Nos últimos anos, a conversa sobre saúde mental no ambiente corporativo tem ganhado cada vez mais atenção. Mas, apesar de todo o discurso, a realidade ainda parece distante para a maioria dos trabalhadores no Brasil. Uma pesquisa global chamada Work Relationship Index, realizada pela HP, trouxe números que dão uma cara bem crua do que está acontecendo nas nossas empresas.
Primeiro, vamos entender o panorama geral. A pesquisa entrevistou 18.200 profissionais de escritório em 14 países, e no Brasil participaram 1,3 mil pessoas. Os resultados foram divididos em três “zonas” que funcionam como uma auto‑avaliação da relação que cada um tem com o trabalho: Zona Saudável, Zona de Atenção e Zona Crítica.
O que chama atenção? Apenas 29% dos brasileiros se consideram na “Zona Saudável” – a menor taxa entre os países analisados. Por outro lado, a “Zona Crítica” já engloba 34% dos profissionais, um aumento de 9 pontos percentuais em relação a 2024. Ou seja, cada vez mais gente sente que está à beira do desgaste emocional.
Pressão diária: o que realmente pesa nas costas dos trabalhadores?
Para 71% dos entrevistados, as exigências e expectativas das empresas aumentaram no último ano. Não basta mais cumprir metas; parece que a cobrança virou um ritmo constante, sem que as recompensas acompanhem. Essa sensação de “mais trabalho, menos reconhecimento” afeta diretamente o humor e a motivação.
Um dado que reforça essa ideia: 39% dos profissionais acreditam que as empresas priorizam o lucro em detrimento das pessoas. Quando o foco está apenas no resultado financeiro, o bem‑estar dos colaboradores acaba ficando em segundo plano.
Flexibilidade ainda é um sonho distante
O modelo híbrido, que ganhou força durante a pandemia, ainda não encontrou seu caminho completo nas organizações brasileiras. 68% dos entrevistados gostariam de passar menos dias no escritório. Essa demanda por flexibilidade reflete uma mudança de expectativa: o trabalhador quer equilibrar vida pessoal e profissional, mas muitas empresas ainda mantêm políticas rígidas.
Essa desconexão entre o que os funcionários desejam e o que as empresas oferecem pode ser um dos motores do desgaste emocional. Quando o contrato social do trabalho deixa de ser negociado, a sensação de estar preso a um ambiente pouco acolhedor aumenta.
Tecnologia: aliada ou privilégio de poucos?
Não dá para negar que a tecnologia tem um papel importante. 88% dos brasileiros afirmam que as ferramentas digitais ajudam a equilibrar a vida profissional e pessoal. Além disso, 90% utilizam algum tipo de inteligência artificial (IA) no dia a dia. Isso demonstra que a tecnologia já está integrada ao nosso jeito de trabalhar.
Entretanto, o acesso não é uniforme. Enquanto 49% dos tomadores de decisão de TI usam IA diariamente, apenas 25% dos trabalhadores de escritório têm esse mesmo nível de uso. A diferença de acesso pode gerar uma nova forma de desigualdade dentro da própria empresa.
Outro ponto crítico é a capacitação. Em 2025, 67% das empresas oferecem treinamento adequado para IA, uma queda em relação aos 79% da edição anterior. Sem preparo, a tecnologia pode acabar gerando mais frustração do que alívio.
Geração Z: a nova cara da pressão
Os jovens profissionais, especialmente a Geração Z, sentem a pressão de forma ainda mais intensa. Eles lideram a busca por modelos de trabalho mais flexíveis, valorizando autonomia e acesso à tecnologia acima de salários altos. Surpreendentemente, 90% desses profissionais aceitariam ganhar menos se isso significasse mais flexibilidade e uso de ferramentas modernas.
Além disso, 57% dos jovens já têm uma fonte de renda extra. Essa prática, que antes era vista como algo incomum, agora se tornou estratégia para complementar o salário e ganhar mais controle sobre o tempo. Essa necessidade de renda adicional também indica que o modelo tradicional de emprego ainda não supre todas as necessidades financeiras da nova geração.
Intergeracionalidade: um caminho para aliviar tensões?
O estudo aponta que a convivência entre diferentes gerações pode ser benéfica. Profissionais das gerações X e Baby Boomers reconhecem o valor da troca de experiências, especialmente no aprendizado de novas ferramentas digitais. Quando há respeito e colaboração entre idades, a pressão pode ser distribuída de forma mais equilibrada.
Mas, para que isso funcione, as empresas precisam criar ambientes onde o diálogo seja incentivado, e onde a aprendizagem mútua seja parte da cultura organizacional.
O que isso significa para você?
Se você se reconhece em algum desses pontos – seja a sensação de estar sobrecarregado, a falta de reconhecimento ou a vontade de trabalhar menos dias presenciais – saiba que não está sozinho. A pesquisa mostra que esses sentimentos são compartilhados por grande parte da força de trabalho no Brasil.
Algumas ações práticas que podem ajudar:
- Autoavaliação regular: Reserve um tempo semanal para refletir sobre como está se sentindo em relação ao trabalho. Identifique sinais de alerta antes que eles evoluam para burnout.
- Conversa aberta com gestores: Leve seus pontos de vista sobre carga de trabalho e reconhecimento. Muitas vezes, a falta de comunicação gera percepções equivocadas.
- Invista em habilidades digitais: Mesmo que sua empresa ainda não ofereça treinamentos, procure cursos online gratuitos ou pagos que possam melhorar seu domínio de IA e outras ferramentas.
- Explore modelos híbridos: Se a empresa ainda não tem política flexível, proponha um piloto de dias de home office. Dados mostram que a flexibilidade aumenta a produtividade.
Em última análise, a mudança começa com a conscientização. Quando reconhecemos que a pressão excessiva e a falta de reconhecimento são problemas reais, podemos buscar soluções – seja individualmente ou coletivamente.
Fique de olho nas próximas pesquisas e nas discussões sobre saúde mental no trabalho. O futuro do mercado de trabalho brasileiro pode ainda estar em formação, mas já dá para perceber que a tecnologia, a flexibilidade e a atenção às diferenças geracionais serão pilares fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos profissionais.



