Quando eu leio notícias sobre a política externa dos Estados Unidos, sempre fico com a sensação de que há muito mais por trás dos manchetes do que o que aparece nas primeiras linhas. A recente ofensiva de Donald Trump contra a Venezuela é um exemplo perfeito: não se trata apenas de “combate ao tráfico de drogas” ou de “defender a democracia”. Há um emaranhado de interesses econômicos, estratégicos e até históricos que vale a pena destrinchar.
O pano de fundo: Venezuela, petróleo e sanções
A Venezuela tem a maior reserva comprovada de petróleo do planeta – cerca de 303 bilhões de barris, o que representa quase 17% das reservas globais. Esse número impressiona, mas há um detalhe importante: a maior parte desse petróleo é extra‑pesado, ou seja, precisa de tecnologia avançada e muito investimento para ser extraído e refinado.
Por causa das sanções impostas pelos EUA, a indústria venezuelana está praticamente paralisada. As refinarias americanas, especialmente as da Costa do Golfo, poderiam usar esse petróleo pesado a seu favor, reduzindo custos de produção e, teoricamente, abaixando o preço dos combustíveis nos EUA.
Por que o petróleo venezuelano interessa a Trump?
Para entender, imagine o seguinte cenário: o preço da gasolina nos Estados Unidos sobe e o presidente sente a pressão dos eleitores. Uma forma de aliviar esse desconforto seria garantir acesso a um petróleo barato e abundante. É exatamente isso que o professor Marcos Sorrilha, da Unesp, aponta – Trump vê na Venezuela uma oportunidade de “baratear” o combustível doméstico.
Mas não é só questão de preço. A presença de petróleo venezuelano no mercado americano também abriria espaço para empresas norte‑americanas investirem em infraestrutura de extração e refino, criando empregos e gerando lucros. Em resumo, duas metas ao mesmo tempo: aliviar o bolso do cidadão americano e abrir novos mercados para as indústrias dos EUA.
A China entra no tabuleiro
Enquanto os EUA apertam o cerco, a China tem avançado como principal parceira da Venezuela. Desde 2019, quando as sanções americanas se intensificaram, a China passou a ser a maior compradora de petróleo venezuelano – cerca de 68% das exportações em 2023, segundo a Energy Information Administration.
Além de comprar petróleo, a China concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos à Venezuela ao longo da última década, usando o petróleo como garantia. Essa relação cria um vínculo estratégico: a Venezuela se torna um ponto de influência chinesa no hemisfério ocidental, algo que Washington não tolera.
Doutrina Monroe revisitada
A nova estratégia de política externa dos EUA, divulgada recentemente, menciona explicitamente a Doutrina Monroe – aquela política de 1823 que dizia que a América Latina era a esfera de influência dos Estados Unidos e que qualquer intervenção europeia seria considerada uma ameaça. Hoje, a “ameaça” vem da China.
Ao retomar a Doutrina Monroe, o governo de Trump quer garantir que nenhum outro grande poder – principalmente a China – tenha acesso a recursos estratégicos como o petróleo venezuelano. É uma jogada de longa data: manter a hegemonia no continente, usando tanto diplomacia quanto, se necessário, força militar.
O que está acontecendo na prática?
- Intercepções de navios: Washington tem apreendido embarcações venezuelanas no Caribe e no Pacífico, alegando combate ao narcotráfico.
- Sanções a familiares: membros da família de Nicolás Maduro foram alvos de medidas econômicas diretas, pressionando o regime de dentro.
- Bloqueio ao petróleo: navios petroleiros vinculados ao governo venezuelano têm sido impedidos de atracar em portos, dificultando ainda mais a exportação.
Para Maduro, tudo isso equivale a um “golpe” e a “pirataria naval”. Para os EUA, é uma combinação de segurança regional e proteção de interesses econômicos.
Como isso afeta o Brasil?
Embora o Brasil não esteja entre os dez maiores detentores de reservas, ele é o sétimo maior produtor de petróleo do mundo, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia. O presidente Lula tem buscado estreitar relações com a América Latina, inclusive com a Argentina, que também tem descobertas importantes em Vaca Muerta.
O interesse americano em garantir acesso ao petróleo da região explica, em parte, a mudança de tom nas relações com o Brasil e a Argentina. Trump tem se mostrado mais conciliador com Lula, possivelmente para garantir que o Brasil continue alinhado com os interesses dos EUA no setor energético.
O que pode mudar nos próximos meses?
Se a pressão continuar, podemos assistir a três possíveis desdobramentos:
- Negociações secretas: há relatos de que Washington pode estar negociando com Caracas para garantir acesso ao petróleo, mesmo sob sanções.
- Escalada militar: caso a Venezuela não ceda, os EUA podem intensificar a presença naval no Caribe, o que aumentaria o risco de confrontos.
- Reação da China: a Pequim pode responder com mais investimentos ou até com apoio diplomático à Venezuela, aumentando a tensão geopolítica.
Para nós, leitores, o que importa é perceber que o que parece ser uma disputa “local” tem ramificações globais: preços da gasolina, influência da China na América Latina e a própria segurança do hemisfério ocidental.
Conclusão: mais do que uma guerra contra drogas
Em resumo, a ofensiva de Trump contra a Venezuela não se resume ao combate ao narcotráfico. É uma estratégia multifacetada que envolve:
- Interesse direto no petróleo pesado venezuelano para reduzir custos internos.
- Limitar a expansão da influência chinesa na América do Sul.
- Reforçar a Doutrina Monroe como justificativa para uma presença militar mais forte na região.
- Abrir portas para empresas americanas em setores que vão além do petróleo, como mineração e tecnologia.
Entender esses pontos ajuda a enxergar o quadro completo e a perceber como decisões tomadas em Washington podem, de fato, chegar até a nossa conta de luz ou ao preço da gasolina que colocamos no carro.
E você, o que acha dessa mistura de petróleo, política e geopolítica? Será que a estratégia de Trump vai trazer benefícios reais para os americanos ou acaba apenas aumentando as tensões na região? Deixe sua opinião nos comentários – adoro trocar ideias sobre esses assuntos complexos, mas que afetam o dia a dia de todos nós.



