Nos últimos meses, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem falado abertamente sobre a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela. Não é só um discurso de guerra; há uma rede de interesses econômicos, geopolíticos e estratégicos que explicam o que, à primeira vista, parece ser apenas mais um caso de “luta contra o narcotráfico”.
O pano de fundo: petróleo como carta na manga
A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta – cerca de 303 bilhões de barris, o que representa 17% das reservas globais. Esse número coloca o país à frente de gigantes como Arábia Saudita e Irã. Mas há um detalhe importante: a maior parte desse petróleo é extra‑pesado, um tipo que exige tecnologia avançada e investimentos altos para ser extraído e refinado.
Para os EUA, isso tem duas implicações claras:
- Baratear o combustível interno: Refinações ao longo da Costa do Golfo são adequadas ao petróleo venezuelano. Se o acesso fosse garantido, poderia reduzir o preço da gasolina nos EUA, aliviando o bolso dos americanos.
- Pressionar o governo de Nicolás Maduro: Ao controlar (ou ameaçar) a principal fonte de receita da Venezuela, Washington ganha alavanca para forçar mudanças políticas.
Especialistas como Marcos Sorrilha, da Unesp, afirmam que a estratégia de Trump tem como objetivo “reduzir preços internos e, assim, aliviar o custo de vida”. Em outras palavras, a política externa vira ferramenta de política doméstica.
China: a rival que não pode ser ignorada
Depois das sanções americanas, a China se tornou o maior comprador do petróleo venezuelano. Em 2023, cerca de 68% das exportações de petróleo bruto da Venezuela foram para a China, que já concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década, usando o petróleo como garantia.
Essa relação coloca a Venezuela no tabuleiro geopolítico como um ponto de apoio da China na América Latina. Para Trump, impedir que a China consolide essa influência é tão importante quanto o próprio petróleo.
- Segurança regional: Uma presença chinesa forte na região poderia mudar o equilíbrio de poder no hemisfério ocidental.
- Interesses econômicos: Empresas americanas desejam acessar novos mercados e projetos de infraestrutura, algo que a China tem feito há anos.
Carolina Moehlecke, da FGV, ressalta que a China tem emprestado dinheiro à Venezuela em troca de petróleo, o que cria um vínculo econômico que os EUA consideram uma ameaça direta à sua hegemonia.
A Doutrina Monroe reinventada
A Casa Branca divulgou recentemente um documento que cita explicitamente a Doutrina Monroe – a política de 1823 que dizia que intervenções europeias no hemisfério ocidental seriam vistas como ameaças aos EUA. A diferença hoje é que o “invasor” potencial não é europeu, mas asiático.
Segundo o texto, Washington pretende “retomar” os princípios da Doutrina para garantir segurança e prosperidade na América Latina. Na prática, isso significa:
- Reforçar presença militar no Caribe e no Pacífico.
- Aplicar sanções econômicas mais duras contra governos que se alinham à China.
- Promover acordos comerciais que favoreçam empresas americanas.
Marcos Sorrilha compara essa postura à “Open Door Policy” do início do século XX, quando os EUA buscavam abrir mercados latino‑americanos para suas indústrias, usando a força quando necessário.
O que isso significa para o cidadão comum?
Para quem não acompanha a política internacional todos os dias, a disputa parece distante. Mas os efeitos podem chegar ao nosso dia a dia de várias formas:
- Preço dos combustíveis: Se os EUA conseguirem garantir acesso ao petróleo venezuelano, isso pode refletir em preços menores nas bombas.
- Mercado de trabalho: Empresas americanas podem abrir filiais na Venezuela, criando oportunidades (ou concorrência) para profissionais brasileiros que queiram trabalhar no exterior.
- Segurança regional: Um aumento da presença militar dos EUA no Caribe pode trazer mais patrulhas e, teoricamente, reduzir o tráfico de drogas. Por outro lado, pode gerar tensões com países vizinhos.
- Relações diplomáticas: O Brasil tem se aproximado dos EUA nos últimos meses, em parte por causa do petróleo. Isso pode influenciar acordos comerciais, investimentos em energia e até a agenda ambiental.
Perspectivas para o futuro
O cenário ainda está em formação. Alguns analistas acreditam que Trump pode usar a ameaça de força como moeda de troca para fechar acordos de petróleo mais vantajosos. Outros veem risco de escalada militar que poderia desestabilizar ainda mais a região.
O que parece certo é que a Venezuela continuará sendo um ponto de convergência entre os grandes interesses globais: energia, finanças e geopolítica. Enquanto isso, a China provavelmente vai intensificar seus investimentos, e os EUA vão buscar maneiras de conter essa expansão sem abrir mão de suas próprias ambições econômicas.
Para nós, brasileiros, o melhor caminho é acompanhar de perto essas movimentações, entender como elas podem afetar nossa economia e, principalmente, cobrar dos nossos representantes políticas que garantam soberania nacional e benefícios reais para a população.
Em resumo, a ofensiva de Trump na Venezuela não é apenas sobre drogas ou “regime corrupto”. É uma estratégia multifacetada que mistura petróleo, rivalidade com a China e o ressurgimento de uma velha doutrina americana. O futuro da América Latina pode muito bem depender de como esses interesses se equilibrarão nos próximos anos.



