Nos últimos dias, as manchetes foram dominadas por explosões em Caracas e a captura do presidente Nicolás Maduro. Se você ainda não acompanhou, a situação parece um filme de ação, mas tem muito mais por trás do que os tiros e as sanções. Eu decidi mergulhar nos detalhes para entender o que realmente motiva a ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela e o que isso pode significar para a gente aqui no Brasil.
O que realmente está em jogo?
Para quem acompanha a política internacional, a resposta não vem só do combate ao narcotráfico. Especialistas apontam três pilares: o imenso potencial petrolífero da Venezuela, a crescente influência da China na região e a retomada da chamada Doutrina Monroe, que, embora tenha mais de 200 anos, ainda serve de bússola para a política externa americana.
Venezuela: a maior reserva de petróleo do mundo
A Venezuela detém cerca de 303 bilhões de barris de petróleo – isso representa 17% das reservas globais conhecidas. Na prática, isso a coloca à frente da Arábia Saudita e do Irã. O problema? Grande parte desse petróleo é extra‑pesado, o que exige tecnologia avançada e investimento pesado para ser extraído.
Os EUA, que ainda têm refinarias ao longo da Costa do Golfo que podem processar esse tipo de crude, veem nisso uma oportunidade de reduzir os preços internos de combustíveis. Como explicou o professor Marcos Sorrilha, da Unesp, “o petróleo venezuelano seria uma estratégia de barateamento do preço do combustível para os americanos”. Se o governo Trump conseguir acesso a essas reservas, o impacto nos preços da gasolina nos EUA pode ser significativo.
Além disso, a pressão econômica já está sendo sentida: bloqueios a navios petroleiros, sanções a familiares de Maduro e apreensão de embarcações. Tudo isso faz parte de um plano para enfraquecer a economia venezuelana e abrir espaço para investidores norte‑americanos.
China: a parceira estratégica da Venezuela
Antes das sanções, os EUA eram os maiores compradores de petróleo venezuelano. Hoje, a China responde por 68% das exportações de crú em 2023, segundo a Energy Information Administration. O país asiático já concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos à Venezuela, usando o petróleo como garantia.
Essa relação preocupa Washington porque representa uma porta de entrada da influência chinesa na América Latina. Como destaca a especialista da FGV, Carolina Moehlecke, “a China tem exercido uma influência muito grande nos países latino‑americanos, e os EUA não têm interesse nessa aproximação geopolítica chinesa”. Para Trump, conter a China significa garantir que recursos estratégicos como o petróleo venezuelano não se tornem aliados de Pequim.
Doutrina Monroe revisitada
Em janeiro, a Casa Branca divulgou um novo documento de política externa que menciona explicitamente a Doutrina Monroe – aquela que, desde 1823, declara que nenhuma potência europeia (e agora, nenhuma potência externa) pode interferir nas Américas. O texto sugere que Washington deve “retomar” esses princípios, focando na segurança e prosperidade da região.
Na prática, isso se traduz em uma maior presença militar, sanções mais duras e apoio a líderes que se alinhem aos interesses dos EUA. A ideia é clara: impedir que a China se aproxime de recursos estratégicos e, ao mesmo tempo, abrir mercados para empresas americanas.
O que isso significa para o Brasil?
Embora a Venezuela esteja a milhares de quilômetros, as repercussões chegam até nós. Primeiro, a disputa por petróleo pode influenciar os preços globais de energia, afetando o custo da gasolina nas bombas brasileiras. Segundo, a estratégia de Trump de reforçar laços com o Brasil e a Argentina tem tudo a ver com a competição por reservas de petróleo – o Brasil já é o sétimo maior produtor mundial, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia.
Além disso, a presença militar dos EUA na América Latina pode mudar o cenário de segurança regional. Se Washington intensificar a cooperação militar com países como o Brasil, isso pode trazer investimentos em tecnologia e treinamento, mas também pode gerar tensões com outras potências, como a China.
Para nós, consumidores, a principal preocupação continua sendo o preço da energia. Se a disputa por recursos venezuelanos levar a um aumento nos preços globais, o bolso do brasileiro será o primeiro a sentir. Por outro lado, a abertura de mercados para empresas americanas pode gerar oportunidades de negócios para setores como tecnologia, agronegócio e energia.
Conclusão: um jogo de xadrez geopolítico
O que parece ser uma “guerra contra o tráfico” é, na verdade, um movimento estratégico que combina interesses econômicos, políticos e militares. O petróleo venezuelano, a presença da China e a velha Doutrina Monroe são as peças-chave desse tabuleiro.
Para quem acompanha a política internacional, fica claro que a América Latina está novamente no centro das atenções dos EUA. E para nós, brasileiros, entender esses movimentos ajuda a antecipar como eles podem afetar nossa economia, nossa segurança e, até mesmo, nosso dia a dia.
E você, o que acha dessa ofensiva? Acha que os EUA vão conseguir garantir acesso ao petróleo venezuelano? Ou a China vai manter seu domínio na região? Deixe seu comentário, vamos conversar!



