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Pressão, Falta de Reconhecimento e Desgaste Emocional: O Que Realmente Está Acontecendo no Trabalho dos Brasileiros

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Pressão, Falta de Reconhecimento e Desgaste Emocional: O Que Realmente Está Acontecendo no Trabalho dos Brasileiros

Se você tem sentido que o trabalho está cada vez mais pesado, não está sozinho. Uma pesquisa global chamada Work Relationship Index, feita pela HP, trouxe números que dão um retrato bem cru da relação dos brasileiros com o emprego. O resultado? Apenas 29% dos profissionais se consideram na “Zona Saudável” – ou seja, menos de um terço sente que tem equilíbrio entre demandas e bem‑estar. O Brasil ainda está acima da média mundial, mas isso não é motivo de orgulho, e sim de alerta.



Como surgiram as zonas e o que elas significam?

A pesquisa divide os trabalhadores em três categorias: “Zona Saudável”, “Zona de Atenção” e “Zona Crítica”. A primeira indica que a pessoa tem controle sobre a carga de trabalho, sente reconhecimento e consegue separar vida pessoal e profissional. A segunda é um sinal de alerta: há indícios de estresse, mas ainda não chegou ao ponto de esgotamento. Já a “Zona Crítica” representa o pior cenário – desgaste emocional intenso, sensação de que o esforço não é recompensado e risco alto de burnout. Em 2024, 34% dos brasileiros estavam nessa zona, um aumento de 9% em relação ao ano anterior.

Pressão diária: o que os números revelam?

Para 71% dos entrevistados, as exigências das empresas cresceram nos últimos 12 meses. A percepção geral é que o trabalho está cobrando mais, mas as recompensas – sejam elas financeiras, de reconhecimento ou de desenvolvimento – não acompanham. Isso gera um desequilíbrio que se reflete diretamente no humor e na motivação. Quase 40% dos profissionais acreditam que as organizações priorizam o lucro em detrimento das pessoas. Quando o foco está apenas no resultado, o colaborador sente que seu esforço não tem valor humano.



Flexibilidade: o desejo que ainda não se concretiza

O modelo híbrido parece ser a solução para muitos, mas a realidade ainda está longe disso. Cerca de 68% dos brasileiros gostariam de reduzir os dias presenciais no escritório. A resistência das empresas em adotar políticas mais flexíveis cria um descompasso entre o que os trabalhadores desejam e o que recebem. Essa falta de autonomia pode intensificar a sensação de estar preso a um regime que não se adapta às necessidades individuais.

O papel da tecnologia: aliada ou mais um peso?

Surpreendentemente, 88% dos profissionais afirmam que a tecnologia ajuda a equilibrar vida profissional e pessoal. Ferramentas digitais, plataformas de gestão de tarefas e, cada vez mais, a inteligência artificial (IA) são vistas como facilitadoras. No Brasil, 90% dos entrevistados já utilizam algum tipo de IA no dia a dia, seja para automatizar processos, analisar dados ou gerar insights.

No entanto, o acesso à IA não é igual para todos. Enquanto quase metade (49%) dos tomadores de decisão de TI usam IA diariamente, apenas 25% dos trabalhadores de escritório têm o mesmo nível de uso. Essa diferença reflete uma lacuna de capacitação: em 2025, 67% das empresas oferecerão treinamento adequado, contra 79% na edição anterior. Ou seja, o investimento em treinamento está diminuindo, o que pode limitar o potencial de melhora do bem‑estar.



Inteligência artificial e a “Zona Saudável”

Existe uma correlação interessante: entre os que estão na “Zona Saudável”, 44% utilizam IA todos os dias. Já na “Zona Crítica”, esse número cai consideravelmente. Embora a relação causal ainda precise ser estudada, fica claro que quem tem mais acesso a ferramentas avançadas sente menos sobrecarga, possivelmente porque consegue automatizar tarefas repetitivas e ganhar tempo para atividades de maior valor.

Geração Z: pressão, flexibilidade e renda extra

Os jovens profissionais são os que mais sentem a pressão. A Geração Z lidera a busca por modelos de trabalho mais flexíveis, autonomia e acesso à tecnologia – até aceitando salários menores em troca desses benefícios. Cerca de 90% desses profissionais diriam que preferem flexibilidade a um aumento salarial. Além disso, 57% já têm uma fonte de renda extra, seja freelancer, gig economy ou pequenos negócios. Essa estratégia serve tanto para complementar a renda quanto para ganhar mais controle sobre o próprio tempo.

Intergeracionalidade como solução

Apesar das tensões, a pesquisa aponta que a convivência entre gerações pode ser um ponto de alívio. Profissionais das gerações X e Baby Boomers reconhecem o valor da troca de experiências, especialmente no aprendizado de novas ferramentas digitais. Quando há mentoria e compartilhamento de conhecimento, a resistência ao novo diminui e o ambiente se torna mais colaborativo.

O que podemos fazer a partir de agora?

Se você se identificou com algum desses pontos, aqui vão algumas sugestões práticas:

  • Autoavaliação regular: reserve tempo a cada mês para refletir sobre como está sua relação com o trabalho. Use perguntas simples – sinto que minhas contribuições são reconhecidas? Estou sobrecarregado?
  • Comunicação aberta: converse com gestores sobre carga de trabalho e expectativas. Muitas vezes, ajustes simples podem aliviar a pressão.
  • Buscar capacitação: invista em cursos de IA, automação ou ferramentas de produtividade. Mesmo que a empresa não ofereça treinamento, há muitas opções gratuitas online.
  • Negociar flexibilidade: apresente um plano de trabalho híbrido que mostre como a flexibilidade pode aumentar sua produtividade.
  • Cuidar da saúde mental: pratique técnicas de respiração, meditação ou atividade física. Pequenos hábitos diários ajudam a reduzir o estresse acumulado.

Em última análise, a responsabilidade não recai só nas empresas. Cada um de nós tem um papel em construir uma relação mais saudável com o trabalho. Reconhecer os sinais de desgaste, buscar apoio e usar a tecnologia a nosso favor são passos essenciais para sair da “Zona Crítica” e encontrar o equilíbrio que todos desejamos.