | R$ 2,0 bi (+26%) |
| Unidade consumidoras de água | 5,68 mi | 5,76 mi |
| Unidade consumidoras de esgoto | 4,12 mi | 4,24 mi |
| Índice de perdas | 38,4% | 37,3% |
Esses números mostram que a Copasa tem mantido lucro sólido, aumentado receitas e investido pesado em infraestrutura – tudo isso enquanto ainda enfrenta perdas elevadas na distribuição (mais de 35%). O ponto de atenção para quem acompanha o setor é a necessidade de reduzir essas perdas, que impactam diretamente o preço final pago ao consumidor.
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## 3. O que a privatização pode mudar na prática?
### 3.1 Possíveis modelos de desestatização
1. **Alienação total ou parcial** – venda das ações do Estado em leilão para um comprador privado.
2. **Aumento de capital** – emissão de novas ações que são subscritas por investidores privados, diluindo a participação estatal.
Em ambos os casos, a empresa deixaria de ser controlada majoritariamente pelo governo, mas ainda poderia manter a “golden share” para garantir que decisões estratégicas não prejudiquem a população.
### 3.2 Impactos esperados nos serviços
– **Qualidade do abastecimento:** Investimento privado costuma trazer tecnologias mais avançadas, monitoramento em tempo real e manutenção preventiva. Isso pode significar menos interrupções e água com melhor qualidade.
– **Tarifas:** Aqui o ponto é delicado. Empresas privadas buscam retorno sobre investimento, o que pode levar a aumentos tarifários. Contudo, a regulação da Agência Nacional de Águas (ANA) tem limites para evitar abusos. O equilíbrio entre eficiência e preço será o grande desafio.
– **Expansão do esgoto:** O investimento de R$ 16,9 bi previsto até 2029 pode ganhar velocidade com capital privado, ajudando Minas a alcançar a meta de 90% de cobertura de esgoto até 2033.
– **Empregos:** A Copasa tem quase 10 mil funcionários. Em processos de privatização, costuma haver reestruturações, mas também surgem oportunidades em áreas de gestão, tecnologia e manutenção avançada.
### 3.3 Riscos a considerar
– **Concentração de mercado:** Se o comprador for um grande conglomerado do setor, pode haver pouca competição, o que pode afetar a qualidade e o preço.
– **Desinvestimento em áreas menos rentáveis:** Regiões mais remotas ou com baixa densidade populacional podem ser menos atrativas para investidores, colocando em risco a universalização do serviço.
– **Pressão regulatória:** Caso a regulação não acompanhe a nova realidade, pode haver lacunas que prejudiquem o consumidor.
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## 4. O que isso significa para o cidadão mineiro?
### 4.1 Na conta de água
Se a Copasa for privatizada, é provável que a conta de água passe por revisões tarifárias a médio prazo. O que você pode fazer agora?
– **Fique atento ao consumo:** Reduzir vazamentos, instalar torneiras com arejadores e adotar hábitos de consumo consciente diminuem o valor da conta, independentemente da tarifa.
– **Exija transparência:** Acompanhe os relatórios da ANA e participe das audiências públicas sobre reajustes.
### 4.2 Na qualidade do serviço
A modernização pode trazer melhorias como:
– **Monitoramento digital:** Sensores que detectam falhas em tempo real, evitando interrupções prolongadas.
– **Melhor tratamento de água:** Tecnologias de filtragem avançada que reduzem a necessidade de tratamentos químicos.
Mas, se houver falhas, a população deve cobrar a empresa e os órgãos reguladores – a “golden share” pode ser um aliado nessa luta.
### 4.3 Oportunidades de investimento
Para quem tem interesse em investir, a Copasa pode se tornar uma opção atrativa:
– **Ações mais baratas:** Depois da alta de 100%, o preço ainda pode ser considerado razoável comparado a outras utilities.
– **Dividendos:** Historicamente, a Copasa tem distribuído dividendos consistentes. A entrada de capital privado pode aumentar a lucratividade e, consequentemente, os dividendos.
Entretanto, lembre‑se de diversificar e analisar o risco de mudanças regulatórias.
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## 5. Como a privatização se encaixa no cenário nacional de saneamento
### 5.1 O Novo Marco do Saneamento (2013)
O Brasil estabeleceu metas ambiciosas: 99% de cobertura de água e 90% de esgoto até 2033. Até agora, poucos estados chegaram perto desses números. A Copasa, com 99% de água e 78% de esgoto, está na frente de muitos concorrentes, mas ainda tem um caminho a percorrer.
### 5.2 Tendência de desestatização
Nos últimos anos, vemos um movimento de privatizações em setores estratégicos – energia, aeroportos, portos e, agora, saneamento. O argumento central é que o capital privado tem maior capacidade de financiar grandes obras sem sobrecarregar o erário.
### 5.3 O que isso pode inspirar em outros estados?
Se a experiência mineira for bem‑sucedida – com melhorias de serviço, investimentos cumpridos e tarifas controladas – é provável que outros estados sigam o mesmo caminho. Por outro lado, se houver problemas, o debate sobre a eficácia da privatização será ainda mais intenso.
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## 6. Perguntas que ainda ficam no ar
– **Qual será o preço final da conta de água?** Ainda não há previsão oficial. A regulação será crucial.
– **Quem pode comprar a Copasa?** Leilões abertos a investidores nacionais e estrangeiros, ou aumento de capital aberto a novos acionistas.
– **O Estado vai perder totalmente o controle?** Não totalmente. A “golden share” garante veto em decisões estratégicas.
– **Quando a privatização será efetivada?** Depende da sanção do governador e da definição do modelo de venda.
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## 7. Conclusão: vale a pena ficar de olho?
Eu acredito que a privatização da Copasa será um dos capítulos mais interessantes da economia mineira nos próximos anos. A valorização das ações já mostra que o mercado tem expectativas altas, mas o que realmente importa são os impactos no cotidiano das pessoas: água de qualidade, contas justas e serviços de esgoto que cubram todo o estado.
Se você mora em Minas, vale a pena acompanhar as discussões na Assembleia, participar das audiências públicas e, quem sabe, até considerar a Copasa como parte da sua carteira de investimentos. Se você está em outro estado, o caso serve como um estudo de como a combinação entre capital privado e regulação pode (ou não) melhorar um serviço essencial.
A mensagem final? Não se trata apenas de números na bolsa, mas de como garantimos que a água que sai da torneira seja segura, que o esgoto seja tratado corretamente e que o preço que pagamos seja justo. Fique atento, questione, e, acima de tudo, continue economizando água – porque, no fim das contas, o recurso mais precioso não tem preço.
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