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Por que Trump está de olho na Venezuela? O petróleo, a China e a velha Doutrina Monroe em jogo

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Por que Trump está de olho na Venezuela? O petróleo, a China e a velha Doutrina Monroe em jogo

Nos últimos meses, o clima nas notícias internacionais tem sido marcado por um tom de alerta: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descarta a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela. A retórica de Washington tem ficado cada vez mais agressiva, com bloqueios a navios petroleiros, sanções a familiares de Nicolás Maduro e até apreensões de embarcações no Caribe e no Pacífico. Mas, se você parar para pensar, vai perceber que por trás desse discurso de combate ao narcotráfico e de defesa da segurança regional há uma teia de interesses econômicos e geopolíticos bem mais complexa.

O que realmente está em jogo?

Para entender a ofensiva dos EUA, precisamos olhar para três pilares fundamentais: o petróleo venezuelano, a influência crescente da China na América Latina e a retomada da chamada Doutrina Monroe, que, embora tenha mais de dois séculos, ainda serve de bússola para a política externa americana.

1. Petróleo: a reserva mais valiosa do planeta

A Venezuela detém, segundo a Energy Information Administration (EIA), cerca de 303 bilhões de barris de petróleo comprovados – o que corresponde a 17% das reservas globais. Essa quantidade supera até a Arábia Saudita e o Irã. O problema? Grande parte desse petróleo é extra‑pesado, o que exige tecnologia avançada e investimentos de alto custo para ser extraído e refinado.

Mesmo com a infraestrutura precária e as sanções que limitam o acesso a capital, o potencial permanece enorme. E é exatamente isso que chama a atenção dos EUA. O petróleo pesado venezuelano encaixa perfeitamente nas refinarias da Costa do Golfo, nos Estados de Texas, Luisiana e Mississippi. Se o governo Trump conseguir garantir acesso a essa fonte, poderia reduzir os preços internos de combustível, aliviando o bolso dos americanos – algo que, segundo o professor Marcos Sorrilha (Unesp), está nos “expectativas de Donald Trump”.

Além do alívio nos preços, há um benefício estratégico: ao pressionar a produção venezuelana, os EUA enfraquecem a principal fonte de receita do regime de Maduro, minando sua capacidade de se sustentar politicamente.

2. A China como rival estratégico

Antes das sanções americanas, a Venezuela exportava seu petróleo principalmente para os EUA, Índia, China e Europa. Depois das restrições, a China entrou em cena como a maior compradora: em 2023, recebeu 68% das exportações venezuelanas de petróleo bruto.

Mas não se trata apenas de compra e venda. A China tem financiado a Venezuela com quase US$ 50 bilhões em empréstimos nos últimos dez anos, usando o petróleo como garantia. Esse relacionamento cria uma aliança que vai além da energia – inclui mineração, infraestrutura e, principalmente, um ponto de influência chinesa no hemisfério ocidental.

Para os estrategistas americanos, a presença chinesa na região é um “ponto vermelho”. Se a China consolidar sua posição, terá um braço econômico forte bem ao lado da porta de entrada dos EUA para o Atlântico e o Pacífico. Por isso, a ofensiva contra a Venezuela pode ser vista como parte de um jogo maior de contenção da China na América Latina.

3. Doutrina Monroe revisitada

A recém‑publicada estratégia de política externa da Casa Branca menciona explicitamente a Doutrina Monroe, criada em 1823 para impedir intervenções europeias no Hemisfério Ocidental. Hoje, o documento a usa como pretexto para “retomar” a prioridade da América Latina na segurança e prosperidade dos EUA.

Na prática, isso significa duas coisas: primeiro, reforçar a presença militar na região, o que já se traduziu em mais navios de guerra patrulhando águas próximas à Venezuela; segundo, criar um ambiente que dificulte a expansão da influência chinesa. Como explica a especialista Carolina Moehlecke (FGV), a nova doutrina americana está mais ofensiva, buscando impedir que recursos estratégicos – como o petróleo venezuelano – caiam nas mãos de rivais.

Impactos para o Brasil e a Argentina

Embora o Brasil não esteja entre os dez maiores detentores de reservas, ele é o sétimo maior produtor mundial, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia. Recentemente, o governo brasileiro tem buscado estreitar laços com os EUA, algo que o economista André Galhardo atribui ao interesse americano em garantir acesso a novas áreas de exploração, como Vaca Muerta, na Argentina.

Esse alinhamento tem duas faces: por um lado, abre portas para investimentos americanos em exploração offshore e tecnologia de refino; por outro, pode colocar o Brasil em uma posição delicada entre a pressão dos EUA e a necessidade de manter boas relações comerciais com a China, que ainda é um parceiro importante.

O que isso significa para nós, leitores?

  • Preços de combustíveis: Se o petróleo venezuelano voltar a ser acessível aos EUA, pode haver uma queda nos preços da gasolina nos Estados Unidos, mas isso não garante que o benefício será repassado ao consumidor brasileiro.
  • Segurança regional: A intensificação militar americana aumenta o risco de incidentes no Caribe, que podem afetar rotas de navegação e, indiretamente, o comércio marítimo brasileiro.
  • Geopolítica: A disputa entre EUA e China pode transformar a América Latina em um tabuleiro de xadrez, onde cada país precisa escolher alianças estratégicas. Isso pode influenciar decisões de investimento, acordos comerciais e até políticas internas.
  • Oportunidades de negócios: Empresas brasileiras que atuam no setor de energia ou tecnologia podem encontrar portas abertas para parcerias com firmas americanas que buscam expandir sua presença na região.

O que pode acontecer a seguir?

Especialistas divergem quanto ao grau de escalada. Alguns acreditam que Trump pode usar a pressão econômica como ferramenta de negociação, buscando um acordo que inclua concessões de petróleo e a retirada de sanções em troca de compromissos políticos de Maduro. Outros temem que a retórica militar se transforme em ação direta, especialmente se Washington conseguir convencer o Congresso de que a Venezuela representa uma ameaça real ao combate ao narcotráfico.

Enquanto isso, a Venezuela continua lutando contra a escassez de combustível, falta de manutenção nas refinarias e a crise humanitária que já dura anos. A população, que já enfrenta racionamento de energia e alimentos, pode ser ainda mais prejudicada se houver um bloqueio naval ainda mais rígido.

Para nós, brasileiros, a lição é observar de perto como esses movimentos se desenrolam. A política externa dos EUA pode mudar a dinâmica econômica da região, e isso tem reflexos diretos nos nossos mercados, nos preços internos e nas oportunidades de emprego nas áreas de energia e comércio exterior.

Conclusão

A ofensiva de Trump contra a Venezuela não é apenas uma questão de combate ao tráfico de drogas. É um conjunto de estratégias que envolve petróleo, a rivalidade com a China e a retomada de uma doutrina centenária que coloca a América Latina como zona de interesse prioritário dos EUA. Entender esses bastidores nos ajuda a perceber que, por trás das manchetes, há decisões que podem mudar a geopolítica do continente e, consequentemente, a nossa vida cotidiana.

Fique atento às próximas movimentações – seja nos corredores de Washington, nas negociações de Caracas ou nas discussões em Brasília – porque o futuro da energia e da política regional pode estar sendo escrito agora, longe dos holofotes, mas com impactos bem reais para todos nós.